Translate

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Depressão


A Depressão geralmente é uma doença devastadora, apesar de muita gente ainda não acreditar que ela exista.  Não vamos falar aqui do quadro clínico e dos sintomas da Depressão, mas sim de um aspecto da Depressão que muitas pessoas não sabem e não se dão conta; trata-se do grau em que os transtornos depressivos afetam os relacionamentos. Segundo Xavier Amador, um casamento em que um dos parceiros está com depressão, tem nove vezes mais propensão de acabar, do que um onde não exista a depressão. Adriana Tucci mostra também dados internacionais onde os Transtornos Afetivos, além de terem uma prevalência de, aproximadamente, 11,3% da população, são uma das doenças que mais geram perdas sociais e nos relacionamentos familiares (veja mais em Depressões - Sintomas, na seção Depressão). Assim sendo, antes de se tomar decisões precipitadas nas desarmonias de relacionamento recomenda-se que, primeiro, seja verificada a possibilidade de uma das pessoas do relacionamento (quando não as duas) ser portadora de Depressão, em qualquer de suas formas (Distimia, Transtorno Afetivo Bipolar, Depressão Recorrente).
A Depressão, seja leve, moderada ou grave, será sempre incapacitante em algum grau, principalmente se considerarmos a duração dos sintomas. Ao longo do tempo os sintomas depressivos podem provocar desdobramentos complicados e desgastantes para a família e para a pessoa.
Segundo trabalhos recentes as relações íntimas entre pessoas com depressão são mais tensas, estressantes e cheias de conflitos do que entre pessoas não depressivas. Xavier diz que a depressão e os problemas de relacionamento e sexuais causados por ela seja a razão mais comum dos casais que procuram uma terapia. Metade das mulheres depressivas reclama de sérios problemas dentro do casamento e, provavelmente, um número parecido dos homens pode também reclamar da qualidade do relacionamento com mulheres depressivas.
Quando aparece um quadro depressivo na família, geralmente esta se desestrutura bastante. A tendência inicial é querer ajudar o indivíduo a reagir; ora acreditando que essa reação depende da vontade da pessoa deprimida, ora propondo medidas bem intencionadas e completamente ineficazes. Com freqüência dentro das famílias ou mesmo entre um casal existe uma série de crenças populares, que depreciam a pessoa com depressão, tais como a falta de vontade, uma fraqueza psíquica ou coisas assim.
Como ninguém consegue produzir melhoras, aflora um sentimento de frustração e impotência muito desgastante, principalmente quando se junta à mistura das tais crenças populares. Além disso, deve-se considerar o impacto social e econômico que a doença pode representar para toda a família.
É assim que os parentes de pessoas deprimidas, bem como os(as) companheiros(as) também sofrem de preocupação excessiva, raiva, exaustão e até mesmo raiva com a persistência daquele estado de humor problemático.
Comprometendo o Relacionamento
Apesar de serem poucos os trabalhos sobre indicativos, variáveis clínicas e sociais que levam os portadores de Transtornos Afetivos a apresentar maus ajustamentos sociais, a constatação de que isso acontece parece ser unânime. As principais esferas atingidas pelos Transtornos Afetivos estão nas áreas de trabalho e relacionamento interpessoal, com 1/3 dos pacientes apresentando desempenho ruim tanto no trabalho quanto no ajuste em outras áreas (Tsuang,1980).
Adriana Tucci (2001), verificou predomínio da Depressão em mulheres, e o relacionamento familiar teve papel significativo no resultado de ajustamento social. Entre portadores de Transtornos Afetivos, os pacientes unipolares e os distímicos tiveram melhores resultados no ajustamento social e no relacionamento familiar do que aqueles com Transtorno Afetivo Bipolar ou com a chamada Depressão Dupla, que é quando um episódio depressivo acomete quem já tem Distimia.
Tucci cita ainda pesquisa de Leader Klein, que avaliaram o relacionamento familiar de pacientes com Depressão Unipolar, Distimia e Depressão Dupla. Descreveram que pacientes com depressão dupla foram os que apresentaram, significativamente, piores resultados em relação aos outros dois grupos, e os pacientes distímicos apresentaram relacionamento familiar mais prejudicado do que os unipolares; porém, essa diferença não assumiu significância estatística. Esses dados são semelhantes aos apresentados pelos pacientes do presente estudo.
