Se
você consumir álcool antes de ir para a cama, ele pode gerar
inicialmente um efeito sedativo, fazendo você adormecer mais
rapidamente.
Mas,
embora possa parecer que a bebida antes de dormir acelera o
adormecimento, pesquisas recentes indicam que este efeito sedativo
somente ocorre, na verdade, após o consumo de doses mais altas de álcool
(3 a 6 taças padrão de vinho, dependendo da pessoa) até três horas antes de ir dormir.
Talvez
ainda pareça benéfico, mas não se recomenda usar o álcool para
adormecer, não só devido aos seus efeitos prejudiciais à saúde, mas
também porque a substância prejudica o sono durante a noite.
O álcool perturba principalmente o sono REM
(movimento rápido dos olhos, na sigla em inglês). Ele atrasa o primeiro
episódio de sono REM e reduz o total subsequente desta fase do sono ao
longo da noite.
A
bebida também pode fazer você acordar com mais frequência ou causar
sono mais leve de madrugada. Isso é significativo, pois o sono REM —
também conhecido como "sono dos sonhos" — é considerado importante para a
memória e para regular as emoções.
Estas
perturbações do sono REM são observadas mesmo com o consumo de baixas
doses de álcool (cerca de duas bebidas padrão) até três horas antes de
dormir.
Perturbações
do sono de qualquer tipo podem fazer você se sentir mais cansado no dia
seguinte. E os distúrbios do sono REM também podem gerar dificuldades
na consolidação da memória e prejudicar as funções cognitivas e a
regulagem das emoções.
Por que o álcool afeta o sono
Em
primeiro lugar, o álcool aumenta a ação de um mensageiro químico no
cérebro chamado GABA. Ele tem efeito sedativo que, segundo se acredita,
contribui para a sensação de sono verificada entre muitas pessoas que
consomem álcool.
O álcool também pode aumentar os níveis de adenosina, outro mensageiro químico, que é importante para a sonolência. Mas o aumento dessas substâncias quando bebemos tem vida curta.
Depois
que o corpo metaboliza o álcool, costuma haver um "efeito rebote", que
faz o corpo tentar compensar as mudanças das funções fisiológicas e do
sono induzidas pela bebida. É por isso que algumas pessoas apresentam
sono leve e interrompido ao longo da noite, depois de beber.
Beber álcool antes de dormir pode gerar sono leve ou interrompido durante a madrugada.
O álcool também influencia o ritmo circadiano – o relógio de 24 horas do corpo que reage às indicações da luz ambiental para sincronizar nosso ciclo de sono e vigília.
Uma das formas de ação do ritmo circadiano é a liberação de hormônios específicos em certas horas do dia.
O nosso corpo libera melatonina quando escurece, por exemplo, para nos fazer sentir cansaço e dormir por toda a noite.
Mas o álcool afeta a produção de melatonina e altera nossa temperatura corporal.
Além
disso, o álcool relaxa os músculos das vias aéreas, o que pode
exacerbar o ronco, possivelmente prejudicando também o sono do seu
parceiro.
Por
fim, o efeito diurético do consumo de álcool antes de dormir pode
causar aumento das visitas ao banheiro durante a noite, prejudicando
ainda mais o sono noturno.
Como conseguir uma melhor noite de sono
A
boa notícia para as pessoas que gostam de beber antes de dormir ou
passar a noite fora é que muitos dos efeitos negativos do álcool sobre o
sono têm vida relativamente curta. Eles podem ser revertidos evitando o
álcool ou reduzindo seu consumo.
Pode
levar mais tempo para que o sono e o ritmo circadiano retornem ao
normal entre as pessoas que bebem com mais frequência e em maior
quantidade, mas deixar de beber pode ajudar.
A melhoria do sono irá deixar você se sentindo mais renovado, beneficiando também sua saúde e bem-estar em geral.
* Emma Sweeney é professora de ciências do esporte da Universidade Nottingham Trent, no Reino Unido.
Fran Pilkington-Cheney é professora de psicologia e sono da Universidade Nottingham Trent, no Reino Unido.
Manoel, de 54 anos, comemora poder usar tênis com cadarços pela primeira vez em mais de uma década.
Internado por 14 anos e 7 meses, ele deixou as restrições do Complexo Médico Penal (CMP) do Paraná, em Pinhais, para viver em uma residência terapêutica em Curitiba.
Manoel, que teve o nome real preservado assim como outros internos citados na reportagem, foi diagnosticado com transtorno bipolar aos 19 anos. Em 2009, ele recebeu uma medida de segurança após tentativa de homicídio de um familiar.
Desde
2016, ele já tinha um laudo psiquiátrico que indicava que poderia fazer
acompanhamento sem estar recluso, mas só foi transferido neste ano.
Ele
ficou oito anos em "condição asilar" — como se chama quando alguém
permanece em uma instituição psiquiátrica mesmo após ter indicação de
alta — porque perdeu o contato com a família e não tinha para onde ir.
A
norma do CNJ busca se alinhar à Lei da Reforma Psiquiátrica, de 2001,
que mudou o modelo de assistência a pessoas com transtornos
psiquiátricos no Brasil.
"Ou
seja, o Judiciário está tentando agora se adequar a uma lei que já tem
duas décadas", explica a psiquiatra forense Emi Mori.
Essa foi uma conquista da mobilização que busca há algumas décadas acabar com a internação em manicômios.
O
movimento antimanicomial defende direitos de pessoas em sofrimento
mental e advoga pelo fim da lógica de manicômios, com internações
prolongadas e privação da liberdade de pacientes, nos cuidados em saúde.
Hoje,
pessoas nesta situação que cometem crimes e são presas por isso, se são
consideradas inimputável pela Justiça — ou seja, incapazes de responder
por seus atos — recebem, em vez de uma pena, uma medida de segurança.
Ou seja, são internadas nos hospitais de custódia, para receber tratamento.
A
decisão do CNJ determina que estas pessoas devem passar a ser atendidas
em unidades da rede de saúde pública em vez de manicômios, ressalta
Mori.
A mudança busca reduzir internações prolongadas e incentivar o acompanhamento ambulatorial sempre que possível.
Mas o fim dos manicômios judiciários no Brasil ainda está longe de ser atingido, passados quase dois anos da decisão na Justiça.
CNJ determinou inicialmente um prazo de um ano para o fechamento de unidades penais com características hospitalares.
Segundo dados do CNJ, só quatro Estados cumpriram a determinação até agora — Ceará, Goiás, Mato Grosso e Piauí.
Alguns Estados, como São Paulo, onde estão mais da metade de todos os internos, pediram o adiamento do prazo do CNJ.
Um
dos entraves para o fim dos manicômios judiciários é o impasse sobre
quem vai assumir o cuidado destes internos, que perderam muitas vezes o
vínculo com qualquer pessoa do lado de fora.
