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quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Entrevista com a Psicóloga Noely Correa Souza Pereira

 


 Entrevista com a Psicóloga Noely Correa Souza Pereira (Formada em Psicologia e Pedagogia, pela faculdade Estácio de Macapá e Instituto de Ensino Superior do Amapá – IESAP. Especialista em Psicopedagogia, Terapia Cognitiva-comportamental, Análise do Comportamento Aplicada e  Neuropsicologia).

01)   Qual a diferença entre Psicologia e  Psicopedagogia e quais são as funções desempenhadas por quem segue a carreira?

Psicologia: é a ciência que trata dos estados e processos mentais, do comportamento do ser humano e de suas interações com  ambiente físico e social. O estudo dessa área é multiprofissional e incluir subcampos, como  área de desenvolvimento humano, esportes, saúde, educação, comportamento clínico, social e processos cognitivos.

Funções: do  psicólogos clínico, hospitalar e escolar. Pesquisar, diagnosticar, intervenções preventivas ou corretivas em grupo ou individual.

Psicopedagogia: é a área do conhecimento que estuda a aprendizagem dos seres humanos. Essa ciência a compreender como os indivíduos aprendem, quais suas dificuldades podem surgir nesse processo e como potencializar o aprendizado.

O Psicopedagogo no contexto escolar tem papel de auxiliar na formação do aluno para o seu sucesso escolar, avaliar o aluno com intuito de identificar  possíveis situações que interferem em seu desempenho escolar. Dessa forma a atuação do profissional visa garantir o andamento das atividades, além de possuir a importância significativa para a inclusão escolar.

02)   No consultório, como é a atuação desse profissional?

Desenvolver ações que gere mudanças comportamentais no paciente que facilite a compreensão do conceito levando em consideração a família, a escola e o contexto sócio-histórico no qual a criança encontra-se inserida.

03)   Em atendimentos particulares, qual deve ser a relação entre o psicopedagogo e a escola?

Se dá através dos pais e visita na escola. O principal canal de comunicação são relatórios de acompanhamento e feedback dos pais.

04)   Estudar Psicopedagogia ajuda o educador a ensinar melhor?

Sim, fica mais fácil de identificar as causas das dificuldades dos quadros dos transtornos se aprendizagem trazidos pelas famílias e para organizar as intervenção curativas de cada caso.

 05)   As escolas, em geral, reagem bem à intervenção de um psicopedagogo?

Sim, atualmente esse profissional é bem aceito no contexto escolar pelo seu conhecimento que contempla o conhecimento tanto para a área da saúde quanto educação, o que facilita a interação do do Psicopedagogo com a equipe técnica da escola. O Psicopedagogo escolar estuda a relação das pessoas com a aprendizagem. Assim o profissional desta área busca reduzir as  dificuldades de aprendizagem com o aprender e tratar os transtornos de aprendizagem.

06)   O número de crianças com laudo médico atestando problemas psicológicos tem crescido muito. O que é possível concluir com base nisso?

Entende-se que pelo fato das pesquisas terem crescido através dos estudos a acadêmicos. E os dados estatísticos ajudam na identificação do foco das dificuldades de aprendizagem que ocorrem desde dos transtornos  de aprendizagem, metodológico, sócio político, emocional e cultural.

07)   Qual o momento da faculdade, que você se encontrou com a Terapia Cognitivo comportamental e com a Psicopedagogia?

Lembro muito  bem, que foi só sétimo semestre quando foram apresentadas as abordagens, na disciplina de Teorias e Sistemas Psicológico.

Ali começou meu namoro com a TCC. Após compreender que o Comportamento é influenciado pelos sentimentos, além da resolução dos distúrbios presentes no quadro clínico do paciente. Depois de entender como ajudar o paciente a gerenciar seus sentimentos e ressignificar comportamentos, entendi ser possível usar esses benefícios em outros atendimentos individualizado e grupal. Principalmente em relação às suas reações perante a outros estímulos. Do mesmo modo  se deu com a  Psicopedagogia ao perceber a oportunidade de ajudar as pessoas, que sofrem algum tipo de dificuldade para aprender. Todas as minhas  formações são sincronizadas a diminuir o sofrimento mental das pessoas principalmente das crianças e familiares.

    8) Em quais contextos ou locais o Profissional Psicopedagogo pode atuar? 