De fato, é de se supor que as maiores dificuldades de convivência familiar, social ou conjugal sejam com pacientes distímicos, já que a Distimia está identificada com aquela característica de personalidade conhecida como mau-humor. A convivência com pessoas mau-humoradas é, inegavelmente, muito difícil.
Comprometendo a Sexualidade
Um dos fatores importantes no comprometimento do relacionamento íntimo é a alteração na libido, ou do desejo sexual que acompanha a Depressão. Quem está deprimido normalmente perde a capacidade de sentir prazer com tudo, inclusive com o sexo. Assim, com freqüência a vontade de iniciar a relação sexual está muito prejudicada, ou tão comprometido que não se consegue chegar ao orgasmo. Essa disfunção sexual é gradativa, e acontece conforme a depressão vai-se agravando (veja Depressão e Disfunção Sexual).
Geralmente o tratamento da depressão tratará também a disfunção sexual de maneira indireta. Apesar de muitos antidepressivos terem como efeito colateral a diminuição do desejo sexual, mesmo assim a sexualidade vai voltando ao normal conforme vai melhorando a depressão. Quando os antidepressivos forem diminuídos ou suspensos a sexualidade voltará ao que era antes da Depressão.
A falta de desejo sexual pode comprometer uma relação na medida em que o(a) parceiro(a) sente-se deixado de lado, ou pior, suspeita de não estar mais sendo amado ou que pode estar sendo traído. Quando sozinha (ou solteira) a baixa da libido pode impedir a pessoa com depressão de começar qualquer relacionamento novo, principalmente porque, além da Disfunção Sexual, estará presente também uma baixa auto-estima.
Adriana Tucci verificou ainda que, de um modo geral, o papel sexual, tanto para pessoas casadas quanto para as não-casadas, foi o item que encontrou piores resultados adaptativos, com alta proporção de sujeitos com ajustamento ruim. Interesse em arrumar trabalho também teve alta proporção de pacientes com desempenho ruim, assim como foram ruins os interesses em adquirir informações, seguido pelo isolamento social.        
Quando o Transtorno é Bipolar
Gitlin et al (1995), em estudo prospectivo de 82 pacientes com Transtorno Afetivo Bipolar (veja TAB), verificaram que a adaptação social era boa apenas para 39% dos pacientes e com perdas razoáveis ou intensas para 62% deles. No trabalho de Kocsis et al (1997), há mais de 10 anos, os pacientes distímicos apresentaram prejuízos nos papéis sociais analisados, tais como, no trabalho, vida em família, tempo para atividades sociais e lazer.
A convivência é difícil no TAB porque esses pacientes costumam ter Episódios de Euforia e Episódios de Depressão, sendo que, na euforia, eles costumam colocar em risco a harmonia doméstica, o relacionamento íntimo, o patrimônio material e a segurança daqueles que com quem convive. Nos Episódios Depressivos, a apatia, desinteresse, perda do prazer, tendência ao isolamento, entre outros, complicam sobremaneira a convivência.
Um fator importante na melhoria da qualidade no relacionamento com pessoas bipolares é a excelente perspectiva de sucesso do tratamento, tanto nas fases agudas quanto na profilaxia dos episódios. O lítio, por exemplo, assim como outros estabilizadores do humor, diminuem expressivamente as possibilidades de recaída dos episódios de euforia nos Transtornos Afetivos Bipolares, os antidepressivos melhoram as relações interpessoais e o funcionamento global dos pacientes (Winokur,1993), prevenindo muita vezes os episódios de depressão.
O episódio de euforia se traduz por um estado de completa, artificial e patológica satisfação e felicidade. Verificam-se elevação do estado de ânimo, aceleração do curso do pensamento, loquacidade, vivacidade da mímica facial, aumento da gesticulação, riso fácil e logorréia. É muito difícil conviver harmonicamente com uma pessoa eufórica.
O tema “Abuso no Relacionamento Íntimo” é tratado em outra página desse site (seção Mulher) e pode estar presente na convivência com pessoas bipolares, especialmente durante episódios de euforia.
