A lista de celebridades que
revelaram sofrer de depressão e ansiedade aumentou consideravelmente nos
últimos meses: atores, músicos e modelos decidiram falar publicamente
sobre saúde mental, um assunto que poucos tocavam.
Um dos exemplos
mais recentes foi o de Zayin Malik, 23 anos, ex-integrante do grupo One
Direction, que cancelou uma série de shows alegando "ansiedade
extrema".
A cantora Selena Gómez anunciou uma pausa na carreira
também em setembro devido a crises de depressão e ansiedade e chegou até
a se internar voluntariamente.
Bruce Springsteen escreveu em sua biografia lançada em setembro, Born to Run,
sobre como luta há anos com a depressão. O músico americano chegou até a
admitir que a doença o "subjugou" em algumas ocasiões.
A
atriz Demi Lovato revelou que sofre de transtorno bipolar, e a cantora
americana Jo-Jo lutou contra a depressão ao mesmo tempo que enfrentava
sua própria gravadora devido a problemas ligados ao seu contrato.
Pelo
menos para alguns famosos, parecem ter ficado para trás os dias em que
agentes e assessores tinham que elaborar desculpas como "está com
desidratação" ou "precisa de descanso pois está exausto (a)".
Efeito
A
tendência entre os "ricos e famosos" surpreende e leva muitos a
questionarem se todos eles se sentem confiantes o bastante para expor
problemas relacionados a saúde mental desta forma.
No programa Ouch, da BBC, que trata de temas relacionados à saúde, especialistas deram várias explicações para esta nova tendência.
A primeira foi o celular e o fácil acesso a redes sociais.
"Uma
das coisas que mudaram foram as expectativas que as pessoas têm em
relação às celebridades. Agora os fãs (e até aqueles que não são fãs)
estão mais acostumados a ver seu cotidiano pelas redes sociais", disse à
BBC Mark Brown, pesquisador em temas de saúde mental. O ruído nas redes
e o eco na mídia tradicional mudou radicalmente o vínculo entre fãs e
celebridades.
Basta um exemplo para perceber a diferença. Quando
Britney raspou a cabeça em 2007, o mundo acompanhou o caso através de
fotos dos paparazzi, publicadas em jornais e revistas.
Hoje, este mesmo caso já causaria ruído em uma questão de horas, pois as pessoas iriam compartilhar a informação nas redes.
"Antes,
essas coisas já aconteciam diante dos fotógrafos, mas não era de uma
forma tão aberta. Agora há um diálogo com as celebridades, que tiraram
os intermediários do caminho", explicou a blogueira Molloy-Vaughan.
Analistas
afirmam também que a sensação de proximidade com as celebridades é uma
ficção alimentada pelas próprias redes sociais e que esta familiaridade
determina o tom do diálogo.
E também existe uma "permeabilidade entre famosos e não famosos" que, é claro, tem seus custos.
"As
celebridades sacrificam sua privacidade em troca de mais seguidores e
mais fama, e, como consequência, a saúde mental segue (esta tendência)",
afirma Brown.
Mudança?
Para outros, o que está acontecendo é uma mudança na percepção da saúde mental.
"Estamos no fim de uma década onde estamos falando da saúde mental dos famosos de uma outra maneira", explica Brown.
Nos
anos 1950 e 1960, por exemplo, seria difícil imaginar Marilyn Monroe ou
Gregory Peck falando tão diretamente sobre suas vidas. Hoje os famosos
conseguem dezenas de milhares de curtidas apenas minutos depois de
publicar um post no Facebook ou um tuíte.
"Quando entendemos que são pessoas e não apenas um
rosto famoso, começamos a perceber quando elas estão bem e quando não
estão", acrescentou o pesquisador.
Seguindo esta premissa, fica
difícil para os famosos esconderem seus problemas do olhar - virtual
porém onipresente - de seus seguidores.
Com este novo
comportamento, é como se as celebridades não estivessem mais no pedestal
imaginário. Como se dissessem: "Quer saber? Eu ia aparecer na
televisão, ia voar em um jatinho, mas, em vez disso, tenho que ficar em
casa, de pijama, comendo cereal seco sem leite porque não posso sair
para enfrentar o mundo."
Primeira pessoa
Quando
Zayn Malik cancelou suas apresentações devido a problemas com
ansiedade, sua namorada (a também famosa) modelo Gigi Hadid, elogiou sua
"humanidade" e acrescentou que estava "orgulhosa" com a "honestidade"
do namorado.
Mas nem sempre "se abrir" nas redes sociais é uma
experiência boa. A blogueira Seaneen Molloy-Vaughan sofreu com isso ao
relatar em primeira pessoa sua luta."Foi difícil. Foi bom por um lado e sempre dei valor
às pessoas que queriam interagir. Mas envolveu exposição e colocar tudo
para fora", confessou Molloy-Vaughan que, em seu blog, escreve sobre
seus problemas mentais.
"Sugerimos à pessoa famosa que é uma boa
ideia expor (o caso) e ser uma espécie de soldado contra o estigma das
doenças mentais e isso permite dar uma diversidade de rostos e vozes
para o problema, em vez de apresentar (o problema) como uma estatística
abstrata", contou Brown, que faz parte da organização britânica de
orientação e projetos sociais Social Spider.
"Mas o problema é que
podemos controlar como alguém conta uma história mas não controlamos
como as pessoas vão responder", acrescentou.
Ao mesmo tempo que as mensagens de apoio se multiplicam, também existe a possibilidade de bullying virtual.
Mesmo
assim os psicólogos concordam que abrir o diálogo sobre saúde mental
para milhões de pessoas - jovens, em sua maioria - é um benefício para a
saúde pública e a sociedade.
Uma pesquisa feita em 2014 pela
Mind, uma organização britânica que trabalha em temas de saúde mental,
sugere que 28% dos 2 mil entrevistados conseguiu falar de um problema
psiquiátrico com um ente querido como consequência direta de uma
declaração pública feita por uma pessoa famosa.
Além disso, outros
25% que ouviram uma celebridade falando de suas dificuldades começaram a
pensar em seus próprios problemas e acabaram pedindo ajuda.
O Instagram foi considerada a pior
rede social no que concerne seu impacto sobre a saúde mental dos jovens,
segundo uma pesquisa do Reino Unido.
Na enquete, 1.479 pessoas
com idades entre 14 e 24 anos avaliaram aplicativos populares em
quesitos como ansiedade, depressão, solidão, bullying e imagem corporal.
Organizações de saúde mental pediram às empresas que mantém os aplicativos a aumentar a segurança dos usuários.
Em
resposta, o Instagram disse que uma de suas maiores prioridades é
manter a plataforma como um lugar "seguro e solidário" para os jovens.