Quem
defende o fim dos manicômios diz que o tratamento oferecido nestes
lugares não ajudam os pacientes e que eles vão ser melhor atendidos em
unidades especializadas da rede de saúde pública.
Críticos
da medida também afirmam que, com o fim dos manicômios, os internos não
vão receber o tratamento que precisam e que "criminosos perigosos" vão
ser colocados nas ruas, o que colocaria outras pessoas em risco.
'Na prática, pouca coisa mudou'
Hoje, ainda existem 28 manicômios judiciários em funcionamento no país.
O
Paraná, por exemplo, onde Manoel passou mais de um quarto da vida
internado em um local assim, tem 150 pessoas no Complexo Médico Penal,
no momento.
Este
é o único hospital de custódia do Estado, que é o segundo com maior
número de pessoas que cumprem medida de segurança no país.
Pelo
menos 16, já receberam alta, mas continuam no manicômio. A Defensoria
já protocolou por este motivo 25 pedidos de indenização contra o Paraná,
que foi condenado cinco vezes — o caso de Manoel foi um deles.
"Essas
pessoas continuam detidas por falta de acolhimento adequado fora do
sistema prisional", relata a psicóloga Nayanne Costa Freire, que
participa de um programa da Defensoria Pública para reintegração de
pessoas em condição asilar.
Freire aponta problemas graves na assistência dentro do CMP do Paraná.
"As pessoas ficam isoladas, sem acesso a familiares ou a tratamentos adequados. É um sistema insalubre", diz Freire.
Desde 2020, o programa da Defensoria retirou 97 pessoas do Complexo Médico Penal do Paraná.
"Conseguimos localizar parentes de várias pessoas", explica Freire.
"Para
aquelas sem acolhimento familiar, buscamos alternativas em instituições
de longa permanência, residências inclusivas ou serviços de
albergagem."
A psicóloga relata que os pacientes recebem um tratamento padrão que desconsidera suas necessidades particulares.
"É
comum o uso de medicamentos como o haloperidol, apelidado de 'injeção
de entorta' pelos internos. Esse remédio causa apatia severa, além de
efeitos colaterais debilitantes", diz Freire.
Segundo a psicóloga, há ainda relatos de uso sistemático e abusivo da prometazina, um antialérgico com propriedades sedativas.
"É uma contenção química para facilitar o controle dos internos, em vez de oferecer um tratamento digno", argumenta Freire.
Apesar
da resolução de fechar os manicômios judiciários, Freire diz que o
sistema continua recebendo pacientes: "Na prática, pouca coisa mudou".
Maurício
Ferracini, diretor-adjunto da Polícia Penal do Estado, que responde
pelo CMP, nega que o tratamento dado aos internos seja inadequado e diz
que as instalações do complexo passaram por reformas.
Ferracini também nega que novos casos estejam sendo encaminhados à unidade.
Segundo
ele, isso não ocorre desde 2023. Os réus que são alvo de medidas de
segurança por questões psiquiátricas são direcionados diretamente às
equipes da rede pública de saúde.
Segundo ele, não houve impacto negativo na segurança pública desde a implementação da medida.
"Esses
casos são questão de saúde pública e não de segurança. Quando
encaminhados para a equipe multidisciplinar, temos tido respostas
adequadas", afirma Ferracini.
Falta de psiquiatras e avaliações atrasadas em SP
Com 898 pessoas em hospitais de custódia, São Paulo tem o maior número de internados. Isso representa 51,3% do total no país.
O Estado também é o que tem a maior população encarcerada no país, com 200 mil presos.
São
Paulo tem três hospitais de custódia, dois no município de Franco da
Rocha, na região metropolitana; e um no interior do Estado, na cidade de
Taubaté, para onde vão os casos considerados mais graves.
A
Defensoria Pública do Estado realizou, em 2023, inspeções em dois
deles, e os relatórios também mostram uma série de problemas nas
instituições.
A
unidade de Franco da Rocha I, por exemplo, tinha apenas um psiquiatra
trabalhando na unidade quando, na verdade, deveriam ter cerca de 30
profissionais se revezando na escala.
A
falta de profissionais, pontua o relatório, causa atrasos nas
avaliações de "cessação de periculosidade", que são os laudos médicos
que atestam que a pessoa não representa mais riscos à sociedade.
Além
disso, sem profissionais de saúde nas unidades, os internos de Franco
da Rocha são levados para Taubaté, a mais de 170 quilômetros de
distância, para a realização de perícias.
"São
'hospitais' entre muitas aspas. Eles têm o nome de hospitais, mas estão
com equipes absolutamente defasadas", diz a defensora pública Camila
Tourinho.
"Eles
funcionam da porta para dentro, sem fazer nenhuma interlocução com o
sistema de saúde, quem de fato teria que se responsabilizar pelos
cuidados com essas pessoas."
Tourinho diz que a internação nos manicômios dificultam a reintegração social dos pacientes.
"Eles
não conseguem sair porque seus vínculos foram absolutamente rompidos.
Não têm família ou um equipamento municipal que possa recebê-los", diz a
defensora.
Os internos dependem do laudo psiquiátrico para atestar que eles não oferecem mais perigo.
"Mas, como esses médicos são escassos, as avaliações demoram", diz Tourinho.
"Existem casos de pacientes que cumprem mais tempo em hospitais de custódia do que a pena do crime cometido."
Este é o caso de Rafael, que foi preso pelo furto de um botijão de gás em outubro de 2022.
Ele ficou na Penitenciária III de Franco da Rocha até maio de 2024 para aguardar a realização de exame psiquiátrico.
A pena mínima do crime que ele cometeu é de um ano. Ele foi solto pouco mais de um ano e meio depois, com a concessão de um habeas corpus pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ).
A Secretaria da Administração Penitenciária afirmou em nota que não há no Estado avaliações em atraso.
Atualmente,
existem oito psiquiatras no quadro médico dos hospitais, que seriam
suficientes para atender todas as pessoas internadas, segundo a nota.
A
pasta afirmou ainda que a unidade de Franco da Rocha I oferece
semanalmente a visita presencial, visita virtual e a correspondência
eletrônica para fortalecer o vínculo familiar e o apoio emocional para
os pacientes.
Já
na segunda unidade, focada na desinternação, os pacientes têm acesso
livre ao telefone público e chamada de vídeo com familiares, afirmou a
Secretaria.
Impasse no STF
A
resolução do CNJ que determina o fim dos manicômios judiciários foi
questionada no STF pela Associação Nacional dos Membros do Ministério
Público (Conamp), pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e por
dois partidos, o Podemos e o União Brasil.
Em
abril, o senador Sérgio Moro (União Brasil-PR) pediu uma audiência
pública sobre o tema. Na época, ele disse ser preciso buscar saída que
não traga riscos à sociedade.
"Li uma notícia de jornal recentemente falando da preocupação com alguns internados no Rio de Janeiro", disse Moro.
"Entre eles, havia um indivíduo que era responsável por múltiplos assassinatos de crianças e adolescentes", prosseguiu.