Quando o Transtorno é Depressivo Recorrente
Trata-se de um transtorno caracterizado pela ocorrência repetida de episódios depressivos, leves, moderados ou graves. O primeiro episódio pode ocorrer em qualquer idade, da infância à senilidade, sendo que o início pode ser agudo ou insidioso e a duração variável de algumas semanas a alguns meses. O marcante desses episódios é a apatia durante a crise depressiva, diminuição da energia física e mental, cansaço e fadiga crônicos, muitas vezes responsáveis por inúmeros exames de sangue a que se submetem os pacientes. O deprimido pode relatar fadiga persistente sem esforço físico compatível e as tarefas mais leves parecem exigir mais esforço que o habitual.
Também pode haver diminuição na eficiência para realizar tarefas. A pessoa deprimida pode queixar-se, por exemplo, de que as coisas levam o dobro do tempo habitual para serem feitas. Na depressão também é muito freqüente um certo prejuízo na capacidade de pensar, de concentrar-se ou de tomar decisões. Os depressivos podem se queixar de enfraquecimento de memória ou mostrar-se facilmente distraídas.
A produtividade ocupacional costuma estar prejudicada, notadamente nas pessoas com atividades acadêmicas ou profissionais intelectualmente exigentes. Freqüentemente existem pensamentos sobre morte durante o Episódio Depressivo. Trata-se, não apenas da ideação suicida típica, mas também da preferência em estar morto ainda que não propositadamente. O que torna a convivência e o relacionamento muito problemático com a pessoa que atravessa um episódio depressivo é a baixa auto-estima. Por conta disso o ciúme e a sensação de estar sendo menos gostado, de estar atrapalhando, sendo um ‘peso morto’, têm papel importante.
Quando o problema é a Distimia
A característica essencial do Transtorno Distímico é um humor cronicamente deprimido que ocorre na maior parte do dia, na maioria dos dias, na maior parte dos meses. As pessoas com Transtorno Distímico descrevem seu humor como triste ou "na fossa", mas na realidade elas são mau-humoradas. Pode haver baixa energia ou fadiga, baixa auto-estima, fraca concentração ou dificuldade em tomar decisões e sentimentos de desesperança. Os indivíduos podem notar a presença proeminente de baixo interesse e de autocrítica, freqüentemente vendo a si mesmos como desinteressantes ou incapazes. Como estes sintomas tornaram-se uma parte tão presente na experiência cotidiana do indivíduo (por ex., "Sempre fui deste jeito", "É assim que sou"), eles em geral não são relatados, a menos que diretamente investigados pelo entrevistador.
Para os distímicos os fatos da vida são percebidos com muita amargura e são mais difíceis de suportar, de forma que as vivências desagradáveis são ruminadas por muito tempo e revividas com intensidade, sofrimento e emoção. Já as vivências mais agradáveis passam quase desapercebidas, são fugazes e esquecidas com rapidez.
Conviver ou relacionar-se com pessoas assim mau-humoradas, implicantes, exigentes e negativas, digamos, dispensa comentários. Muitas pessoas distímicas não procuram ajuda por vergonha, por medo de serem vistos como “loucos” ou pessoas psiquicamente problemáticas, mas se soubesse da melhoria nas condições de vida com o tratamento com antidepressivos essas barreiras seriam facilmente superadas.
para referir:
Ballone GJDepressão e Relacionamento Pessoal - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2007

Eu Queria Ter Uma Bomba

 

Cazuza

Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto, eu penso em suicídio
Mas no fundo eu nem ligo
Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder me livrar
Do prático efeito
Das tuas frases feitas
Das tuas noites perfeitas
Solidão a dois de dia
Faz calor, depois faz frio
Você diz "já foi" e eu concordo contigo
Você sai de perto eu penso em homicídio
Mas no fundo eu nem ligo
Você sempre volta com as mesmas notícias
Eu queria ter uma bomba
Um flit paralisante qualquer
Pra poder te negar
Bem no último instante
Meu mundo que você não vê
Meu sonho que você não crê.
Fonte: http://letras.terra.com.br/cazuza/907917/

Transtorno depressivo



O transtorno depressivo está classificado de várias maneiras por diversos autores e por diversas classificações internacionais. É complicado para o leitor entender essas diferentes classificações, as quais muitas vezes confundem e faz acreditar que mesmos quadros sejam quadros diferentes por se tratar de denominações diferentes. Por causa disso é muito mais importante entender os conceitos relacionados aos transtornos depressivos, independente das diversas denominações. Entendendo-se os conceitos será fácil entender quaisquer denominações.