O
estudo, da Sociedade Real para Saúde Pública (RSPH, na sigla em inglês)
na Grã-Bretanha, sugere que as plataformas avisem, através de um
pop-up, toda vez que houver uso excessivamente intenso das redes
sociais, e que identifiquem usuários com problemas de saúde mental.
O
Instagram diz que oferece ferramentas e informações sobre como lidar
com bullying e avisa os usuários sobre conteúdos específicos de algumas
páginas.
A pesquisa afirmou que "as redes sociais podem estar alimentando uma crise de saúde mental" entre jovens.No entanto, ela também pode ser usada para o bem, segundo o
estudo. O Instagram, por exemplo, teve um efeito positivo em termos de
autoexpressão e autoidentidade, segundo a pesquisa.
Cerca de 90%
dos jovens usam redes sociais - mais do que qualquer outra faixa etária
-, o que os torna especialmente vulneráveis a seus efeitos, apesar de
não estar exatamente claro quais seriam estes no momento.
'Depressão profunda'
Isla
é uma jovem de 20 e poucos anos. Ela ficou "viciada" em redes sociais
durante a adolescência quando estava passando por um momento difícil de
sua vida.
"As comunidades online me fizeram sentir incluída, como
se a minha existência valesse a pena", diz. "Mas eu comecei a
negligenciar minhas amizades na 'vida real' e passava todo o meu tempo
online conversando com meus amigos lá".
"Eu passei por uma
depressão profunda quando tinha 16 anos, ela durou meses e foi terrível.
Durante esse período, as redes sociais me fizeram sentir pior, eu
constantemente me comparava com outras pessoas e isso fazia eu me sentir
mal", conta a jovem.
"Quando eu tinha 19 anos, tive outro
episódio de depressão profunda. Eu entrava nas redes sociais, via meus
amigos fazendo várias coisas e me odiava por não conseguir fazê-las ou
me sentia mal por não ser uma pessoa tão boa quanto eles".
As redes sociais também tiveram um efeito positivo
na vida de Isla. "Eu bloguei muito sobre saúde mental, sou bem aberta em
relação a isso e tive boas conversas com as pessoas sobre o assunto."
"Eu
acho que me dá uma plataforma pra falar sobre isso. Conversar com as
pessoas é algo imperativo para a minha saúde. Eu ainda sou amiga de
pessoas que conheci na internet há cinco, seis anos e até encontrei
algumas delas pessoalmente", diz.
A pesquisa online fez uma série
de perguntas sobre o impacto das redes YouTube, Instagram, Snapchat,
Facebook e Twitter em termos de saúde e bem-estar. Os participantes da
pesquisa deveriam avaliar cada plataforma em 14 tópicos relacionados aos
temas.
Com base nessas avaliações, o YouTube foi a rede com o
impacto mais positivo em termos de saúde mental, seguido por Twitter e
Facebook. Snapchat e Instagram tiveram as piores pontuações.
'Faroeste'
"É
interessante ver Instagram e Snapchat nas piores posições para saúde
mental e bem-estar - ambas as plataformas são bastante focadas em imagem
e parecem causar sentimentos de inadequação e ansiedade nos jovens",
diz Shirley Cramer, executiva-chefe da RSPH.
Com base nessas
descobertas, especialistas em saúde pública estão pedindo para que as
plataformas de redes sociais introduzam uma série de checagens e medidas
para melhorar a saúde mental, incluindo:
Avisos de que as pessoas estão fazendo
uso excessivo das redes sociais (apoiada por 70% dos jovens que
participaram da pesquisa);
A identificação, por parte das
plataformas, de usuários com problemas de saúde mental (pelo conteúdo de
postagens) seguida de "indicações discretas sobre como eles podem
conseguir apoio";
Sinalização de quando as fotos foram
digitalmente manipuladas - por exemplo, marcas de roupa, celebridades e
outras organizações publicitárias poderiam utilizar um pequeno ícone nas
fotos alteradas digitalmente.
Tom Madders, da organização de saúde mental
YoungMinds, disse que as recomendações podem ajudar muitos jovens.
"Aumentar a segurança nas redes sociais é um passo importante que
pedimos para Instagram e outras redes tomarem", disse.
"Mas também é importante reconhecer que simplesmente 'proteger' jovens de alguns conteúdos jamais será a solução total".
Ele
disse que os jovens precisam entender os riscos de como eles se
comportam na internet e devem aprender como reagir a "conteúdos nocivos
que escapam dos filtros".
Michelle Napchan, chefe das políticas do
Instagram, disse que "manter a solidariedade e segurança do Instagram
como um local onde as pessoas se sintam à vontade para se expressar é a
nossa maior prioridade - especialmente em relação aos jovens".
"Todos
os dias, pessoas em todas as partes do mundo usam o Instagram para
compartilhar sua própria jornada de saúde mental e conseguir apoio no
Instagram quando e onde eles precisarem".
"É por isso que
trabalhamos em parceria com especialistas para dar às pessoas as
informações e ferramentas que elas precisam para usar o aplicativo,
inclusive sobre como denunciar conteúdo, conseguir apoio para um amigo
que lhes preocupa ou contatar diretamente um especialista para pedir
conselhos sobre como lidar com um problema".
"Quanto eu tinha mais ou menos uma
semana de idade eu lembro de estar enrolada em um cobertor rosa de
algodão", lembra Rebecca Sharrock. "Por algum motivo, eu sempre sabia
quando era a minha mãe que estava me pegando no colo, eu sempre soube
instintivamente disso e ela era minha pessoa preferida".
Considerando
que a memória da maioria das pessoas não é capaz de gravar
acontecimentos anteriores aos quatro anos de idade, pode ser fácil
pensar que a descrição de Sharrock seja um sonho nostálgico em vez de
uma memória real. Mas a mulher australiana de 27 anos não tem uma
memória comum - ela foi diagnosticada com uma síndrome rara chamada
"Memória Autobiográfica Altamente Superior", ou HSAM na sigla em inglês,
também conhecida como Hipertimesia ou Síndrome da Supermemória. Essa
condição neurológica única significa que Sharrock consegue lembrar de
absolutamente tudo que ela fez em qualquer data. Pessoas com essa síndrome podem se lembrar instantaneamente e
sem esforço algum de qualquer coisa que fizeram, o que vestiram ou onde
estavam em qualquer momento da vida. Elas podem lembrar de notícias e
acontecimentos pessoais com tantos detalhe e com uma exatidão tão
perfeita que são comparáveis a uma gravação. Ao crescer, Sharrock
pensava que todos lembravam das coisas como ela. Até que um dia seus
pais a chamaram para ver uma reportagem na TV sobre pessoas com HSAM.
"Era 23 de janeiro de 2011", lembra ela. "Quando aquelas pessoas
começaram a lembrar de suas memórias, os repórteres diziam 'é incrível'.
