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domingo, 21 de outubro de 2012

“O QUE É SER NORMAL?”


Por Mariuza Pregnolato


Por que
ficamos, às vezes, atormentados com a dúvida “Será que eu sou normal?”
Porque grande parte dos problemas que atormentam as nossas vidas são internos, isto é, são dúvidas da vida privada das pessoas e elas não tem como saber que outras pessoas também podem, em algum momento da vida, vivê-los igualmente. Por parecerem perigosos, ou vergonhosos, ou graves demais, ou bobos demais, etc.. elas alimentam a idéia de que há algo errado com elas, sentindo-se sozinhas naquele sofrimento que parece controlá-las.

O que é ser normal?
O conceito de normalidade é muito difícil de ser estabelecido porque envolve contingências sócio-culturais, normativas e legais, geográficas, quantitativas, familiares, podendo também estar impregnado de tabus, etc. Por exemplo, em nossa sociedade considera-se anormal ser excessivamente agressivo, mas um indivíduo que cresceu num ambiente de muita brutalidade – se ele for ‘normal’, isto é, saudável – terá que desenvolver bastante sua agressividade por uma questão de sobrevivência e, por conseguinte, tornar-se-á mais agressivo que a média das pessoas de nosso convívio. 
Se esse indivíduo for analisado contextualmente, não poderá ser considerado anormal, pois sua adaptação ocorreu em sintonia com o que aprendeu em seu meio. Portanto, naquele contexto, ele é normal. A sociedade mais ampla, porém, tenderá a temê-lo e a rotulá-lo de anormalmente agressivo. Talvez o exemplo que ilustre melhor essa questão seja o fato de que, durante a segunda guerra mundial, era normal ser nazista na Alemanha.

Num mundo com tantas tribos, em que existe espaço para cada um ser o que é, ainda é possível haver dúvida sobre o que é ser normal?
Apesar da aparente aceitação da diversidade no comportamento das pessoas, há atitudes que são consideradas desviantes e ativam o preconceito existente em alguns grupos de pessoas. Por exemplo, um rapaz com o corpo e rosto cobertos de tatuagem pode ser um gênio financeiro e ser recusado num processo de seleção a um cargo a que ele estaria plenamente apto a ocupar numa instituição financeira tradicional. Embora seja aceito espontaneamente por sua ‘comunidade de tatuados’, é apenas tolerado na sociedade em geral e recusado numa comunidade mais tradicional. Mesmo que ele seja alguém bastante adequado em todas as outras áreas de sua vida, os grupos preconceituosos tenderão a associar sua aparência a aspectos negativos como delinqüência, criminalidade, insubordinação, etc..

O terapeuta pode ajudar a desfazer o conflito de uma pessoa que se acha anormal?
Com certeza! Ele é capaz de ajudar a pessoa a escolher o caminho ou atitude que irão lhe oferecer a melhor possibilidade de fazer o que gosta sem ser punido por isso e sem afetar negativamente a sociedade. No exemplo acima, se o grande sonho desse rapaz for trabalhar numa grande instituição financeira que tem um caráter visivelmente conservador, ele precisará considerar que tatuar todo o seu corpo provavelmente o impedirá de realizar esse sonho. Não adianta ele gritar, a plenos pulmões, que é livre para fazer o que quiser com seu corpo e rosto, se vai frustrar-se com as limitações que esse procedimento lhe trouxer no futuro.
No momento em que está tomada por suas emoções e desejos, é comum que a pessoa aja impulsivamente, adotando atitudes que podem trazer duras conseqüências no futuro. É com esse tipo de reflexão que o terapeuta pode ajudar a pessoa a proteger-se de sofrimentos futuros, já que o ser humano tende, em geral, a enxergar somente a gratificação mais imediata. 
O imediatismo pode transformar-se em auto-sabotagem e esse mecanismo precisa ser compreendido e substituído por outro mais eficiente. Caso ele já esteja sofrendo a conseqüência de um ato impensado, o trabalho terapêutico o ajudará a lidar com as frustrações decorrentes de seus atos e a enxergar e abrir novos caminhos que sejam condizentes com a sua condição atual.

Normalidade passa pelo critério de auto-aceitação?
Também, mas passa, principalmente, pelo critério da reflexão e análise profunda, em que todo o contexto precisa ser considerado amplamente, para que se decida se um determinado indivíduo ou situação pode ser considerado anormal em relação às várias contingências que o geraram e o mantém. 

Quem se perturba mais com dúvidas sobre a questão da normalidade: homens ou mulheres?
Ambos. As mulheres costumam apresentar maior facilidade para buscar ajuda diante de situações difíceis, daí porque tende a parecer que elas têm mais problemas e dúvidas. Na verdade, nossa sociedade ainda é machista, de modo que, ao mesmo tempo em que privilegia o homem em algumas questões, por outro lado ainda cobra dele uma postura de forte, capaz, racional, resolvido, etc., o que inibe sua disposição para mostrar suas fragilidades e dúvidas. Para não parecer um “fracote”, ele abre mão de buscar ajuda para suas fraquezas, fingindo e tentando aparentar uma fortaleza que, na maioria das vezes, não possui.

O medo de não ser normal impede as pessoas de iniciarem seu processo terapêutico?
Isso ocorre, mas o mais comum é que essa dúvida seja mais um motivo para levá-las à terapia do que para impedi-las É tão grande o alívio que se obtém ao descobrir que o drama interno que está sendo vivido não é tão grave assim, que as pessoas, em geral, lamentam não ter dado esse passo antes. Na terapia, elas aprendem a relativizar a importância dos fatores que as fazem sofrer e a resolver questões que, anteriormente, pareciam insolúveis. 

Por que uma pessoa que se sente normal faria terapia se ainda há preconceito em procurar um psicólogo?
Penso que o fato de existirem tantas pessoas bem-sucedidas, bem resolvidas e inteligentes que fazem terapia e a valorizam, tem feito com que muito preconceito tenha caído no vazio. No entanto, fazer terapia é um passo que deve ser dado por cada um individualmente, quando sentir que está pronto para buscar ajuda. Isso irá ocorrer no momento em que a pessoa decidir que deseja tomar a sua vida nas próprias mãos, ao invés de continuar prestando contas a opiniões de terceiros. 
O terapeuta nunca irá interferir na vida da pessoa de modo direto, nem nunca decidirá nada por ele. Será um coadjuvante do seu desenvolvimento pessoal e o analisando tornar-se-á uma pessoa mais inteira, mais livre das armadilhas sociais, mais autônomo e dono de sua própria vida.

Meus problemas parecem tão insignificantes, que tenho vergonha de admitir que sofro tanto por coisas tão bobas. Isso é normal?
Questões aparentemente insignificantes ou pueris são, às vezes, responsáveis por altas doses e longos períodos de sofrimento. Às vezes a pessoa acha que seu problema é tão pequeno, que não tem coragem de contá-lo a ninguém. O que é preciso que se compreenda é que nada é bobinho ou insignificante, se for capaz de trazer sofrimento. Por essa razão, sempre merecerá ser tratado. Da mesma forma, a pessoa que não se sente normal, e sofre com isso, deve buscar ajuda para compreender o que está ocorrendo e poder voltar a se sentir feliz.

FONTE: http://www.mariuzapregnolato.com.br/?cont=faq_sobre_o_que_e_ser_normal

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