"Ao
se colocar um indivíduo desse num hospital normal, como vai ser? Vai
ficar com vigilância perpétua, com policiais ali presentes? Vai ficar
acorrentado na cama?"
"Imagina que, de uma hora para outra, pessoas sob tratamento são colocadas em liberdade?", questiona o promotor.
"Há de se ter critérios, observar a individualização da pena, a gravidade do delito, o tipo de patologia que elas têm."
Existem pessoas que, do ponto de vista clínico, precisam ter um tratamento continuado, argumenta o promotor.
"O
sistema de saúde geral não tem condições de absolver todas essas
pessoas sujeitas a medida de segurança por praticarem crimes graves e
cujas patologias elas demandam muito tempo de tratamento."
STF
começou a julgar a ação em outubro no plenário, mas suspendeu o
andamento após as sustentações orais, antes dos votos dos ministros.
O relator, o ministro Edson Fachin, será o primeiro a votar. Mas ainda não há data prevista para a retomada do julgamento.
Antônio
Geraldo da Silva, presidente da ABP, critica a resolução por, ao seu
ver, não ter sido elaborada sem a consulta de médicos psiquiatras ou
entidades representativas da área, como o Conselho Federal de Medicina
(CFM) e a própria associação.
"Como
você quer falar de hospital psiquiátrico e não chama as instituições
que cuidam dessa área? É como discutir infarto agudo do miocárdio sem
ouvir cardiologistas", critica Silva.
"Negar
internação é negar tratamento. Estamos tratando de pessoas que podem
ser perigosas e precisam de cuidados adequados para cessar a
periculosidade e conviver em sociedade."
O
psiquiatra critica a mobilização por trás do avanço da política
antimanicomial por, em sua avaliação, minimizar a gravidade das doenças
mentais e ignorar a necessidade de internação em casos específicos.
"A
luta antimanicomial nega a existência da doença mental e coloca em
risco a vida das próprias pessoas e de outros", afirma Silva.
"Isso é desumano e baseado em ideologia, não em ciência."
A
psiquiatra forense Emi Mori, no entanto, ressalta que não há doença
psiquiátrica que exija, de antemão, períodos tão longos de internação.
"O tempo depende da evolução do tratamento, não de prazos fixos estabelecidos pela lei", diz Mori.
"Nem
todo paciente com doença mental que comete um crime é intrinsecamente
perigoso. O conceito de periculosidade jurídica nem sempre está alinhado
com a realidade clínica."
Ela
acredita que a polarização política prejudica o debate sobre a questão,
que tem apelo com quem defende medidas mais duras de segurança pública.
"Propostas
extremas sugerem soluções simplistas para o problema, que é bastante
complexo. E quando entidades médicas endossam a ideia de que estamos
'soltando criminosos', isso é alarmista e superficial", diz Mori.
"As
unidades carecem de estrutura terapêutica adequada. Não há equipes
multiprofissionais completas, como psicólogos e terapeutas
ocupacionais."
A psiquiatra defende que o modelo de assistência a pessoas com transtornos mentais que cometem crimes precisa ser revisto.
"Hoje,
o foco está mais na contenção do que no tratamento. Os hospitais de
custódia estão em um limbo entre o cumprimento de pena e o tratamento
médico", diz.
"É
preciso criar espaços que ofereçam assistência multiprofissional e um
ambiente propício à recuperação, mesmo nos casos em que a internação
seja indispensável."
Mas
ela pondera que o fim dos manicômios deve ser acompanhado de
alternativas eficazes, com suporte psicológico, social e terapêutico.
"Sem isso, a reforma se torna uma transferência de problema, não uma solução."
Para
a transição ser efetiva, o desembargador Gilberto Leme afirma que vai
ser necessário criar uma estrutura de saúde pública capaz de atender a
nova demanda.
Segundo
Leme, há a possibilidade de reformar os hospitais de custódia para
transformá-los em centros de referência em saúde mental.
Apesar
das dificuldades, ele nota que a resolução do CNJ já começou a impactar
em decisões judiciais. O desembargador avalia que o Judiciário já adota
uma postura mais criteriosa ao determinar internações.
"Notamos que os juízes têm sido mais parcimoniosos ao aplicar medidas de segurança", afirma Leme.
"É
uma mudança que exige tempo, investimento e, acima de tudo, diálogo
entre Justiça e Saúde para podermos oferecer tratamento digno e eficaz
às pessoas com transtornos mentais em conflito com a lei."
"NÃO
TENHA MEDO DO KORO", dizia a manchete do jornal Straits Times em 7 de
novembro de 1967. Nos dias anteriores, um fenômeno peculiar havia se
espalhado por Singapura. Milhares de homens haviam se convencido
espontaneamente de que seus pênis estavam encolhendo — e que isso acabaria matando-os.
A
histeria em massa tomou conta rapidamente. Os homens tentavam
desesperadamente segurar seus órgãos genitais, usando tudo o que tinham à
mão: elásticos, prendedores de roupa, barbante. Médicos locais
inescrupulosos lucraram, recomendando várias injeções e remédios
tradicionais.
Corria
o boato de que a súbita retração do pênis era causada por algo que os
homens haviam comido. Os moradores locais desconfiavam da carne suína,
especificamente de porcos que haviam sido vacinados como parte de um
programa que o governo havia imposto às fazendas de Singapura. As vendas
de carne suína despencaram rapidamente.
Embora as autoridades de saúde
pública tenham se esforçado para conter o surto de histeria, explicando
que aquilo era causado apenas pelo "medo psicológico", não funcionou.
No fim das contas, mais de 500 pessoas procuraram tratamento em
hospitais públicos.
No
Sudeste Asiático e na China, é comum o suficiente para ter até um nome:
"koro", que remete possivelmente — e de forma bastante visual — à
palavra javanesa para tartaruga, referindo-se à sua aparência quando
retrai a cabeça para dentro do casco.
O
koro tem uma história que remonta a milhares de anos, mas o surto mais
recente ocorreu em 2015, no leste da Índia. No total, 57 pessoas foram
afetadas, incluindo oito mulheres, para quem a síndrome tende a se manifestar como um medo de que seus mamilos estejam se retraindo para dentro do corpo.
O koro é considerado uma síndrome ligada à cultura — um transtorno mental que só existe em certas sociedades.
Durante décadas, distúrbios "intraduzíveis" como este foram estudados
como meras curiosidades científicas, que existiam em partes do mundo
onde as pessoas aparentemente não tinham conhecimento.
Os
transtornos mentais ocidentais, por outro lado, eram vistos como
universais — e você poderia garantir que todo problema "genuíno" seria
encontrado nas páginas sagradas da bíblia psiquiátrica americana, o
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (mais comumente
conhecido como DSM, na sigla em inglês). Mas hoje os cientistas estão
percebendo cada vez mais que este não é o caso.