O profissional especialista em Psicopedagogia é credenciado para atuar em clinicas atendendo individualmente clientes diagnosticando sintomas, distúrbios de aprendizagem e outras dificuldades que impeça o indivíduo aprender. Educação continuada, auxiliando crianças que estão afastadas há muito tempo de ambientes escolares; Orientação Pedagógicas, para docentes, auxiliando no planejamento de aulas e desenvolvendo projetos escolares. Recursos humanos, assessorar empresas, órgãos públicos e ONGs nos processos de aprendizagem de seus funcionários e na harmonia no ambiente de trabalho. Além de ser peça chave na contratação, também atua no âmbito hospitalar, pode auxiliar no tratamento de ligados a traumas e   a memória, redução da capacidade de aprendizado ou queda no desempenho funcional;  instituições jurídicas;  na vara da família e infância no intuito de identificar problemas que por ventura uma criança esteja passando.

 9) Você poderia nos falar sobre o seu trabalho com crianças autistas?

Na perspectiva Comportamental no treino das habilidades sociais e executivas, no que se refere à portadores de desenvolvimento atípico, principalmente aqueles referentes a quadro de TEA( Transtorno do Espectro Autista) que encontram-se em  estrutura de experiência marcada por déficits de excessos comportamentais. Uso a metodologia ABA como alternativa clínica considerando que a metodologia indica caminhos científicos e práticas  para a efetivação de plano de  intervenção singular dos sintomas do autismo. Com métodos mais adequados para ampliar as habilidades dos infantes com o Transtorno como; o Teacch, ABA, Pecs, Parovam, Montessori, Denver e o Floortime. Os métodos são usados de acordo com a formação do Terapeuta. No meu caso tenho formação no método ABA, Montessori, Denver e finalizando as demais formações supracitadas. Tudo isso para estimular as crianças neuroatípica de forma adequada.

 10) Quais os pontos positivos e negativos da sua área específica de atuação?

Os pontos positivos estão relacionados ao desenvolvimento das crianças que atendo, mas o fator principal para a positividade se dá e  quando os sintomas são diagnosticados precocemente e as estimulações (treinos) acontecem de forma precoce. Outro ponto importante é perceber o alívio dos pais quando percebem a melhora gradativa dos quadros dos transtornos, dificuldades de aprendizagem. Os pontos negativos apreciados no cotidiano clínico são as frustrações dos pais em não poderem sustentar a assiduidade dos filhos no tratamento por inúmeras situações, que perpassam pelas dificuldades envolvendo o financeiro, conflitos familiares (pais separados), falta de profissionais preparados para lidarem com os diagnósticos de infantes  neuroatípicas.

 

domingo, 11 de setembro de 2022

Entrevista com a Psicóloga Eloya Caroline de Paula Rodrigues

 

Entrevista com a Psicóloga Eloya Caroline de Paula Rodrigues (Psicóloga Clínica de Orientação Psicanalítica com Especialização em Psicanálise).

 


01) Entre tantas áreas de atuação dentro da psicologia, por que a opção pela área de Orientação Psicanalítica?

Me encontrei na psicanálise por que dentro do meu processo analítico encontrei respostas que busquei por toda uma vida. Simples assim. A Psicanálise renasce em consultórios do mundo todo, centros e núcleos de estudos com questões atuais e pertinentes sobre a dinâmica do mundo e da humanidade. Todo profissional é capacitado de atender seu paciente.  Não me prendo a minha abordagem de forma única e verdadeira . “abordagem" é algo que a gente aprende na graduação: quando estamos na clinica descobrimos que o que importa é o paciente.
 

2) Quais são as diferenças entre o Psicólogo e o Psicanalista?

As aparentes semelhanças entre o psicanalista e o psicólogo podem confundir as pessoas interessadas em cuidar da saúde mental no momento de marcar uma consulta.

Afinal, quem pode ajudar no caso da depressão? De problemas conjugais? De crises de identidade? O psicanalista ou psicólogo?

Ambos os profissionais possuem o propósito de cuidar da saúde mental de seus pacientes e ajudá-los a se sentirem em paz consigo mesmos.
A principal distinção entre esses profissionais é a sua formação. O psicólogo é o profissional graduado na faculdade de psicologia enquanto o psicanalista é o profissional que possui formação em psicanálise. 

Embora todas as abordagens tenham o mesmo objetivo de ajudar pacientes a solucionarem os seus incômodos emocionais, algumas podem ser mais eficientes que outras para certos tipos de personalidades.

O psicanalista, por outro lado, atua conforme uma única abordagem: a psicanálise, a qual, como o nome já deixa claro, é voltada para a análise do inconsciente.
 

3) Em quais contextos ou locais o Profissional Psicólogo de Orientação Psicanalítica pode atuar, além da clínica?