Eu disse aos meus pais 'por que eles dizem que isso é incrível, não é
normal?'". Seus pais explicaram a ela que não era normal e que achavam
que ela tinha a mesma síndrome.
Depois de entrar em contato com os especialistas
citados na matéria, Sharrock foi examinada e então diagnosticada em
2013. A HSAM só foi descoberta por volta do ano 2000 e na época sabia-se
que apenas 60 pessoas no mundo tinham a síndrome. Por que algumas
pessoas nascem com a Supermemória? As pesquisas ainda estão em
andamento, já que existem tão poucas pessoas com a síndrome no mundo e a
área ainda é relativamente nova. Mas alguns estudos indicam que o lobo
temporal (que ajuda no processamento de memória) é maior nos cérebros
das pessoas com HSAM, assim como o núcleo caudado, que ajuda no
aprendizado mas também pode influenciar na síndrome
obsessivo-compulsiva. Ter uma supermemória significa que as
memórias são gravadas em detalhes vívidos, o que é fascinante em termos
científicos, mas pode ser uma praga para quem tem a síndrome. Algumas
pessoas com HSAM dizem que suas memórias são muito organizadas, mas
Sharrock (que também foi diagnosticado com transtorno autista) descreve
seu cérebro como "entupido" e diz que reviver memórias lhe dá dor de
cabeça e insônia.
Também há um lado obscuro, já que Sharrock sofreu de
depressão e ansiedade por causa disso. Sua memória extraordinária faz
com que ela se sinta em uma máquina do tempo emocional. "Se eu estou
lembrando de algo que aconteceu quando eu tinha três anos, minha
resposta emocional à situação é semelhante à de uma criança de três
anos, mesmo que minha mente e consciência sejam de adulta", diz ela.
Essa disparidade entre cabeça e coração faz com que ela se sinta confusa
e ansiosa. Apesar disso, Sharrock aprendeu a tentar usar memórias
positivas para superar as negativas: "No começo de todo mês, eu escolho
todas as melhores memórias que tive naquele mês em outros anos".
Reviver acontecimentos positivos facilita na hora de lidar com as
"memórias invasivas" que a fazem se sentir mal. A
supermemória também pode nos dar uma percepção sem precedentes sobre
como bebês e crianças veem o mundo. Sharrock descreve o que lhe chamou
atenção quando era um bebê, assim como quando aprendeu a caminhar. "Eu
estava no meu berço, virei a cabeça e vi coisas ao meu redor, como o
ventilador. Fiquei fascinada por aquilo. Só quando eu tinha um ano e
meio que me antenei, 'por que não me levanto e vou explorar o que deve
ser aquilo?'"
Outro aspecto dessa habilidade é como ela pode
afetar o sono de pessoas com HSAM. Sharrock diz que agora, como adulta,
"eu posso controlar meus sonhos e raramente tenho pesadelos porque eu
penso que se alguma coisa assustadora acontecer eu posso mudar a
sequência". Mas não foi assim quando era bebê, já que quando
começou a sonhar, por volta dos 18 meses, ela não sabia diferenciar
sonho de realidade. "É por isso que eu chorava à noite", explica, "mas
eu não conseguia verbalizar". Talvez as pessoas com HSAM tenham uma
habilidade maior de viver sonhos lúcidos. Agora, Sharrock
participa de dois projetos de pesquisa da Universidade de Queensland e
da Universidade da Califórnia em Irvine e espera que as descobertas
ajudem as pessoas que sofrem com o mal de Alzheimer. Apesar de ter
memórias claras de tudo que lhe acontece, só há um acontecimento que ela
não lembra - seu nascimento.
"É o único aniversário que eu não lembro", diz ela.
"Eu não tenho memórias do útero ou de estar saindo da minha mãe, nada
disso. Mas eu não acho que gostaria de lembrar disso". Apesar de
sua mente ser como um CD no modo repeat, Sharrock diz que não mudaria
nada. "Devido ao meu autismo, eu não gosto de mudar nada. Eu quero
continuar pensando e sentindo da maneira que faço porque é como eu
sempre pensei e senti, eu só gostaria de achar formas de lidar com
isso", diz ela. "É a pessoa que eu sempre fui...Quero me manter assim"
Um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, já mostrou
que os brasileiros estão entre os que menos dormem no mundo. A média é
de 7h36 por noite. O que, para muitas pessoas, não é suficiente.
Muitas pesquisas sugerem que reduzir o sono, deliberadamente ou de outra forma, pode ter um impacto sério no organismo.
Algumas noites mal dormidas podem afetar o controle de açúcar no
sangue e fazer com que a gente coma demais. Chegam até a bagunçar nosso
DNA. Há alguns anos, o programa da BBC Trust Me I'm a Doctor
("Confie em mim, eu sou médico", em tradução livre para o português)
realizou um experimento em parceria com a Universidade de Surrey, na
Inglaterra. Eles pediram a voluntários que reduzissem suas noites de
sono em uma hora durante uma semana. Simon Archer, que ajudou a
executar o experimento, descobriu que o fato de ter uma hora a menos de
sono por noite afetou a atividade de diversos genes dos participantes
(cerca de 500 no total), incluindo alguns associados à inflamação e ao
diabetes.
Noites mal dormidas
Ou
seja, não há dúvidas sobre os efeitos negativos da falta de sono no
organismo. Mas que efeitos as noites mal dormidas podem ter na saúde
mental? Para descobrir, a equipe do programa Trust Me I'm a Doctor
se juntou a cientistas do sono da Universidade de Oxford para conduzir
um experimento de pequeno porte. Desta vez, foram recrutados
quatro voluntários que têm o hábito de dormir profundamente. Eles foram
conectados a dispositivos que monitoram o sono com precisão. Nas três
primeiras noites, dormiram oito horas seguidas, sem interrupção. Já nas três noites seguintes, o sono dos participantes foi limitado a apenas quatro horas. Diariamente, os voluntários preenchiam um
questionário psicológico, desenvolvido para identificar qualquer mudança
emocional ou de humor. Eles também gravavam vídeos diários. E qual foi o resultado? Sarah
Reeve, estudante de doutorado que conduziu o experimento, ficou
surpresa com a rapidez com que o humor dos participantes mudou. "Houve
um aumento na ansiedade, na depressão e no estresse. Também aumentou a
paranoia e o sentimento de desconfiança em relação a outras pessoas",
revela. "Dado que isso aconteceu após apenas três noites de privação de sono, é muito impressionante", completa. Três dos quatro voluntários consideraram a experiência desagradável. Mas um dos participantes disse não ter sido afetado. "Essa
semana provavelmente não me afetou tanto quanto pensei ", afirmou Josh.