Um conceito de extrema importância é saber se o paciente É deprimido ou ESTÁ deprimido. Algumas vezes a pessoa está deprimida, isso é, está momentaneamente com sintomas depressivos, geralmente ocasionados por alguma circunstância capaz de causar sofrimento emocional. Nesse caso, diz-se que a pessoa está com Depressão Reativa, antes apropriadamente chamada de Depressão Exógena. Como esse tipo de depressão envolve reações psíquicas, é também chamado de Depressão Psicogênica.
Outras vezes, a pessoa tem um histórico de vida emocional com vários momentos onde apresentou sintomas depressivos, muitos deles sem motivo vivencial aparente ou, quando há algum motivo, o quadro é desproporcional, tanto em intensidade quanto em duração. Essas pessoas são deprimidas, ou seja, têm um perfil afetivo propenso à depressão, têm com freqüência antecedentes familiares de depressão. É a chamada Depressão Maior ou, como antes, também apropriadamente chamada de Depressão Endógena. Como neste tipo existe uma participação biológica importante, alguns autores denominam Depressão Biológica
As classificações das depressões mais usadas são: a Classificação Internacional de Doenças, 10a. Revisão (CID.10) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 4ª revisão, da American Psychiatry Association (DSM.IV).
O quadro que se entende por Depressão está classificada dentro dos Transtornos Afetivos. Segundo a CID.10, Transtornos Afetivos são aqueles nos quais a perturbação fundamental é uma alteração do humor ou afeto, como uma Depressão (com ou sem ansiedade associada) ou uma Euforia. Esta alteração do humor em geral se acompanha de modificação no nível global de atividade, e a maioria dos episódios destes transtornos tendem a ser recorrentes e pode estar relacionada com situações ou fatos estressantes.
O DSM.IV classifica a Depressão dentro dos Transtornos do Humor e também baseia a classificação nos episódios depressivos. Na prática clínica sugerimos que a depressão seja considerada de duas maneiras: Típica e Atípica. A Depressão Típica é aquela que se manifesta através dos Episódios Depressivos, e Depressões Atípicas aquelas que se manifestam predominantemente através de sintomas ansiosos (Pânico, Fobia ...) e somáticos. Para entender bem a depressão é preciso antes entender a Afetividade.
Se a pessoa teve apenas um momento de depressão é diagnosticada como tendo um Episódio Depressivo. Esse episódio depressivo típico é classificado em Leve, Moderado ou Grave, quanto à  intensidade. Se não se trata de uma ocorrência única na vida da pessoa, mas, ao contrário, se ele se repete, a CID.10 classifica esse tipo de depressão como Transtorno Depressivo Recorrente.
Para saber se o quadro depressivo em pauta faz parte de um Transtorno Depressivo Recorrente ou se é uma fase depressiva de um Transtorno Afetivo Bipolar, é necessário saber se os  Episódios Depressivos são a única ocorrência afetiva no curso da doença ou se coexistem Episódios de Euforia.
A maioria dos pacientes com Transtorno Depressivo Maior têm seu primeiro Episódio Depressivo antes dos 40 anos e a maioria destes episódios não tratados duram de 6 a 13 meses. Tratados, a maioria dos episódios dura cerca de 3 meses.
Episódio DepressivoDevido ao fato dos estados depressivos se acompanharem freqüentemente de sintomas físicos, a existência ou não destes sintomas faz parte da classificação do episódio, assim como também a presença de sintomas psicóticos. 
Para os distímicos os fatos da vida são percebidos com mais amargura, são mais difíceis de suportar, de forma que as vivências desagradáveis, mágoas e frustrações são ruminadas por muito tempo e revividas com intensidade, sofrimento e emoção. Já as vivências mais agradáveis passam quase desapercebidas, são fugazes e esquecidas com rapidez.
Na Distimia as sensações de doenças graves ou enfermidades mortais dificilmente são removíveis pela argumentação médica mas, por outro lado, as opiniões leigas depreciativas são enormemente valorizadas. Ao serem medicados, tais pacientes, normalmente "preferem" perceber os efeitos colaterais dos medicamentos aos efeitos terapêuticos pretendidos.