Muitas, eu por exemplo sou psicóloga Clinica e Hospitalar. O mercado de trabalho do psicanalista é vasto: ele pode trabalhar em consultório ou clínica particular, hospitais e postos de saúde, além de empresas, ONG's, indústrias, escolas, creches, varas judiciais, sistema penitenciário e em setores ligados à Assistência Social e Saúde, como os CAPS.

Fundamentalmente, o psicanalista pode atuar de três formas: atendimento individual, em grupo ou em instituições.

Na assistência individual, o foco será o indivíduo como peça única e subjetiva, cabendo ao analista o papel de investigar, através do diálogo, seus traumas, sentimentos e outras percepções que fazem parte da sua ligação com o mundo.

No trabalho em grupo, o princípio é criar um ambiente favorável para conciliar ideias e experiências individuais no desenvolvimento de respostas que beneficiem de forma positiva todo os participantes da turma.  

Por fim, na atuação nas instituições, o psicanalista deve seguir um cronograma de ação para desempenhar os serviços da entidade segundo os padrões e políticas formulados por ela.

 
4) Existem diferenças entre Orientação Psicanalítica e Psicanálise? Quais?

 Na psicologia, há várias abordagens. Na psicoterapia de orientação psicanalítica, a psicanálise é a abordagem escolhida, sendo uma estratégia criada por Freud para entender os desejos e comportamentos inconscientes do ser humano.  

Na rotina da profissão, tanto o psicoterapeuta quando o psicanalista devem ouvir seus pacientes e interpretar seus relatos. Eles ajudam a superar medos e traumas, trazem mais autoconhecimento, buscam a origem de determinados sentimentos, entre outras questões.

A psicoterapia de orientação psicanalítica é um método de tratamento baseado na psicanálise, mas com objetivos diferentes e menor duração. Em ambos os tratamentos, é considerado o conteúdo manifesto, isso é, o que o paciente compartilha, e também o conteúdo latente.

A psicanálise é uma investigação profunda na mente do paciente, o que requer muitas sessões. Na psicoterapia de orientação psicanalítica, as mudanças não são estruturais, e sim adaptativas.

5) Como é o mercado para quem quer iniciar o trabalho nessa área?

  O psicoterapeuta de orientação psicanalítica tem uma área de atuação ampla, podendo por exemplo: atuar em escolas e hospitais, por exemplo. Assim como no consultório, em outras instituições ele presta atendimento especializado e é capaz de identificar uma série de transtornos mentais. A questão é saber o quanto você está disposto a se dedicar para se destacar perante ao mercado de trabalho. A faculdade é só o berço do profissional que você vai ser e é a partir da li que você precisa da os primeiros passos para o seu futuro como psicólogo de qualquer abordagem.

6) Quais características ou habilidades são importantes que o Psicólogo tenha?

 A Psicologia é a ciência que estuda o comportamento, como sendo o que uma pessoa faz, o que diz, o que pensa e o que sente. Assim, comportamento é o foco do psicólogo. 

E cabe dizer que acessar o comportamento do outro não é algo tão simples como possa parecer. Por isso, para ser um bom psicólogo, independentemente da escola ou abordagem teórico-conceitual que seja seguida, é preciso ter uma série de características e habilidades fundamentais. Dentre as principais características de um psicólogo, estão as habilidades de:  manter sigilo profissional sobre os assuntos tratados em consultório; respeitar os limites da atuação; possuir e demonstrar capacidade de raciocínio abstrato; manter imparcialidade; ouvir ativamente; contornar situações adversas; e revelar empatia, ( só por que a minha dor não é a sua dor, ela não tem um grau de importância menor).
Além disso, é importante ressaltar que o psicólogo precisa estar em constante busca por conhecimentos técnicos e pessoais. Ou seja, ele deve estar sempre em evolução.
 

7) Quais os pontos positivos e negativos dessa área de atuação?

 Olha, no curso de Psicologia você vai encontrar um pouco de tudo. Vai ter aulas de estatística, anatomia, fisiologia, neurologia, interpretação de texto, sociologia, antropologia, ecologia, enfim, o curso engloba as mais variadas disciplinas, que vão desde a área biológica, até a área da saúde, tendo um pouco de filosofia e claro toda a parte de Psicologia. Os pontos negativos são que o mercado já está saturado, está ai a importância de você continuar seu processo de aprendizado após a formação na graduação. 