"Me sinto perfeitamente bem - nem feliz, nem triste, estressado ou
qualquer coisa." Os testes realizados mostraram, no entanto, um quadro bem diferente. As
emoções positivas de Josh diminuíram bruscamente após duas noites de
sono interrompido, enquanto as emoções negativas começaram a aumentar. Desta forma, embora ele se sentisse bem, havia sinais de que ele estava começando a ser afetado mentalmente.
'Preso' em pensamentos negativos
O
resultado do teste confirma a descoberta de um estudo muito maior, que
analisou o impacto da privação do sono na saúde mental de estudantes. Pesquisadores
recrutaram mais de 3,7 mil alunos de universidades do Reino Unido que
já tinham relatado dificuldades para dormir. Eles foram divididos
aleatoriamente em dois grupos. O primeiro participou de seis sessões
online de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) destinadas a melhorar o
sono. Já o outro recebeu apenas conselhos padrão. Dez semanas
após o experimento, os estudantes que foram submetidos à terapia
apresentaram uma redução de 50% nas taxas de insônia, acompanhada de
melhorias significativas na pontuação para depressão e ansiedade, além
de diminuição da paranoia e alucinações. A pesquisa, considerada o
maior estudo randomizado controlado de tratamento psicológico para a
saúde mental, sugere fortemente que a insônia pode causar problemas de
saúde mental, em vez de ser simplesmente uma consequência. Daniel
Freeman, professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford, que
liderou o estudo, acredita que uma das razões pelas quais a privação do
sono é tão prejudicial para nossos cérebros é porque ela incentiva o
pensamento negativo repetitivo. "Temos mais pensamentos negativos quando somos privados de sono e ficamos presos neles", explica. Ele
não acredita, no entanto, que algumas noites mal dormidas signifiquem
que a pessoa vai ter uma doença mental. Mas, segundo ele, o risco de
fato aumenta. "A cada noite, uma em cada três pessoas está tendo
dificuldade para dormir. Talvez 5% a 10% da população geral tenha
insônia. Muita gente lida com isso e segue com suas vidas. Mas isso
aumenta o risco de uma série de dificuldades relacionadas à saúde
mental." Mas há também o lado positivo. A pesquisa mostra que ter uma boa noite de sono pode ajudar a melhorar a sensação de bem-estar. Norbert Schwarz, professor de psicologia da Universidade do Sul da Califórnia, faz uma metáfora. "Ganhar
US$ 60 mil (R$ 196 mil) a mais por ano tem menos efeito na sua
felicidade diária do que uma hora a mais de sono por noite", afirma. Sendo assim, tenha uma boa noite. FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/geral-41832510
O luto é um sentimento existencial humano absolutamente normal e
universal, perante situações de perdas como, por exemplo, a morte de
entes queridos.
Há diversos estágios do luto como entorpecimento (choque, descrença e
negação da perda que pode levar horas ou até dias para curar e que pode
ser acompanhado depois por reação de defesa), anseio e busca (a pessoa
fica inquieta, descrente, com crises de raiva e que pode durar meses ou
anos), desorganização e desespero (reconhecimento de que a perda é
irreversível, ocorrendo depressão e isolamento social), até o estágio
final de recuperação e restituição.
Portanto, há muitos sentimentos e mudanças comportamentais diferentes
envolvendo os diversos estágios do luto como depressão, raiva, insônia,
ansiedade, apatia, passividade, isolamento e agitação psicomotora.
Quando a dor psíquica e a tristeza do luto invadem completamente a
vida da pessoa por mais de seis meses com prejuízos sociais, familiares e
até profissionais, além da persistência de sintomas como tristeza,
desânimo, perda do prazer ou interesse por atividades habituais,
ansiedade, irritabilidade, pensamentos negativos (morte, culpa, ruína),
alterações do sono, apetite e concentração, a indicação é procurar uma
ajuda médica psiquiátrica para avaliação da resolução do luto que pode
ser patológica e até desencadear algum transtorno mental. A psicoterapia
pode ser eficaz também na resolução dos conflitos psíquicos gerados
pelo luto.
Quando o luto é persistente e patológico, alguns transtornos mentais
podem ocorrer como os transtornos de ansiedade, humor, alcoolismo, entre
outros.
É bom deixar claro que o luto em si não causa transtornos mentais. O
que ocorre é que, em um subgrupo de pessoas vulneráveis (fatores de
personalidade e até genéticos têm sido estudados sem uma conclusão
definitiva), o impacto do luto pode ser um grande estressor psicossocial
mantido e desencadear transtornos mentais. Portanto, o luto seria um
"gatilho" para os transtornos mentais.
Mesmo quando tudo pede Um pouco mais de calma Até quando o corpo pede Um pouco mais de alma A vida não para
Enquanto o tempo Acelera e pede pressa Eu me recuso, faço hora Vou na valsa A vida é tão rara Enquanto todo mundo Espera a cura do mal E a loucura finge Que isso tudo é normal Eu finjo ter paciência O mundo vai girando Cada vez mais veloz A gente espera do mundo E o mundo espera de nós Um pouco mais de paciência Será que é tempo Que lhe falta pra perceber? Será que temos esse tempo Pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara Tão rara. FONTE: https://www.letras.mus.br/lenine/47001/
A praxiterapia, ou terapia
prática, é o uso ou aplicação de um ritual, de um comportamento, de um
movimento físico já utilizado no passado, consciente ou
inconscientemente, com duas finalidades principais; a primeira, no caso
de nunca ter sido usado antes, para que ele seja inconscientizado com
todos os afetos associados ou ancorados a eles, como, por exemplo, numa
técnica neurolinguistica de imprint desenvolvida por Richard Bandler,
John Grinder e Milton Erickson.
A segunda finalidade é precisamente o contrário, quando estes
comportamentos ou movimentos já existiram antes, eram frequentemente
usados no passado, para que ele ser re-ungido com os sentimentos, com a
afetividade ancorada nesses comportamentos antidos como uma técnica de
cura aplicada por um agente terapêutico.
Esses comportamentos, ou rituais antigos ficam guardados como um
patrimônio, como um recurso, como uma memória talvez para que a vida os
utilizem no futuro.
Se recorremos a Viktor Frankl, Ph.D., o criador da Logoterapia e da
psicoterapia existencial humanista, vemos que um dos pressupostos da
humanização do homem é o exercício da sua liberdade.
A praxiterapia é uma revolução, na medida em que, quando o sujeito se
comporta "como se" estivessem bem, eles, por isto, se tornam bem.
No Centro de Ensino Profissional Graziela Reis de Souza, eu, Enfermeiro Marcelo Luiz Pereira desenvolvi simulações de Praxiterapia com meus alunos dos Cursos de Aconselhadores de Dependentes Químicos e Cuidadores de Idosos. Os resultados foram excelentes, houve a participação de todos, e a harmonia na realização das tarefas (jogos educativos, desenhos, pinturas, colagens, e o dia da beleza) foi marcante.