Na Coreia do Sul, por sua vez, existe o hwa-byung ("vírus
da raiva", em tradução livre) —, que é causado ao reprimir sentimentos
sobre algo que você considera injusto, até que você sucumba a alguns
sintomas físicos alarmantes, como uma sensação de queimação no corpo.
Lidar com membros da família irritantes é um grande fator de risco — é comum durante divórcios e conflitos com parentes.
Embora,
para os não iniciados, esses transtornos mentais possam parecer
excêntricos ou até mesmo inventados, na verdade, eles são problemas
sérios e legítimos de saúde mental que atingem um grande número de
pessoas.
Estima-se que o hwa-byung
afete cerca de 10 mil pessoas na Coreia do Sul todos os anos — em sua
maioria, mulheres casadas mais velhas —, e uma pesquisa mostrou que ele
deixa uma marca mensurável no cérebro.
Em
2009, exames de imagem revelaram que quem sofre deste distúrbio
apresentava menor atividade em uma área do cérebro conhecida por estar
envolvida em tarefas relacionadas à emoção e controle de impulsos. Isso
faz sentido, já que o hwa-byung é um transtorno de raiva.
As
consequências das síndromes vinculadas à cultura podem ser
devastadoras. Os ataques de koro podem ser tão convincentes que os
homens causam graves danos aos seus órgãos genitais, na tentativa de
impedi-los de retrair.
As pessoas que sofrem de reflechi twòp têm oito vezes mais chance de ter pensamentos suicidas, enquanto o hwa-byung tem sido associado a sofrimento emocional, isolamento social, desmoralização e depressão, dor física, baixa autoestima e infelicidade.
Curiosamente,
algumas doenças intraduzíveis desapareceram recentemente, enquanto
outras estão se espalhando para novas partes do mundo.
Mas,
afinal, de onde vêm essas doenças, e o que determina onde elas são
encontradas? A busca por respostas tem fascinado antropólogos e
psiquiatras há décadas — e agora suas descobertas estão norteando nossa
compreensão da própria origem dos transtornos mentais.
Exportação do Ocidente
O
prêmio de doença vinculada à cultura com a história mais surpreendente
vai, sem dúvida, para a "neurastenia" (também conhecida como shenjing shuairuo).
Embora ocorra principalmente na China e no Sudeste Asiático atualmente,
trata-se, na verdade, de um transtorno colonial do século 19.
A
neurastenia foi popularizada pelo neurologista americano George Miller
Beard, que a descreveu como uma "exaustão do sistema nervoso". Na época,
a Revolução Industrial estava gerando uma grande reviravolta na vida
cotidiana, e ele acreditava que a neurastenia — uma síndrome
caracterizada por dor de cabeça, fadiga e ansiedade, entre outras coisas — era resultado disso.
Romancistas famosos como Marcel Proust foram diagnosticados, o
transtorno se tornou bastante popular", diz Kevin Aho, filósofo da
Universidade da Costa do Golfo da Flórida, nos EUA, que estudou a
história do transtorno.
De
acordo com uma pesquisa realizada em 1913, a neurastenia foi o
diagnóstico mais prevalente entre os colonizadores brancos na Índia, Sri
Lanka (então Ceilão), China e Japão.
Com
o passar dos anos, a neurastenia perdeu gradualmente seu apelo no
Ocidente, à medida que foi associada a problemas psiquiátricos mais
graves. Agora foi completamente esquecida.
Em
outros lugares, porém, aconteceu o contrário: foi usada como um
diagnóstico que não trazia o estigma do transtorno mental — e continua
em uso até hoje.
Em
algumas partes da Ásia, é mais provável que as pessoas digam que têm
neurastenia do que depressão. Um estudo de 2018 realizado com uma
amostra aleatória de adultos de Guangzhou, na China, mostrou que 15,4%
se identificaram como tendo neurastenia, contra 5,3% que disseram ter
depressão.
"Quando
entrevistei pacientes pela primeira vez em um hospital psiquiátrico em
Ho Chi Minh, no Vietnã, em 2008, quase todos disseram que tinham
neurastenia", conta Allen Tran, antropólogo psicólogo da Universidade
Bucknell, na Pensilvânia, nos EUA.
"Então,
quando fiz uma pesquisa de acompanhamento dez anos depois, acho que
apenas uma pessoa da minha amostra disse que a tinha (neurastenia)."
O que está acontecendo?
Normas culturais
Há
dois cenários possíveis acontecendo aqui. Em primeiro lugar, existe a
ideia de que toda a humanidade é suscetível à mesma variedade limitada
de transtornos mentais — todos nós nos sentimos ansiosos e deprimidos,
por exemplo, mas a maneira como falamos sobre essas coisas varia
dependendo de quando e onde você vive.
O
fato de que as doenças vinculadas à cultura podem ser adquiridas e
desaparecer dentro de uma única comunidade, e com tanta rapidez, é uma
pista importante.
Isso
sugere que elas não são impulsionadas, por exemplo, por fatores
genéticos, uma vez que este tipo de mudança geralmente leva centenas ou
milhares de anos, em vez de dezenas.
Em
vez disso, a rápida extinção da neurastenia no Vietnã pode ser
atribuída à crescente popularidade do conceito de ansiedade, que foi
importado do exterior.
É
possível que a incidência real de transtornos mentais tenha sido a
mesma durante todo esse tempo, mas, conceitualmente, uma foi substituída
pela outra, explica Tran.
No Reino Unido, a ultrapassada "histeria"
— que acreditava-se afetar principalmente as mulheres e causar
desmaios, explosões emocionais e nervosismo — desapareceu do imaginário
popular no início do século 20.
Mas
Shorter sugere que ela não desapareceu de fato. Em vez disso, o
conjunto de sintomas que procuramos evoluiu. Atualmente, o mesmo
fenômeno mental se esconde atrás de outros diagnósticos, como a
depressão.
Isso
se encaixa em outro conceito que vem ganhando popularidade, "expressões
idiomáticas de angústia", que sugere que cada cultura tem certas formas
aceitáveis e estabelecidas de expressar angústia emocional em um
determinado momento.
Em
uma sociedade, você pode exagerar na bebida, enquanto em outras pode
dizer que é vítima de bruxaria ou diagnosticar a si mesmo com
transtornos como koro ou depressão.
Por exemplo, no mundo islâmico, acredita-se amplamente que é possível ser possuído por jinns,
ou espíritos malignos. Eles podem ser bons, maus ou neutros, mas
geralmente são culpados pelo comportamento errático. O conceito é tão
popular que está até no livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão.
"Muitos
dos meus pacientes têm esta crença muito forte", diz Shahzada Nawaz,
psiquiatra do North Manchester General Hospital, no Reino Unido.
Nawaz
explica que a capacidade de invocar espíritos é particularmente útil
nas culturas islâmicas, devido ao estigma que tende a acompanhar os
transtornos mentais ocidentais.