Você depois de formado é obrigado a fazer terapia enquanto exercer a profissão, tem que ler MUITO, manter-se atualizado. Há alguns estudos em que contrariam um pouca a religião. É um dos cursos mais difíceis de fazer. Eu acho um curso fascinante, você tem outra visão de mundo, e tem que gostar muito de gente, ter hábito de leitura, e vocação.

Os pontos positivos são que é uma profissão bem valorizada, trabalha desde hospitais até empresas, escolas, e tem como eu já disse um pouquinho de cada coisa.

8) Na sua opinião quando uma pessoa deve procurar a ajuda de um psicólogo?

Vamos começar respondendo primeiro o que é a terapia: terapia, ou psicoterapia, pode ser definida como o processo em que pacientes dialogam constantemente com o psicólogo na tentativa de encontrar soluções para o seu sofrimento emocional.  

Ela pode ajudar a minimizar os sintomas de muitos transtornos mentais e até mesmo de condições de saúde física. Afinal, quando o corpo e/ou o organismo estão debilitados, as pessoas tendem a ficar desanimadas. Se elas não souberem gerir as suas emoções durante o período de recuperação, podem desenvolver depressão, ansiedade e afins. 

A terapia também oferece um espaço seguro e convidativo para que as pessoas expressem sentimentos livremente. Assim, elas se sentem confortáveis para falar sobre assuntos difíceis, como término de relacionamento, problemas financeiros, conflitos familiares, processo de luto e insegurança no trabalho.  

Alguns indivíduos não procuram um psicólogo porque estão necessariamente interessados em encontrar soluções práticas para os seus dilemas. A ideia de conversar com alguém sem ser julgado por si só é atraente para eles. Deste modo, o alívio do sofrimento emocional está em segundo plano.  

Na terapia, os pacientes são encorajados a refletir sobre medos, crenças e emoções negativas para obter novas perspectivas referentes os seus problemas. As decisões a serem tomadas a partir de então são de responsabilidade deles mesmos.
Respondendo a pergunta sobre quando devemos procurar a ajuda de um psicólogo:  psicólogo tem a escuta treinada e conhecimento da psique humana, o que o torna capacitado para digerir os desabafos dos pacientes e compreender os seus dilemas, bem como encorajar reflexões para que eles aprendam a lidar com eles.

Por “dilemas” entende-se quaisquer elementos presentes na vida que causam desconforto. Muitas pessoas não aguentam mais viver da maneira que estão vivendo, mas não tem ideia do que fazer para mudar ou o que devem mudar. Então, iniciam a terapia para tentar se livrar da angústia, ansiedade, insatisfação, estresse e tristeza. Os sintomas podem varias em sintomas físicos ou emocional/ somatização de tudo e mais um pouco.

Muitos pacientes chegam por encaminhamento de outros profissionais da saúde. Nesses casos o paciente vai em busca de um profissional “médico, nutricionistas e afins” outros quadros de somatização, onde  começa a desenvolver sintomas que podem ser físicos  causado pela dor que está em seu inconsciente.

 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

A Epidemia das doenças mentais.

 


 De uma hora para outra, devido à pandemia, comércio, indústria, escolas e centros de lazer e atividade física fecharam e a mobilidade das pessoas ficou restrita. Quem pôde e dispôs dos recursos necessários isolou-se em casa, adotou o trabalho remoto e passou a ajudar os filhos com as aulas virtuais. Homens e mulheres começaram a usar máscara em locais públicos e o contato físico foi desestimulado – desapareceu o beijo no rosto e até o aperto de mão. Os que precisam ir às ruas convivem com receio de contrair o vírus e quem se infecta experimenta, além de sintomas físicos, o medo de desenvolver a forma grave da doença e precisar de internação. 

Nos hospitais, os pacientes perdem o contato direto com a família – em certos casos, conseguem contato remoto – durante um tratamento prolongado no qual só interagem com a equipe de saúde.

Apesar da capacidade humana de se adaptar a transformações, as mudanças e o surgimento de tantas adversidades em pouco tempo podem gerar uma sobrecarga de estresse que já preocupa as autoridades internacionais de saúde e os profissionais de saúde mental. Em 13 de maio, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou um relatório chamando a atenção de governos do mundo todo para que adotem medidas para reduzir o possível impacto da pandemia de Covid-19 sobre a saúde psíquica da população.

A OMS considera a saúde mental uma área negligenciada, que recebe dos países, em média, 2% do orçamento destinado à saúde, embora as doenças neurológicas e psiquiátricas afetem quase 1 bilhão de pessoas – segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), os transtornos mentais geram custos diretos e indiretos de US$ 2,5 trilhões (4% do PIB mundial). “Se não agirmos, haverá um grande percentual de pessoas seriamente afetadas, o que terá um impacto sobre a economia desses países”, afirmou a psicóloga Dévora Kestel, diretora do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS, à tevê alemã Deutsche Welle no dia seguinte ao lançamento do relatório.