Pude constatar ainda que o processo de construção das atividades foi extremamente salutar, com uma resposta altamente positiva por parte dos envolvidos.
Para a maior parte das pessoas, uma
toalha, um jornal ou sapatos não são nada além de objetos comuns. Mas,
para algumas pessoas, itens como estes podem desencadear pensamentos
invasivos difíceis de serem controlados.
Se você não tem o
transtorno obsessivo compulsivo (TOC), pode ser difícil entender como um
objeto inofensivo pode atrapalhar o cotidiano de uma pessoa e colocá-la
em uma espiral incontrolável.
Este distúrbio de ansiedade é
caracterizado por pensamentos invasivos, recorrentes e persistentes que
geram inquietação, medo e preocupação, e desencadeando compulsões -
comportamentos repetitivos com os quais os pacientes tentam reduzir sua
ansiedade.
É um transtorno mental comum, de acordo com o serviço de saúde
pública do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês). Ele afeta homens,
mulheres e crianças e pode desenvolver-se em qualquer idade, embora
apareça com mais frequência no início da idade adulta.
A BBC falou
com três pessoas que sofrem de TOC e pediu-lhes que apontassem para um
objeto que simbolizasse todo o seu sofrimento.
Estas são suas histórias, contadas em primeira pessoa.
Eve e os jornais
"Sempre
pensei o pior de mim mesma. Na minha melhor avaliação, eu era um
fracasso que não agradava e que não deveria agradar a ninguém. Na pior
das hipóteses, eu era uma pessoa terrível.
Mas, quando eu tinha 22 anos, o ódio que sentia por mim mesma piorou ainda mais.
Comecei a me preocupar com a possibilidade de que isso me tornasse uma pessoa perigosa, que eu pudesse machucar os outros.
Não consigo descrever quão horrível era esse sentimento. Comecei a evitar todo mundo, com medo de que pudesse machucar alguém.
Um dia eu li um artigo sobre um estuprador e
assassino. A agitação inicial e o horror que senti foram rapidamente
substituídos pela ideia de 'e se eu me tornasse uma pessoa tão ruim
assim?'.
Artigos de jornais - e as próprias notícias - juntaram-se à longa lista de coisas que eu temia.
E se as histórias de alguma forma contaminassem minha mente e me piorassem ainda mais?
Para
alguém que não possui TOC e tem uma opinião razoável de si mesmo, isso
pode parecer ridículo. Mas fazia todo o sentido para mim.
Então comecei a evitar os jornais. Não passava por lojas que os vendessem, nem os tocava, e também evitava pensar neles.
Viajar
a trabalho de trem tornou-se algo horrível. Eu mantinha minha cabeça
para baixo e balançava-a constantemente para tentar livrar-me de
qualquer imagem que pudesse ter visto acidentalmente. Fiquei presa na
minha própria bolha de medo.
No final, consegui superar minha
desordem com terapia cognitivo-comportamental e com psicoterapia. Ainda é
um problema para mim às vezes e ainda tenho muita ansiedade, mas
aprendi a ser minha própria psicoterapeuta e a desafiar meus medos.
Espero que as pessoas compreendam que o TOC é exaustivo e realmente pode fazer você se odiar.
Não
confiar em si mesmo, ter de lutar constantemente contra pensamentos
indesejados e criar compulsões que você sabe não fazerem sentido, tudo
isso explode sua autoestima."
Alice e os sapatos
"Sei
que meus pensamentos são irracionais, mas não posso controlá-los. A
cada minuto de todos os dias, imagens assustadoras de infecções vêm à
minha mente. As pragas de insetos são o meu maior medo. Se meus
pensamentos se transformassem alguma vez em realidade, creio que ficaria
tão ansiosa que não poderia respirar.
insetos vivem no solo e o solo não pode ser evitado. Então, meus
sapatos e meias estão frequentemente contaminados. Se eu vejo algo pelo
canto do olho que se parece um inseto, minha ansiedade me golpeia. Meus
sapatos e meias ficam imediatamente sujos, mesmo que nunca tenham tocado
o inseto imaginário.
Então eu evito tocá-los e frequentemente os tiro e largo na rua, voltando para casa com os pés descalços.
Mas
eu tenho que tirá-los sem usar minhas mãos. Eu queria que as pessoas
não olhassem para mim quando faço isso. Queria que as pessoas não
pensassem que eu sou estranha por isso, mas, acima de tudo, gostaria de
ter uma vida normal."
Grace e as toalhas
"Toda
vez que eu tiro a toalha de meu corpo, vejo a imagem do meu cadáver
sendo transportado em uma maca. E quando você imagina que algo vai
acontecer, você acha que isto vai acontecer mesmo. É assim que o TOC
funciona.
A única maneira de sair dessa sequência de
pensamento era pedir que outra pessoa tirasse a toalha da minha vista -
assim eu não imaginava meu corpo sem vida ao seu lado.
Este é apenas um exemplo das diferentes maneiras pelas quais meu distúrbio se manifestava.
Eu
estudei psicologia e fui diagnosticada quando estava na faculdade.
Quando aprendi sobre a teoria da evolução, parei de acreditar em Deus e
comecei a pensar em mim como um organismo natural, que não iria ao céu
ou ao inferno, mas se decomporia como uma planta.
Agora eu entendo
como foi que desenvolvi TOC naquele momento. Como a inevitabilidade da
morte é tão esmagadora, nos concentramos em coisas como religião ou
política para amortecer o conceito de morte.
Quando aprendi o ponto de vista científico, fiquei sem fé para me proteger da inevitabilidade da morte.
Aprender
sobre a evolução combinado com a perda de minha visão de mundo me
causou tanta ansiedade que inconscientemente tentei recuperar o controle
através de comportamentos obsessivos compulsivos.
Agora, a teoria
da evolução me faz sentir mais segura. Aprender sobre como os nossos
antepassados Homo sapiens evoluíram e sobre os caminhos que eles
fizeram, me ajudou a entender por que eu existo hoje, de onde eu venho e
para onde eu vou."
Gabriela* percebeu que precisava de
ajuda quando, depois de sair embriagada de uma festa no interior de São
Paulo, bateu o carro, quebrou duas costelas e tomou mais de 40 pontos no
rosto.