O prejuízo no funcionamento social e profissional é a razão que normalmente leva o paciente a procurar ajuda: pode haver desinteresse, perda da iniciativa, capacidade de concentração diminuída, perda da libido, memória prejudicada, fadiga e cansaço constante, vulnerabilidade a outras doenças, diminuição da auto-estima, inibição psíquica generalizada, perda da capacidade de sentir prazer pelas coisas da vida, insegurança, pessimismo, retraimento social, tendência ao isolamento, choro fácil, insônia, ansiedade e angústia.
Em crianças, nas quais os fenômenos depressivos se apresentam de forma atípica, o Transtorno Distímico pode estar associado com Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade (antiga Hipercinesia), Transtornos de Ansiedade e Transtornos de Aprendizagem. A Distimia infantil acarreta um comprometimento do desempenho escolar e da interação social. Em crianças, na prática clínica, muitas vezes encontramos apenas Hiperatividade, baixo rendimento escolar e rebeldia como sinais da Distimia.
Geralmente, tanto as crianças quanto os adolescentes com Transtorno Distímico, mostram-se irritáveis, ranzinzas, pessimistas, deprimidos e podem ter redução da auto-estima e fraco desempenho social. Na idade adulta, as mulheres estão duas a três vezes mais propensas a desenvolver Transtorno Distímico do que os homens.
O Transtorno Distímico é mais comum entre os parentes biológicos em primeiro grau de pessoas com Transtorno Depressivo Maior (ou Transtorno Depressivo Recorrente, pela CID.10) do que na população geral. O Transtorno Distímico tem um curso crônico, insidioso e precoce, iniciando-se comumente na infância, adolescência ou início da idade adulta. As pessoas com Transtorno Distímico em geral têm uma probabilidade maior para desenvolver um Transtorno Depressivo Maior sobreposto à Distimia.
para referir:
Ballone, GJ - Depressão: Tipos, in. PsiqWeb, Internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/, revisto em em 2010.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Depressão na Infância

Estão completamente erradas as pessoas que dizem: “crianças não ficam deprimidas porque não têm problemas”. E quem disse que precisa de problemas para ter depressão? Os problemas trazem tristeza, ansiedade e angústia. É claro que as vivências podem agravar nosso estado de humor, mas depressão é outra coisa. É uma doença, um transtorno do afeto, é um desarranjo cerebral funcional e tem uma base bioquímica.
Existe sim depressão na criança, porém, trata-se de um quadro atípico. Dificilmente veremos uma criança queixando de angústia, um vazio dentro de si, um medo indefinido, insegurança, autoestima baixa, perda de prazer com as coisas, perspectivas futuras sombrias... Isso é discurso depressivo típico e de adultos. Na criança a depressão é completamente diferente.
O Transtorno Depressivo Infantil é um quadro sério e capaz de comprometer o desempenho, o desenvolvimento e a maturidade psicossocial. A maior dificuldade no diagnóstico, estudo e tratamento da depressão infantil é proporcionada pela descrença na existência da doença. Essa descrença foi influenciada fortemente pelo excesso de psicologismo dos autores que atribuíam à depressão uma origem exclusivamente vivencial, juntamente com o pouco conhecimento desses mesmos autores sobre os fatores biológios das depressões.
Mas isso não foi suficiente para fazer desaparecer a depressão infantil da realidade clínica. Ela existe, de verdade, e continua fazendo vítimas na mesma proporção em que profissionais que lidam com crianças, pais e, principalmente avós, teimam em achar que criança não fica deprimida.
Outro fator que compromete o entendimento da depressão infantil é a grande diferença entre seus sintomas e os sintomas da depressão do adulto. Enquanto o adulto deprimido consegue falar sobre seus sentimentos, deixando clara a tonalidade depressiva de seu afeto e, conseqüentemente, de seus sintomas depressivos, a criança não consegue ter essa consciência e sua depressão só pode ser indiretamente suspeitada através de seu comportamento. Nissen, em 1983, relacionou os principais comportamentos que caracterizavam a depressão infantil. Eram eles:
1 - Humor instável,
2 - Autodepreciação,
3 - Agressividade ou irritação,
4 - Distúrbios do sono,
5 - Queda no desempenho escolar,
6 - Diminuição da socialização,
7 - Modificação de atitudes em relação à escola,
8 - Perda da energia habitual, do apetite e/ou do peso.