O bem-estar emocional de crianças e adolescentes também parece ter sido abalado de modo importante pelo medo do contágio e pelo isolamento social. Com autorização dos pais, 1.784 crianças de duas escolas primárias responderam a perguntas que avaliavam sinais de depressão e ansiedade, além do nível de preocupação com o contágio e do otimismo mantido durante a pandemia. 

Quase um em cada quatro estudantes relatou sinais compatíveis com o diagnóstico de depressão e um em cada cinco de ansiedade, proporção ao menos 30% superior à observada em estudos anteriores com crianças asiáticas de idade semelhante, segundo artigo publicado em abril na revista Jama Pediatrics. 

Os sintomas de depressão foram mais intensos nas crianças de Wuhan do que nas que viviam em uma cidade próxima, Huangshi, que permaneceu menos tempo em quarentena. “Os achados sugerem que, assim como experiências traumáticas, doenças infecciosas graves podem influenciar a saúde mental de crianças”, escreveram os autores do trabalho, coordenado pela pesquisadora Ranran Song, da Universidade Huazhong de Ciência e Tecnologia.

No Brasil, o psiquiatra Guilherme Polanczyk e sua equipe no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) iniciaram em junho o monitoramento, também por meio da aplicação de questionários on-line, de crianças e adolescentes com idade entre 5 e 17 anos de todo o país. 

Os pesquisadores planejam avaliar alterações na rotina, no comportamento e nas emoções ao longo de um ano. Dados preliminares, obtidos a partir da análise de 4.504 respostas, indicam que a garotada tem passado muito tempo navegando na internet (metade usa eletrônicos por mais de oito horas por dia, descontando as aulas), dormindo menos e mais sedentária (43% não faziam atividade física havia duas semanas). Também sugerem que 13% dos participantes apresentavam algum nível de ansiedade e 16% de depressão que mereceria a avaliação de um especialista. “É uma proporção muito elevada, maior ainda nos filhos de pais estressados e com menor nível socioeconômico”, afirma Polanczyk.

Segundo o psicólogo Christian Kristensen, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). “A partir de certo grau de sofrimento ou prejuízo no funcionamento e de sua duração, o problema se torna patológico e pode ser considerado transtorno psiquiátrico”, conta o pesquisador, integrante de um grupo da PUC-RS que realiza outro inquérito on-line para avaliar como a pandemia está afetando a saúde mental dos brasileiros. Além de menos intenso, o sofrimento psicológico persiste menos tempo (dura dias) e raramente necessita de tratamento com medicação, embora seja de duas a três vezes mais frequente na população do que os transtornos psiquiátricos.

Segundo a pesquisadora Carol North “O surgimento dos transtornos mentais depende da vulnerabilidade biológica do indivíduo e dos fatores ambientais. Diante de um fator ambiental com a magnitude dessa pandemia, até as pessoas menos vulneráveis podem desenvolver algum problema”, explica o psiquiatra Luis Rohde, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Para a maior parte das outras pessoas, esse deve ser um período de estresse e ansiedade, mas transitório”, pondera Polanczyk, da USP.

Mesmo que modesto, um aumento nos casos de transtorno psiquiátrico deve sobrecarregar um sistema de saúde despreparado para lidar com o problema. “O sistema de saúde brasileiro foi organizado para atender casos graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar”, lembra o psiquiatra Jair Mari, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Pessoas com depressão, ansiedade, síndrome do pânico ou problema de adição a drogas vivem no limbo.” Estudos coordenados por Mari já indicaram que o Brasil tem proporcionalmente poucos psiquiatras (3,2 para cada 100 mil habitantes; nos países ricos essa proporção é 20 vezes maior) e que 85% das pessoas com um diagnóstico de transtorno mental não recebem tratamento medicamentoso que poderia controlar o problema.

Enquanto não se enxerga o fim da pandemia, psiquiatras e psicólogos fazem algumas recomendações para amenizar o sofrimento psíquico: manter uma rotina parecida com a de antes, dormindo e acordando no mesmo horário; fazer exercício físico; não aumentar o consumo de bebidas alcoólicas; tentar desenvolver hobbies e realizar atividades de lazer; e não ficar ligado o tempo todo no noticiário.

FONTE: https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-silenciosa-epidemia-de-transtornos-mentais/