"Até então eu achava que estava no controle, que era só
eu querer que pararia de beber", diz a engenheira civil. "Precisei quase
morrer pra perceber que tinha que parar. Só que não consegui." Depois
do acidente, ela começou a ir às reuniões de um grupo dos Alcoólicos
Anônimos (AA). Entre os que participavam das reuniões havia apenas duas
mulheres - ela e uma senhora de meia idade. Gabriela, que tinha 26 anos
na época, conta que imediatamente se tornou um alvo de cantadas
incômodas e avanços sexuais não solicitados. "Porque compartilhei histórias envolvendo álcool e sexo, eles
achavam que podiam me abordar sobre isso. Senti que estava sendo caçada,
sabe? Tipo uma presa. Estou acostumada a ambientes masculinos, mas
naquele momento eu precisava de sinceridade e apoio", afirma. De tão desconfortável, Gabriela acabou abandonando as reuniões e parou o tratamento. Ainda
lidando com o vício, ela se envolveu com um homem mais velho, que
também havia frequentado o AA. "Eu estava frágil e sozinha. No início
ele me ajudou a ficar sóbria, mas logo se tornou um relacionamento
abusivo e eu passei a beber mais ainda", conta. Gabriela só
conseguiu ficar sóbria por mais tempo ao se internar em uma clínica de
alto padrão no interior do Estado - um luxo inacessível para a maior
parte das alcóolatras como ela. Esse ambiente hostil e tóxico
para mulheres que buscam combater seus vícios também foi constatado pela
pesquisadora Kátia Varela Gomes - que acompanhou grupos de apoio a
dependentes químicos para um estudo que fez no Instituto de Psicologia
da Universidade de São Paulo (USP) sobre dependência química e gênero. "Falta
um tratamento adequado. Fiquei chocada ao ver que as frases que os
homens falavam eram exatamente as mesmas que eu havia encontrado na
literatura (científica): 'mulher quando usa droga fica facinha', 'se é
feio para homem beber, imagina para a mulher', etc", afirma a psicóloga.
"As mulheres se calavam e depois de algumas semanas, desistiam do tratamento."
Tratamento adequado
Diversas
pesquisas apontam que o consumo de álcool entre as mulheres brasileiras
tem aumentado, segundo o observatório Cisa (Centro de Informações sobre
Saúde e Álcool). De acordo com a Organização Panamericana de
Saúde, entre 2011 e 2016 a frequência de episódios de uso abusivo de
álcool (BPE - Beber Pesado Episódico) aumentou entre as mulheres de 4,6%
para 13%. O último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, feito em
2014, também indica o aumento desse tipo de episódio no Brasil. O problema é que, na prática, as mulheres acabam tendo menos sucesso nos tratamentos do que os homens. "Embora o uso abusivo de álcool venha aumentando
entre as mulheres, o tratamento na maioria das vezes ainda é muito feito
de um ponto de vista masculino e voltado para os homens", diz o
psiquiatra Cirilo Tissot, especialista em dependência química e diretor
da Clínica Greenwood, em São Paulo. "Você precisa levar em
consideração questões específicas das mulheres, que muitas vezes são
negligenciadas: a questão hormonal, que é diferente, necessidades de
cuidados pessoais diferentes", explica. "Nas clínicas,
desodorantes e produtos de cuidado pessoal são proibidos, porque a
pessoa pode cheirar, ingerir. Para os homens, vir o barbeiro e cortar o
cabelo uma vez durante uma internação longa é suficiente. Mas muitas
mulheres querem pintar o cabelo, passar uma maquiagem. As pessoas tratam
isso como futilidade, frescura. Dizem absurdos como: 'para que se
maquiar, quer seduzir alguém?'. Negligenciam o que pode ser um elemento
importante para trabalhar autoestima." Segundo Kátia Gomes, o
próprio planejamento dos horários do tratamento pode prejudicar as
mulheres. "Se o encontro do grupo de apoio for em um horário que
impossibilite as mulheres que têm filhos de levá-los à escola, elas não
vão se tratar. O homem quando tem filho deixa com a mãe. As mulheres com
adicção, na maioria das vezes, não têm com quem deixar", diz. "Você
tem que lidar com preconceito. Os homens falam assim: eu quero sair
porque faz muito tempo que eu não transo. Se não tem namorada, ele vai
num prostíbulo, e isso é visto com a maior naturalidade. Você precisa
ver a coisa catastrófica que foi quando a primeira mulher disse isso na
clínica. Ela avisou ao pai que queria sair no fim de semana porque fazia
tempo que não transava. Foi uma crise na família", conta Tissot, cuja
clínica recebe pacientes para internamentos longos e curtos. Segundo
os especialistas, até profissionais de saúde muitas vezes reproduzem
preconceitos e julgamentos. "É uma luta constante para conscientizar as
colegas profissionais a terem outro olhar", diz Gomes.
Abandono
A
solidão à qual as mulheres que têm algum tipo de vício são expostas é
outro fator a enfraquecer o tratamento, segundo os especialistas. "Os
homens que estão se tratando muitas vezes têm apoio das mulheres, da
mãe e do pai, e em alguns casos até dos filhos. As mulheres, em sua
maioria, estão sozinhas enfrentando suas doenças", conta Katia. Das
cerca de 50 mulheres em tratamento no Centro de Atendimento
Psicossocial (CAPS) de Guarulhos, na grande São Paulo, só duas têm
companheiros que as ajudam. O problema é o mesmo na Clínica Greenwood. "É
uma percepção que tenho desde que fazia residência. Uma mulher lutando
conta a dependência muito raramente vai ter o apoio do companheiro. Até a
família julga mais e apoia menos quando a paciente é mulher", explica
Tissot. Camila, que ficou internada na clínica durante
quatro meses, é um exemplo da situação. Enquanto tentava ficar sóbria,
os amigos se afastaram e a relação nunca mais foi a mesma. "Eu
comecei a beber no cursinho pré-vestibular para me enturmar. Sempre fui a
baladeira, que não queria ir embora e insistia pro pessoal beber mais.
Mas os homens sempre me viam como 'um dos caras' por eu beber muito.
Servia para ser amiga, mas não para ter um relacionamento", diz ela. "Depois,
meus amigos sempre procuravam por essa antiga Camila e quando não a
encontravam, rolava esse estranhamento", conta a administradora de
empresas. Ela conta que os pais, embora a tenham apoiado, nunca a entenderam direito. "Eu
contava das dificuldades, e eles falavam que não, não era tão grave,
que a gente conseguiria resolver em família. Era uma negação mesmo de
que a filhinha deles pudesse ter um vício. Tive que contar sobre as
outras drogas que estava usando para eles entenderem que era sério",
afirma. Camila enfrentou a dependência química por mais de dez
anos e acabou, durante esse tempo, substituindo um vício pelo outro.
Teve períodos de compulsão alimentar, de consumo compulsivo e de
compulsão por sexo. Já Gabriela não teve o apoio da família para
se internar. "Quando eu estava no fundo do poço meu namorado saiu de
casa e minha mãe disse que eu tinha me afundado porque quis. Não me deu
um centavo para o tratamento. Tive que me demitir do emprego para ficar
três meses na comunidade terapêutica e ainda não terminei de pagar a
dívida enorme que fiz para pagar o tratamento."