Um
estudo com 30 pacientes de Bangladesh que frequentavam um serviço de
saúde mental em um bairro do leste de Londres mostrou que, embora eles
tivessem sido diagnosticados com uma variedade de problemas, como esquizofrenia e transtorno bipolar, seus familiares geralmente achavam que se devia à possessão por jinns.
Nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Europa, pelo
menos no século 21, a tendência é que a angústia ocorra na mente, com a
predominância de sintomas como tristeza, raiva ou ansiedade.
Mas
isso, na verdade, é muito estranho. Em muitas partes do mundo, em
países tão diversos quanto China, Etiópia e Chile, ela se manifesta
fisicamente.
Por
exemplo, a edição mais atualizada do DSM descreve um ataque de pânico
como "uma onda abrupta de medo intenso ou desconforto intenso".
No
entanto, nos refugiados cambojanos, os sintomas tendem a se concentrar
no pescoço. Muitos transtornos mentais não ocidentais, como o koro e o hwa-byung, se encaixam neste padrão de percepção de sintomas físicos.
Por
outro lado, os transtornos mentais que envolvem a percepção da dor são
raros no mundo ocidental e calorosamente debatidos. Alguns cientistas
acreditam que a síndrome da fadiga crônica e a fibromialgia se enquadram nesta categoria, embora isso seja controverso.
Na
verdade, sabe-se há anos que nossas crenças podem ter um efeito
poderoso sobre a maneira como nos sentimos — e até mesmo sobre nossa biologia. Um exemplo é a "morte vodu", na qual uma morte súbita é provocada pelo medo.
Em
um caso famoso documentado por um dos primeiros exploradores da Nova
Zelândia, uma mulher maori comeu acidentalmente algumas frutas de um
local considerado proibido. Depois de anunciar que o espírito do chefe a
mataria pelo ato de sacrilégio, ela morreu no dia seguinte.
Se alguém poderia provocar a própria morte, apenas pelo medo, não está claro.
No
entanto, há fortes evidências de que nossos pensamentos e sentimentos
podem ter um impacto físico tangível, como quando um paciente espera que
um medicamento tenha efeitos colaterais e, por isso, ele acaba tendo —
conhecido como efeito nocebo.
"Eu
diria que há, sem dúvida, casos em que o significado atribuído às
experiências realmente muda biologicamente o que essa experiência é",
diz Bonnie Kaiser, especialista em antropologia psicológica da
Universidade da Califórnia, em San Diego, nos EUA.
Ela dá o exemplo do transtorno kyol goeu
("sobrecarga de vento", em tradução literal), um enigmático desmaio que
é prevalente entre os refugiados do Khmer Vermelho nos EUA.
Em
seu país natal, o Camboja, acredita-se que o corpo está repleto de
canais que contêm uma substância semelhante ao vento — e, se eles forem
bloqueados, a overdose de vento resultante fará com que o paciente perca
permanentemente o uso de um membro ou morra.
De
100 pacientes refugiados do Khmer em uma clínica psiquiátrica nos EUA,
um estudo constatou que 36% já haviam tido um episódio do transtorno em
algum momento.
Os
ataques geralmente ocorrem lentamente, começando com uma sensação geral
de mal-estar. Até que, um dia, a vítima se levanta e percebe que está
tonta — e é assim que ela sabe que o ataque está começando.
Por
fim, elas vão cair no chão, incapazes de se mover ou falar até que seus
parentes tenham administrado os primeiros socorros apropriados, que
geralmente consistem em massagear seus membros ou morder seus
tornozelos.
Revendo as doenças ocidentais
Como
nossa compreensão das doenças vinculadas à cultura melhorou, alguns
psicólogos começaram a questionar se certas condições de saúde mental
ocidentais também se enquadram nesta categoria.
Embora
certos transtornos pareçam ser universais — a esquizofrenia ocorre em
todos os países do planeta, em uma taxa relativamente constante —, isso
não é verdade para outros.
A bulimia
é menos frequente nas culturas orientais, enquanto a tensão
pré-menstrual (TPM) é praticamente inexistente na China, em Hong Kong e
na Índia. Já se argumentou, de forma um tanto controversa, que a
depressão é uma invenção do mundo de língua inglesa, decorrente da noção
equivocada de que é normal ser feliz o tempo todo.
Na era moderna, seria ingênuo pensar que os transtornos mentais de que sofremos são independentes do nosso estilo de vida.
"Acho
que há uma tremenda arrogância na forma como universalizamos esses
transtornos mentais, e não os vemos como social e historicamente
específicos", diz Aho, ressaltando que o transtorno de déficit de
atenção só foi adicionado ao DSM em 1980.
"Está
claro que as crianças têm mais dificuldade em prestar atenção agora,
porque são bombardeadas com estímulos sensoriais, e sua existência é
amplamente mediada por telas. Portanto, não é como se tivéssemos acabado
de descobrir uma entidade médica distinta — é possível ver a maneira
como a tecnologia está moldando a vida mental, emocional e
comportamental das crianças."
Independentemente
da causa, em um mundo com cada vez mais mobilidade, alguns
especialistas estão preocupados com o fato de que transtornos
culturalmente específicos não estão sendo reconhecidos pelos
profissionais de saúde mental.
"Nas
culturas do Leste Asiático, o vocabulário e a linguagem que as pessoas
usam para expressar sua angústia e sintomas são bem diferentes", diz
Sumin Na, psicóloga da Universidade McGill, no Canadá.
Isso
significa que, quando as pessoas do Leste Asiático migram para lugares
como a América do Norte, muitas vezes não fica claro quando elas
precisam de ajuda.
Em
uma época em que se observam perdas drásticas na diversidade de
praticamente todos os outros tipos — de espécies a idiomas —, sugeriu-se
que estamos em um precipício, potencialmente prestes a perder nossa
variedade de transtornos mentais também.
No livro Crazy Like Us
("Loucos como nós", em tradução livre), o autor Ethan Watters descreve
como passamos as últimas décadas lenta e insidiosamente americanizando o
transtorno mental — nos forçando colocar uma variedade de experiências
emocionais e psicológicas existentes em algumas "caixas" aprovadas, como
ansiedade e depressão — e "homogeneizando a maneira como o mundo
enlouquece".
Nesse
processo, não só corremos o risco de perder diagnósticos e assim os
tratamentos mais adequados, mas também a oportunidade de entender como
os transtornos mentais se desenvolvem.
Pesquisa recente aponta que o
aumento no consumo de álcool observado durante a pandemia de COVID-19
persistiu em 2022, destacando possíveis efeitos duradouros relacionados
ao estresse e mudanças comportamentais.
O consumo nocivo de álcool é uma das
principais causas evitáveis de morbidade e mortalidade nos Estados
Unidos e em diversos outros países. Durante a pandemia de COVID-19, foi
registrado um aumento no consumo de álcool associado ao estresse e um
crescimento nas mortes relacionadas a ele. Estudos anteriores já
documentaram esses impactos, mas havia, e há, a necessidade de avaliar
se os padrões de aumento no consumo persistiram após a pandemia.