Na criança e adolescente a forma atípica desse transtorno afetivo esconde os verdadeiros sentimentos depressivos sob uma máscara de irritabilidade, agressividade, hiperatividade e rebeldia. As crianças mais novas, devido a incapacidade para comunicar verbalmente seu verdadeiro estado emocional, manifestam a depressão de forma mais atípica ainda, notadamente com hiperatividade.
Entretanto, embora a maioria das crianças com depressão manifeste sintomatologia atípica, algumas delas podem apresentar sintomas clássicos, tais como tristeza, ansiedade, expectativa pessimista, mudanças do hábito alimentar e do sono, ou ainda problemas físicos, tais como dores inespecíficas, fraqueza, tonturas, mal estar geral, enfim, queixas que não respondem ao tratamento médico habitual.
Apesar da tamanha importância da Depressão da Infância e da Adolescência, em relação à qualidade da vida emocional, em relação ao desempenho escolar, ao ajuste interpessoal, ao sucesso no trabalho e em tantas outras áreas da atividade humana, esse quadro não tem sido devidamente valorizado por familiares e pediatras e nem adequadamente diagnosticado (Veja Depressão na Adolescência).
A depressão na criança pode ser inicialmente percebida como perda de interesse pelas atividades habitualmente interessantes, como uma espécie de aborrecimento constante diante dos jogos, brincadeiras, esportes, sair com os amigos, etc., além dessa apatia, preguiça e redução significativa da atividade, às vezes pode haver tristeza, mas essa não é a regra geral.
De forma complementar aparecem sintomas muito significativos, como por exemplo,  diminuição da atenção e da concentração, perda da confiança em si mesmo, sentimentos de inferioridade e baixa autoestima, idéias de culpa e inutilidade, tendência ao pessimismo, transtornos do sono e da alimentação e, dependendo da gravidade do quadro, até ideação suicida.
Do ponto de vista biológico, a depressão é encarada como uma possível disfunção dos neurotransmissores e neuroreceptores, com fortes evidências de fatores genéticos ou falhas em áreas cerebrais específicas. Antigamente classificava-se esse tipo de depressão como sendo endógena, ou seja, de natureza constitucional. Embora as classificações não utilizem mais esses termos, o conceito de Depressão Endógena permanece verdadeiro e esse é o tipo de depressão que afeta as crianças com mais freqüência.
Além desse tipo de depressão existe aquela de natureza psicológica, associada às vivências e aspectos psicodinâmicos da personalidade. Na perspectiva social a depressão pode representar uma desadaptação, geralmente conseqüência de alteração dos mecanismos culturais, familiares, escolares, etc. Nesse caso, as variáveis psicológicas e sociais caracterizam um tipo de depressão anteriormente chamada de Depressão Exógena, ou seja, a depressão que representa uma reação a problemas psicológicos.
IncidênciaO reconhecimento do quadro depressivo infantil como transtorno capaz de afetar pessoas dessa faixa etária foi reivindicada pelo IV Congresso da União de Psiquiatras da Infância Europeus realizado em Estocolmo em 1971 (Annell, 1972). Isso resultou na elaboração de critérios de diagnóstico para o denominando Transtorno Depressivo da Infância e Adolescência (DSM-IV, 1994).
Os dados de prevalência do Transtorno Depressivo na Infância e Adolescência não são unânimes entre os pesquisadores, pois os métodos de pesquisa e de avaliação são bastante variados, assim como é grande a diversidade dos locais onde os estudos são realizados e das populações observadas.
Estudos norte-americanos revelam incidência de depressão em 0,9% das crianças pré-escolares, em 1,9% nas escolares e 4,7% em adolescentes (Kashani, 1988 e Weller, 1991). Mas esses números são demasiadamente otimistas, notadamente em nosso meio. E de fato, conforme constatou Rutter em 1986, os quadros depressivos são muito mais freqüentes na adolescência do que na infância.
Em 1995, Goodyar mostra uma prevalência do Transtorno Depressivo na Infância e Adolescência entre o 1,8% e 8,9%. Esses números são compatíveis com pesquisas mais recentes. Jose Luis Pedreira Massa (2003) assinala que na Espanha a média de transtornos depressivos na população infantil menor de 12 anos pode situar-se em torno de 9%, sendo algo superior na adolescência.