Julgamento
"O
estigma colocado sobre pessoas com dependência química sempre existiu,
mas a gente percebe, tratando ambos os sexos, que no caso das mulheres
isso é muito mais proeminente. O julgamento é muito maior", afirma
Cirilo Tissot. "O vício não é visto como uma doença, mas como uma
falha moral, uma questão de força de vontade. Ainda mais quando se
trata de um problema como compulsão sexual", explica Tissot. "Em vez de
ser vista como uma pessoa que precisa de tratamento e apoio, a mulher é
vista como pervertida." Camila fala tranquilamente sobre o problema com álcool e em drogas, mas hesita quando o assunto é compulsão sexual. Ela
conta que seu atual namorado entendeu e apoiou quando ela revelou seu
problema com drogas e álcool, mas não aceitou muito bem ao descobrir o
vício em sexo. "Até então ele entendia que eu estava doente, queria
cuidar de mim, me ajudar. Mas no aspecto do sexo ele não enxergou do
mesmo jeito", conta. Tissot diz que as descobertas científicas de que
vícios estão relacionados a desequilíbrios químicos do corpo foram
mudando a visão sobre o tema ao longo do tempo, mas que o julgamento
moral sobre as mulheres permanece até hoje. "A repressão que
existe sobre a mulher é tal que quando a pessoa fica desviante dessas
expectativas, o quadro é considerado mais grave", diz ele. Kátia Gomes diz que a dependência química feminina "configura-se como porta-voz do que é intolerável na feminilidade". "Uma
mulher que está grávida e tem uma adicção é vista como um monstro. Mas
se é uma patologia ela não tem controle. Esse tipo de condenação é um
tiro pela culatra, porque só aumenta o nível de ansiedade dessa mulher,
que muitas vezes foi o que a levou a desenvolver o vício em primeiro
lugar", explica Gomes. Tissot afirma que mulheres que têm filhos
se sentem muito mais culpadas que os homens de se afastar por alguns
meses para se tratar. "A gente explica que ela precisa estar bem. Não
adianta estar aqui fora e não ter condições de cuidar dos filhos." Centenas pesquisas feitas nos EUA apontam as diferenças entre os gêneros na questão da dependência química. Segundo
uma revisão da literatura científica publicada por pesquisadoras como
Shelly F. Greenfield, da Escola de Medicina de Harvard, e Susan M.
Gordon, da Universidade do Arizona, estudos feiros entre 1990 e 2005 já
indicavam que as mulheres com a patologia têm menor chance de obter
tratamento adequado. Já no Brasil, a pesquisa de Katia Varela Gomes, publicada em 2010, foi apenas a quinta a estudar as especificidades da dependência e do tratamento em mulheres. "A
própria falta de pesquisas na área por aqui mostra essa desigualdade",
afirma a psicóloga, ressaltando que, em condições não preconceituosas e
equânimes, as mulheres teriam tanta chance de recuperação quanto os
homens em um tratamento. Hoje ela trabalha no CAPs (Centro de
Atendimento Psicossocial) de Guarulhos com grupos de apoio exclusivos
que atendem as demandas específicas das mulheres. Ela afirma que a
chance de uma mulher se recuperar não é diferente da de um homem se ela
receber apoio e tratamento apropriado. "Eu vejo muitas histórias de
sucesso, de mulheres que estão recuperadas e levando uma vida bem mais
funcional e feliz." * Sobrenomes ocultados a pedido das entrevistadas. FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/geral-41436903
A aprovação de uma liminar
autorizando psicólogos brasileiros a oferecerem a seus pacientes formas
de terapia de reversão sexual provocou fortes reações de diferentes
segmentos da sociedade durante esta semana no Brasil.
Artistas
como Anitta, Daniela Mercury e Ivete Sangalo participaram de uma
campanha nas redes sociais contrária à decisão com as hashtags
#TrateSeuPreconceito e #HomofobiaNãoÉDoença. Apesar de a
Organização Mundial da Saúde (OMS) ter retirado a homossexualidade da
lista internacional de doenças há quase 30 anos, há uma enorme
diversidade na forma como diferentes países lidam com a questão. Na
Europa, por exemplo, só há um país que proíbe tratamentos que oferecem a
"cura gay".
Brasil
O Conselho Federal
de Psicologia do Brasil proíbe terapias de reversão sexual desde 1999 e
profissionais que desobedecerem a regra podem ter seu registro cassado. Esta
semana, porém, a decisão do juiz federal da 14ª Vara do Distrito
Federal Waldemar Cláudio de Carvalho abriu uma interpretação diferente
para a norma do Conselho Federal de Psicologia (CFP). A
justificativa, segundo o juiz, seria a de não impedir os profissionais
"de promoverem estudos ou atendimento profissional, de forma reservada,
pertinente à (re)orientação sexual, garantindo-lhes, assim, a plena
liberdade científica acerca da matéria, sem qualquer censura ou
necessidade de licença prévia". A liminar atende parcialmente uma
ação movida contra o CFP por Rozangela Alves Justino, psicóloga que teve
seu registro profissional cassado em 2009 por oferecer "terapias para
curar a homossexualidade masculina e feminina". Justino pedia a
suspensão das regras do órgão.
Estados Unidos
Cada Estado americano tem suas regras sobre tratamentos de reversão sexual. Muitos deles proíbem a prática em menores de idade. A
Associação Psiquiátrica Americana se opõe a qualquer "tratamento
psiquiátrico, como a terapia de conversão baseada no pressuposto de que a
homossexualidade seja um transtorno mental ou de que um paciente
deveria mudar sua orientação sexual".
Reino Unido
Apesar
de várias instituições terem assinado um acordo descrevendo o
tratamento como "potencialmente prejudicial e antiético", inclusive o
NHS (SUS britânico), a terapia de reversão sexual é legal no Reino
Unido. Em 2015, o parlamentar conservador Mike Freer advogou pela
criação de uma lei para regular "terapias de cura gay" no país. Segundo
ele, o governo deveria fazer mais para garantir que essas terapias não
sejam realizadas no país. "Continua sendo possível no Reino Unido ir a
um profissional do NHS para ser indicado a um psicoterapeuta que faça a
chamada 'cura gay'", disse ele durante um debate no Parlamento em
Londres. Um estudo realizado em 2015 pelo instituto de pesquisa
YouGov a pedido da ONG LGBT Stonewall apontou que 10% das equipes
britânicas que trabalham com saúde e bem-estar social testemunharam
colegas dizendo que gays, lésbicas e bissexuais podem ser "curados", um
número que chega a 22% considerando apenas Londres. Em 2009, uma
outra pesquisa apontou que 200 profissionais de saúde mental ofereceram
algum tipo de terapia de conversão a pacientes, sendo que 40% deles
foram tratados dentro do próprio NHS. Louise* disse ao programa Newsbeat da BBC que foi coagida a um tratamento de cura gay em 2007 na igreja evangélica que frequenta, na região de West Yorkshire. "Eu
fui chantageada para concordar a ir a um acompanhamento psicológico
ligado à igreja. Eu fui obrigada a aceitar que todo o conteúdo dessas
sessões seria compartilhado com os anciões [da igreja] para que eles
pudessem medir meu progresso", contou. "Eu fui submetida a uma prática de exorcismo. Não exatamente como no filme de terror O Exorcista.