Um estudo recente1,
publicado em novembro de 2024, teve por objetivo determinar se o
aumento no consumo de álcool observado durante a pandemia (2020, em
comparação a 2018) foi mantido em 2022, após o período pandêmico mais
grave. Para isso, foram utilizados dados transversais de adultos (≥18
anos) participantes do National Health Interview Survey (NHIS)
entre 2018 e 2022 - essa pesquisa nacionalmente representativa usa
amostragem complexa para refletir a população dos EUA - 24.965
participantes em 2018, 30.829 em 2020 e 26.806 em 2022. Vale destacar
que os principais desfechos avaliados foram o consumo de álcool no
último ano e o consumo excessivo, definido pelo National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism
- NIAAA - como cinco ou mais doses em um dia (ou ≥15 doses por semana)
para homens e quatro ou mais doses em um dia (ou ≥8 doses por semana)
para mulheres.
O principal achado do estudo foi o de
que o consumo de álcool aumentou tanto em 2020 quanto em 2022, em
comparação a 2018. Olhando para o consumo de álcool no último ano,
observou-se um aumento de 2,69% em 2020 e 2,96% em 2022; já para o
consumo excessivo, houve um aumento de 1,03% em 2020 e 1,18% em 2022.
Os resultados indicam que o aumento
no consumo de álcool durante a pandemia não foi temporário, mas
permaneceu alto e em crescimento em 2022. Isso pode estar relacionado,
segundo os autores do estudo, ao estresse prolongado causado pela
pandemia, persistência das mudanças nos hábitos das pessoas e a
dificuldade em acessar serviços de saúde durante esse período. Apesar de
algumas limitações, como a exclusão de populações militares ou
institucionalizadas e possíveis respostas imprecisas dos participantes,
os dados fornecem uma visão clara sobre uma questão de saúde pública.
Por fim, é possível concluir que o
aumento no consumo de álcool durante e após a pandemia de COVID-19
representa um problema sério e que exige atenção. É necessário ampliar o
acesso a serviços de triagem para identificar consumo nocivo, melhorar o
suporte psicológico nos sistemas de saúde e promover ações nas
comunidades para ajudar pessoas mais vulneráveis. Essas medidas podem
reduzir os impactos na saúde pública associados ao aumento do consumo de
álcool desde a pandemia - um problema ainda não solucionado.
Um
comercial de TV dos anos 1990 trouxe um dos primeiros sinais de que a
advogada americana Jamie L. — que usa o pseudônimo M. E. Thomas —
poderia ter algum transtorno de personalidade.
"Na infância,
aos 8 ou 9 anos, estava assistindo televisão com meu pai quando vi uma
propaganda sobre uma campanha de arrecadação de fundos contra a fome na África.
As imagens mostravam uma criança muito magra. Na cena seguinte, uma
mosca pousava nos olhos dessa criança, que não esboçava nenhuma reação",
descreve ela.
"Eu comentei: 'Nossa, mas que criança burra… Ela não consegue nem afastar uma mosca dos próprios olhos?'"
O pai de Thomas, claro, estranhou a reação da filha e questionou se ela não tinha empatia.
"Eu
não sabia o que essa palavra significava. Ao entender o que era
empatia, percebi que talvez não tivesse mesmo esse sentimento", relata
ela.
Thomas compartilhou essa história durante uma roda de conversa promovida no dia 12 de agosto pela Psycopathy Is ("Psicopatia É", em tradução livre), uma associação criada por pesquisadores nos Estados Unidos para fomentar estudos sobre esse transtorno psiquiátrico.
O
grupo — o primeiro e único no mundo focado neste tema — também oferece
suporte a famílias com casos de psicopatia e realiza campanhas de
conscientização sobre o transtorno.
Dias
depois da palestra, Thomas aceitou o convite para conversar com a BBC
News Brasil, onde compartilhou alguns outros episódios que vivenciou nas
últimas décadas e sua trajetória antes e depois do diagnóstico.
Antes de entrar nos detalhes da entrevista, vale fazer uma breve explicação técnica.
Atualmente,
os manuais de psiquiatria não usam mais os termos sociopatia ou
psicopatia — algo que gera muita controvérsia e intermináveis debates
entre especialistas da área.
Essas
duas condições, psicopatia e sociopatia, estão de alguma maneira
englobadas no chamado "transtorno de personalidade antissocial" — embora
existam testes que avaliem especificamente traços de psicopatia.
A
Associação Americana de Psiquiatria classifica a condição como "uma das
doenças mentais mais incompreendidas, com pouco diagnóstico e
tratamento".
Como
é possível notar em vários trechos da entrevista, Thomas mesmo utiliza
todos os termos — sociopatia, psicopatia e transtorno de personalidade
antissocial — para descrever sua condição.
Ela começa contando sobre um episódio que viveu na transição entre a infância e a adolescência.
"Quando
tinha uns 12 anos, o pai de uma amiga veio falar comigo. Ele me disse
que a filha dele me adorava e prezava pela nossa amizade, mas gostaria
que eu parasse de bater nela", relata Thomas.
"Eu fiquei muito surpresa, porque nunca havia percebido que fazia aquilo."
A advogada também lembra de alguns episódios da infância e da adolescência em que ela invadiu a casa de pessoas próximas.
"A
ideia era apenas fazer uma brincadeira, como mudar algumas coisas de
lugar para deixar os moradores confusos. Eu acreditava que isso seria
engraçado, mas hoje percebo que se tratava de uma enorme invasão de
privacidade."
Nos
tempos de escola, Thomas também passou por episódios de agitação — como
quando arremessava livros ou dicionários em colegas durante uma aula
particularmente tediosa.
"Também brincávamos de um futebol americano sem nenhuma regra. Eu pegava alguns colegas e dava socos e mais socos neles."
Ainda
na adolescência, Thomas diz ter feito apostas com uma amiga para ver
quem conseguiria beijar um garoto que ambas gostavam. O problema é que
ela já sabia de antemão que o menino estava afim dela.
"Eu
não levei em consideração os sentimentos da minha amiga, fui apenas
oportunista. Na hora, só pensava nos vinte dólares que iria ganhar",
diz.
"Por
outro lado, sempre fui muito bem nas aulas e tirava boas notas. Então
os professores não sabiam muito bem como lidar comigo."
Thomas entende que sempre sentiu uma certa "insensibilidade, uma falta de consciência sobre o que acontecia" ao seu redor.
No entanto, isso não era algo que chamava sua atenção durante a infância e a adolescência.
"Eu não me considerava diferente dos demais. Talvez suspeitasse que apenas fosse mais esperta", afirma.
"Além disso, minha família é numerosa, somos mórmons e todos temos aptidões musicais. Então, de certa maneira, já éramos uma família um tanto esquisita", observa ela.
Será que você é sociopata?