SintomasA Depressão Infantil não se traduz, invariavelmente, por tristeza e outros sintomas típicos dos adultos, como foi dito acima. É muito importante saber que existem momentos nos quais as crianças podem estar tristes, irritadas ou aborrecidas em resposta a vivências circunstanciais. Essas manifestações emocionais nada têm a ver com depressão, pois são fisiológicas, fugazes e passageiras. Entretanto, pode-se suspeitar de algum componente depressivo quando essas manifestações de aborrecimento, birra, irritação, inquietação ou outros rompantes são constantes e freqüentes, quase caracterizando uma maneira dessa criança ser e reagir.
Nas crianças e adolescentes é comum a depressão ser acompanhada também de sintomas físicos, tais como fadiga, perda de apetite, diminuição da atividade, queixas inespecíficas, tais como cefaléias, lombalgia, dor nas pernas, náuseas, vômitos, cólicas intestinais, vista escura, tonturas, etc. A Depressão na Infância e Adolescência costuma se manifestar ainda por insônia, choro, baixa concentração, irritabilidade, rebeldia, tiques, medos lentidão psicomotora, problemas de memória, desesperança, ideações e tentativas de suicídio. A tristeza pode ou não estar presente.
Na esfera do comportamento, a Depressão na Infância e Adolescência pode causar deterioração nas relações interpessoais, familiares e sociais, perda de interesse por pessoas e isolamento. As alterações cognitivas da Depressão Infantil, principalmente relacionadas à atenção, raciocínio e memória interferem sobremaneira no rendimento escolar.
A expressão clínica da depressão na infância é bastante variável e varia também em função das diversas faixas etárias, ambientes socioculturais, estruturas familiares. Baseando-se nas tabelas para diagnóstico, revistas por José Carlos Martins, podemos compor a seguinte listagem de critérios:
SINAIS E SINTOMAS SUGESTIVOS DE DEPRESSÃO INFANTIL
1- Mudanças de humor significativa
2- Diminuição da atividade e do interesse
3- Queda no rendimento escolar, perda da atenção
4- Distúrbios do sono
5- Aparecimento de condutas agressivas
6- Auto-depreciação
7- Perda de energia física e mental
8- Queixas somáticas
9- Fobia escolar
10- Perda ou aumento de peso
11- Cansaço matinal
12- Aumento da sensibilidade (irritação ou choro fácil)
13- Negativismo e Pessimismo
14- Sentimento de rejeição
15- Idéias mórbidas sobre a vida
16- Enurese e encoprese (urina ou defeca na cama)
17- Condutas anti-sociais e destrutivas
18- Ansiedade e hipocondria

Evidentemente, como em todos manuais de diagnóstico, não é obrigatório a criança completar todos os critérios da lista acima para se diagnosticar a depressão infantil. Para sugerir a necessidade de atenção especial a criança deve satisfazer um número suficiente desses itens.
Dependendo da intensidade da depressão, pode haver substancial desinteresse pelas atividades rotineiras, queda no rendimento escolar, diminuição da atenção e hipersensibilidade emocional. Surgem ainda preocupações típicas de adultos e que não fazem parte das preocupações próprias dessa faixa etária, tais como, a respeito da economia doméstica, saúde, emprego e estabilidade dos pais, medo da separação e da morte e grande ansiedade.
Hoje em dia já se pode pensar que algumas patologias bem definidas da infância, como é o caso, por exemplo, do Déficit de Atenção por Hiperatividade, ou alguns casos de Distúrbios de Conduta, Ansiedade de Separação na Infância, entre outros, não seriam também formas atípicas de depressões na infância. A favor de tal idéia está o fato desses quadros responderem muito bem ao uso de antidepressivos.
Suspeita de Diagnóstico O exame psíquico da criança nem sempre mostra os sentimentos e emoções claramente leais ao verdadeiro estado emocional interno. Um esforço de bom senso e perspicácia deve ser dedicado ao exame clínico, aumentando assim a possibilidade da criança menor ter seus sentimentos compreendidos. Em muitos casos, o único item a chamar atenção é uma maior sensibilidade emocional, choro fácil, inquietação, rebeldia e irritabilidade.