Mas tinha pessoas da igreja rezando, erguendo as mãos e falando línguas
durante horas. Eu lembro de dormir no meio, de tão longo que era."
Malta
Em
dezembro de 2016, Malta se tornou o primeiro país europeu a proibir a
terapia de reversão sexual. A nova lei determina que quem tentar
"mudar, reprimir ou eliminar a orientação sexual, identidade de gênero
ou expressão de gênero de alguém" será multado ou até mesmo preso. A
multa pode chegar a 10 mil euros (R$ 37 mil) e a sentença de prisão a
até um ano.
Rússia
Similarmente
ao Brasil e outros países, a Rússia tirou a homossexualidade de sua
lista de doenças psiquiátricas em 1999, nove anos após a OMS fazer o
mesmo. Até hoje, a homossexualidade não é considerada uma desordem
mental na Rússia, mas a homofobia é comum no país, que acabou de aprovar
uma lei que proíbe a "propaganda gay". Falar sobre homossexualidade com
crianças é crime no país desde 2013. Apesar de homossexualidade
não ser oficialmente considerada uma doença, profissionais de saúde
oferecem a chamada "cura gay" na Rússia. O psicoterapeuta Yan Goland,
por exemplo, disse ter "curado" 78 homossexuais e 8 pessoas trans usando
um método desenvolvido na União Soviética por seu mentor, Nikolai
Ivanov.
Ele disse à BBC que o tratamento dura entre 8 e 18
meses para homossexuais e pode ser mais longo para trans. No primeiro
estágio, ele "destrói" a atração da pessoa por indivíduos do mesmo sexo
através de hipnose, cuja sessão pode durar até 8 horas. No
segundo estágio, ele força atração a pessoas de sexo oposto. "Eu digo a
eles: 'quando você sair da sessão, caminhe pela rua e olhe todas as
mulheres jovens que passarem por você, mostre interesse em seus corpos e
selecione as melhores'". O terceiro passo é o ato sexual com pessoas do
sexo oposto. Aos 80 anos de idade, Goland diz continuar tratando pessoas. E,
assim como caso de Louise na Grã-Bretanha, a BBC também colheu relatos
na Rússia de pessoas submetidas a "tratamentos" em igreja. Maria*,
de 27 anos, disse ter sido levada contra sua vontade à igreja por sua
família para "tratar" sua homossexualidade aos 13 anos de idade. "Eles
me cobriram de água santa e me forçaram a bebê-la. Às vezes me batiam
com cajados. Sinto como se tivessem quebrado minha mente", disse ela à
BBC.
Uganda
Em 2014, o
governo da Uganda tentou aprovar uma lei chamada "Ato
Anti-Homossexualidade", que punia a homossexualidade com a pena de
morte. Mais tarde, a lei foi definida como inconstitucional pela Justiça
do país. Mas a lei ajudou a fomentar a perseguição a homossexuais. A
ONG SMUG, de Uganda, publicou um estudo apontando que a perseguição com
base em orientação sexual aumentou nos últimos anos após a criação da
lei e jornais publicaram uma lista dos "top 200 homossexuais" do país.
Este ano, ativistas LGBT tentaram organizar uma parada gay e foram
impedidos pela polícia. O país é destaque no documentário The World's Worst Place To Be Gay? ("O
Pior País Para Ser Gay?") da BBC. No programa, o dj Scott Mills se
submete a uma cerimônia pagã de cura gay na qual ele foi surrado com uma
galinha viva e banhado de água aquecida por uma tocha de fogo.
Malásia
O
governo da Malásia fez uma campanha a favor da terapia de conversão
sexual depois que autoridades federais disseram que a orientação sexual
de alguém pode ser transformada através de um "treinamento intensivo". O
país também ofereceu um prêmio de de até US$ 1 mil para o melhor vídeo
de "prevenção à homossexualidade" em uma competição juvenil de vídeos de
educação sexual. A categoria de "prevenção à homossexualidade" foi
substituída por "desordem de identidade de gênero" depois de protestos
de ativistas LGBT. Os direitos LGBT não são reconhecidos na Malásia, onde a
"sodomia" continua sendo vista como crime segundo as leis coloniais do
Império Britânico.
China
A
China deixou de considerar a homossexualidade uma doença mental em 2001,
mas grupos de defesa LGBT afirmam que milhões de homossexuais casam com
pessoas do sexo oposto devido à pressão das famílias. Este ano,
porém, um homem gay ganhou uma compensação de um hospital psiquiátrico
por ter sido submetido à força a uma terapia de conversão sexual. O
homem, identificado como Yu, foi levado à força por sua mulher e
familiares a um hospital no centro da China, na cidade de Zhumadian, em
2015. Lá, ele foi obrigado a tomar medicamentos e injeções por 19 dias. A Justiça chinesa entendeu que forçá-lo a uma instituição mental sem ele oferecer perigo à sociedade infringia seus direitos. O
hospital que o diagnosticou com "desordem de preferência sexual" teve
que se desculpar em público através de uma nota no jornal e pagar uma
multa de US$ 735.
Irã
O Irã
é um entre os cerca de 10 países nos quais a homossexualidade pode ser
punida com a pena de morte. Líderes religiosos, no entanto, aceitam a
ideia de que uma pessoa pode estar "presa" em um corpo do sexo oposto.
Portanto, homossexuais podem ser forçados e passar por uma cirurgia de
redesignação sexual - e muitos fogem do país por isso. Ao crescer, Donya* tinha o cabelo curto e usava boné
em vez de véu. Ela disse à BBC que, se policiais pedissem sua
identidade e percebessem que ela era uma menina, poderiam repreendê-la.
"Por que você é assim? Vá mudar seu gênero", lembra. "Era tamanha
pressão que eu queria mudar meu gênero o mais rápido possível". Ela
passou 7 anos em tratamento hormonal, começou a ter pelos faciais e sua
voz ficou mais grave. Quando os médicos sugeriram a cirurgia de
transgenitalização, ela decidiu fugir para a Turquia e depois para o
Canadá, onde conseguiu asilo. FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41354769