Thomas
confessa que sempre notou uma "dificuldade em ser colocada em
determinadas situações", quando precisava fazer uma espécie de atuação
para mascarar aquilo que realmente sentia.
"Também sempre foi muito difícil me engajar em qualquer coisa, a menos que aquilo me trouxesse um benefício direto."
Uma das atividades que se encaixou nesse requisito da recompensa foi a faculdade de Direito, onde Thomas formou-se advogada.
Foi nos tempos de universidade que ela ouviu a primeira sugestão de que poderia sofrer com algum transtorno de personalidade.
No segundo ano de curso, em meados de 2004, ela fez um estágio num órgão governamental e dividiu o escritório com outra mulher.
"Não
havia muito o que fazer, então conversávamos bastante. E comecei a
notar que essa colega tinha várias vulnerabilidades, que eu poderia usar
para manipulá-la", lembra.
"Ela falava abertamente comigo e contou que foi abandonada pelos pais e adotada por outra família, era homossexual e ao mesmo tempo super religiosa."
Com
o passar do tempo, Thomas ficou muito interessada pela colega — e ela
própria começou a se abrir mais e a contar detalhes pessoais.
"Senti
que essa colega de estágio não representava qualquer tipo de ameaça
para mim. Ela era praticamente um passarinho ferido", compara.
"Hoje, sei que na verdade ela não era assim, e essa avaliação vinha de meu preconceito psicopata", pondera a advogada.
Depois
de algumas semanas de bate-papo, essa colega de trabalho fez uma
pergunta decisiva para a vida de Thomas: "Ela me disse: 'Você já
considerou a possibilidade de ser uma sociopata?'"
A palavra não despertou nenhuma emoção específica na estudante de Direito.
"Como sou mórmon, não havia visto nenhum dos filmes mais famosos e violentos que abordam esses transtornos, como Psicopata Americano", relata ela.
Entre
os sinais listados pelo especialista, estão charme, senso grandioso de
autoestima, necessidade de estímulos constantes, propensão ao tédio,
mentiras frequentes, facilidade de manipular os demais, falta de
remorso, ausência de empatia, impulsividade...
"Cheguei à conclusão que essas características me descreviam muito bem", conta Thomas.
"Mas
à época não dei muito valor a isso. Achei que essas informações eram
apenas uma curiosidade qualquer, como descobrir que você tem algum grau
de parentesco com uma antiga rainha da França", brinca ela.
Ao
redor de 2008, já formada e com a experiência de trabalhar num
escritório de advocacia prestigiado, Thomas começou a ver que sua vida
colapsava.
"A empresa passou a insinuar que não havia futuro para mim ali. Uma amiga muito próxima descobriu que o pai estava com câncer e eu decidi que precisava me afastar, porque ela estava com muitas demandas emocionais."
"Também enfrentei uma série de problemas em relacionamentos amorosos e com a minha família."
Nessa
época, Thomas notou que a vida dela era marcada por ciclos de cerca de
três anos. Depois desse tempo, tudo o que ela construía — em termos de
relacionamentos pessoais, amorosos e profissionais — virava ruína.
"Era como se eu apertasse um botão 'dane-se' e não conseguisse mais cumprir um papel", raciocina ela.
"Eu
não me sentia bem com isso, mas sempre chegava nesse ponto de não
gostar mais do trabalho, de cansar de fingir que era uma boa amiga... Eu
precisava parar tudo, porque não me sentia mais interessada, como se
aquelas coisas não valessem mais a pena."
Nesses
momentos de baixa, Thomas se sentia desgastada por precisar manter uma
certa "máscara de normalidade" diante dos outros, quando sentia
justamente o contrário.
"Foi aí que pensei: será que isso acontece comigo porque sou sociopata?"
Entre o blog e o livro, um diagnóstico
Nesse mar de incertezas, Thomas decidiu resgatar um hábito da infância e da adolescência: escrever em um diário.
Só que dessa vez, ela resolveu fazer isso no mundo digital. Para isso, criou o blog Sociopath World ("Mundo Sociopata", em tradução livre).
"Como
usava pseudônimo e nunca me identifiquei, muita gente sempre achou que
eu fosse um homem. Ninguém pensava que uma mulher estava por trás do
blog", observa.
Após
compartilhar textos na internet por cerca de um ano e meio, a advogada
recebeu uma mensagem de uma agente literária, que a convidou para
escrever um livro sobre o tema.
A ideia foi materializada em 2013, com a publicação de Confessions of a Sociopath: A Life Spent Hiding in Plain Sight ("Confissões de uma sociopata: Uma vida escondida à vista de todos", em tradução livre).
No
entanto, antes de iniciar esse projeto, Thomas sentiu a necessidade de
confirmar que de fato era acometida por um transtorno — até então, ela
tinha fortes suspeitas, mas nunca havia passado pela avaliação de um
profissional de saúde.
"Nesse
momento, em meados de 2010, já havia me recuperado e trabalhava como
professora de Direito. Se há algo bom de ser psicopata, é essa
capacidade de voltar ao auge rapidamente."
Um
psicólogo pediu que ela fizesse uma série de testes cognitivos. Após a
consulta, a conclusão estava clara: Thomas tinha mesmo um transtorno de
personalidade.
Ela avalia que receber o diagnóstico "oficial" não representou nenhum significado especial na vida dela.
"Sabe
quando você já suspeita de algo? Para mim, o diagnóstico foi parecido
ao caso das mulheres que de certa maneira sentem que estão grávidas e só fazem um teste para confirmar aquilo que já tinham conhecimento", compara ela.
"Mas,
por outro lado, eu até tinha esperanças de que poderia ser
diagnosticada com qualquer outra doença, porque assim as coisas seriam
muito mais fáceis para mim."
"Se os profissionais de saúde tivessem detectado um câncer no meu cérebro, por exemplo, seria responsabilidade deles cortar o tumor dali."
"Agora,
o transtorno de personalidade é um trabalho com o qual eu mesma
precisarei lidar pelo resto da minha vida", complementa ela.
No entanto, mesmo com o diagnóstico em mãos, Thomas não iniciou o tratamento logo de cara.
"Aqui
nos Estados Unidos, os seguros de saúde só aceitam pagar por terapias
que são consideradas efetivas pelas associações da área. E,
estranhamente, não existem tratamentos que se encaixam nesse critério
para o transtorno de personalidade antissocial."
"Muitos especialistas também não se sentem à vontade para lidar com pacientes que tenham sociopatia ou psicopatia", acrescenta.
Preços de assumir abertamente a psicopatia
Após o lançamento do livro em 2013, Thomas participou de algumas entrevistas na televisão — e algumas pessoas a reconheceram.
"Um
dos alunos do curso de Direito escreveu à administração da faculdade
para dizer que se sentia ameaçado pelo fato de ter uma professora
sociopata", diz.
"A equipe de segurança da universidade me mandou um e-mail para informar que eu não poderia mais ir ao campus."
"Eu
respondi que aquilo era um ato grosseiro de discriminação e que me
solidarizava com o fato de o aluno se sentir ameaçado, mas nunca fiz
nada diretamente contra ele", afirma.
"Além
disso, eu não tinha, e não tenho, nenhum histórico criminal ou de
violência depois de adulta. Achei absurdo alguém manifestar um incômodo
pela minha simples existência."
Segundo
Thomas, a direção dobrou a aposta. "Eles me informaram que, além de ser
demitida e banida, eu estava proibida de transitar num raio de um
quilômetro do campus ou de qualquer pessoa relacionada com a faculdade."
"Sofri muito preconceito e ninguém parecia ligar", lamenta ela.
"As
pessoas me trataram muito mal e desenvolvi uma espécie de transtorno
pós-traumático. Durante a noite, eu acordava de súbito, com crises de ansiedade", conta.
Nessa mesma época, um irmão da advogada que sempre teve problemas de saúde mental começou a fazer sessões com um psicoterapeuta.
"Ele
fez o tratamento por cerca de dez meses e parecia uma outra pessoa. Ele
tinha uma série de problemas e rapidamente se tornou um adulto
funcional e competente."
A advogada resolveu seguir o exemplo do familiar e começou a fazer sessões com o mesmo terapeuta.
"Por
questões relacionadas ao plano de saúde, ele definiu logo de cara que
iria tratar o meu transtorno de personalidade, mas não chegou a
especificar o tipo."
Uma das primeiras metas traçadas nas consultas foi lidar com o "vício" em manipular as pessoas.
"Eu não sabia como manter um relacionamento com alguém sem fazer isso", admite Thomas.
"O
terapeuta me chamava a atenção para determinadas situações e me sugeria
maneiras de fazer pequenos ajustes na forma como interagia com os
outros", detalha ela.
A advogada admite que passou a sentir-se bem melhor conforme o tratamento evoluiu.
"Não
foram apenas os relacionamentos que melhoraram, mas a minha própria
experiência neles evoluiu. Esse contato com os outros se tornou mais
relevante, mais real, e comecei a me importar mais com as pessoas", diz
ela.
"Antes,
eu via as interações sociais como algo semelhante a ir para academia.
Era algo que eu precisava fazer, mas não necessariamente gostava. Hoje
em dia, os relacionamentos são super recompensadores para mim."
Em
2017, Thomas iniciou um novo projeto: conhecer e conversar com outros
indivíduos com suspeita ou diagnóstico de transtorno de personalidade
antissocial.
"A
primeira pessoa que visitei foi na Tasmânia, na Austrália. A mais
recente foi em Amsterdã, na Holanda, em abril deste ano", informa ela.
Segundo a advogada, geralmente esses contatos têm dois propósitos principais.
"Primeiro,
há um grupo de pessoas que suspeitam ter sociopatia ou psicopatia. Elas
me descobrem pelo blog ou pelo livro e se identificam com o que conto."
"A
segunda categoria engloba os indivíduos que precisam de ajuda. Eles
estão num período de dificuldade e não sabem o que fazer para mudar."
Futuro sem estigmas e preconceitos
Apesar
de entender a importância de falar abertamente sobre a psicopatia e o
transtorno de personalidade antissocial, Thomas se ressente do
preconceito que precisa enfrentar.
"Muitas pessoas me tratam mal em nome de uma pretensa intenção de se proteger de mim", destaca ela.
Talvez o estigma mais forte seja aquele que relaciona psicopatia com violência e atos criminosos.
A associação Psycopathy Is admite que "a psicopatia aumenta o risco de comportamentos agressivos e antissociais".
"No entanto, muitas pessoas com psicopatia não são violentas. E muitas pessoas que são violentas não são psicopatas."
"Cada
indivíduo com psicopatia possui diferentes atributos e desafios — e a
forma como crianças ou adultos com psicopatia se saem na escola, no
trabalho ou em ambientes sociais varia bastante", pontua a entidade.
Para
Thomas, que segue trabalhando com advocacia, esses estigmas
relacionados à psicopatia vêm em parte da própria ciência, "por meio de
pesquisas que fazem extrapolações e estão longe de representar a
diversidade de pacientes com o transtorno".
"Existem
muitos fatores que podem causar a violência, e a psicopatia é apenas
uma delas. O mesmo vale para outros transtornos", defende a advogada.
Mas ela suspeita que muitos preconceitos e temores relacionados à psicopatia têm uma origem ainda mais profunda.
"De
onde vem essa estranha necessidade das pessoas se preocuparem com a
forma como os outros manifestam seus sentimentos?", questiona ela.
A
advogada cita o exemplo hipotético de um funeral. Geralmente, é
esperado que todos demonstrem tristeza, chorem ou ao menos se compadeçam
dos familiares e amigos que estão num momento de sofrimento.
No
entanto, pessoas com transtorno de personalidade antissocial podem não
ter esses sentimentos num momento desses — e muitas vezes precisam
fingir e atuar para não serem julgados e criticados.
"Me
parece que a sociedade está sempre policiando os sentimentos — e todos
aqueles que possuem um universo emotivo diferente, que experimentam a
empatia de formas diversas, são discriminados."
Thomas cita o movimento de humanização do autismo: até pouco tempo atrás, indivíduos com esse transtorno eram excluídos e não existiam estruturas para acolhê-los na sociedade.
Felizmente,
esse cenário está mudando — nos últimos anos, campanhas de
conscientização e políticas públicas criaram espaços adaptados, para que
pessoas com autismo fossem incluídas e pudessem participar de diversas
atividades.
"Espero
que isso seja ampliado para públicos com outras condições além do
autismo. Como psicopata, quero que a sociedade entenda e acolha o meu
transtorno", diz ela.
"Sonho
com um futuro em que a psicopatia não seja apenas acolhida, mas que
pessoas com diferentes diagnósticos psiquiátricos possam expressar suas
reações emocionais sem serem julgadas."
Thomas pondera que "psicopatas que cometeram crimes precisam ser punidos por suas ações".
"Se eles fizeram algo errado, devem ir à prisão como qualquer um", reforça ela.
"Mas
não me parece correto que pessoas com o transtorno que nunca se
envolveram em qualquer problema legal sejam constantemente julgadas,
perseguidas e obrigadas a mascarar seus sentimentos."
"Isso
requer muita energia nossa. Seria muito melhor para os psicopatas e
para a própria sociedade se pudéssemos ser nós mesmos."
"Se
não tivéssemos que usar tanta força de vontade para mascarar quem
somos, talvez sobrasse mais energia para fazer coisas boas pela
sociedade, como nutrir relacionamentos ou propor soluções", defende.
Questionada
se há uma única coisa que o público em geral poderia aprender sobre a
psicopatia, Thomas responde que é preciso acabar com generalizações que
transformam todo um grupo em algo negativo.
"Certamente
existem muitas coisas consideradas ruins entre psicopatas. Mas talvez a
primeira delas seja o fato de sermos diferentes", conclui ela.