As mudanças de comportamento na criança são de extrema importância, tão mais importantes quanto mais súbitas essas mudanças tiverem aparecido. Assim, diante da depressão, crianças antes bem adaptadas socialmente passam a apresentar condutas irritáveis, destrutivas, agressivas, com a violação de regras sociais anteriormente aceitas, oposição à autoridade, preocupações e questionamentos de adultos. Essas mudanças no comportamento podem ser decorrentes do desenvolvimento da depressão.
Tendo em vista a importância das mudanças de comportamento infantil, pais e professores devem ficar atentos para acontecimentos que chamam atenção, que sejam incomuns se comparadas estatisticamente à maioria das crianças na mesma situação etária e sociocultural.
Os sintomas iniciais de possível depressão na criança em idade escolar podem incluir, por exemplo, uma redução significativa do interesse e da atenção. Em não se tratando de uma depressão biológica ou com importante componente hereditário, algumas causas ambientais podem ser capazes de comprometer o interesse e a atenção da criança, como por exemplo, os problemas domésticos, bem como as dificuldades na adaptação ao ambiente escolar que acontecem em mudanças de escola.
O baixo rendimento escolar e as dificuldades de aprendizagem também estão presentes nos quadros depressivos da infância, seja da depressão biológica, seja das reações depressivas diante dos problemas vivenciais. Declínio no rendimento escolar, particularmente acompanhado de desinteresse geral, pode ser reflexo de ambiente escolar estressante, por conta de colegas ou professores. A falta de empatia com professores, eventuais situações vexatórias diante dos colegas ou bulling podem resultar em severo desinteresse (Veja Dificuldades de aprendizagem).
O sintoma de desinteresse proporcionado pela depressão é de origem emocional, é a perda do prazer ou gosto em fazer as coisas e acaba resultando em abandono de atividades antes prazerosas. A criança com tal desinteresse torna-se mais retraída, apática e isolada. O sintoma de desânimo, por sua vez, é físico, e surge como uma perda da energia global, geralmente confundida com preguiça e responsável por muitos exames de sangue em busca de uma anemia que não se confirma.
Na depressão infantil podem existir explosões emocionais desproporcionais aos estímulos, bem como rebeldia, birra, implicância, atitudes de oposição. Entretanto, é muito importante determinar se esses sintomas estão, de fato, relacionados com um quadro depressivo ou se são parte das ebulições emocionais normais do desenvolvimento infantil.
Para se estabelecer o diagnóstico de Depressão na criança é necessário avaliar sua situação familiar, existencial, o nível de maturidade emocional e, principalmente, a autoestima. Além das entrevistas com a criança, é importante observar sua conduta segundo informações dos pais, professores e outros colegas médicos ou psicólogos, atribuindo pesos adequados a cada uma dessas informações.
Disforia e DepressãoUma variação afetiva menos grave que a depressão, mas que também pode necessitar cuidados especiais, é a chamada Disforia. A Disforia é uma oscilação do humor comum e cotidiana sem conotação de doença depressiva franca. Trata-se de respostas afetivas bastante expressivas aos eventos diários e, embora sejam emocionalmente exuberantes, tais reações são breves e não comprometem significativamente a adaptação social, escolar e familiar. Se a preferência é chamar as crianças disfóricas de crianças sensíveis ou exageradamente sentimentais pode e não se vê diferença conceitual entre a Disforia das crianças com a Distimia dos adultos.
Fonte: Ballone GJ, Depressão Infantil, in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, 2010.

Distimia ou Transtorno Distímico


Distimia ou Transtorno Distímico é uma forma crônica de depressão, cuja gravidade costuma ser menor do que a Depressão Maior. Em benefício de melhor entendimento, felizmente parece haver um consenso de que o chamado Transtorno Depressivo Maior, a Distimia e algumas Disforias (rebaixamentos do estado de humor) transitórias seriam manifestações de um mesmo processo patológico, o qual resulta em sintomas depressivos. Tal variedade de estados de humor deprimido compartilha os mesmos sintomas, responde aos mesmos medicamentos antidepressivos e podem ser abordados por técnicas psicoterapêuticas similares.
 Geralmente o paciente com Distimia costuma ter o humor algo depressivo a maior parte do tempo, mas não expressivamente depressivo como acontece na Depressão Maior. Pode apresentar inquietação, ansiedade e sintomas neurovegetativos, como por exemplo, queixas digestivas, cardiocirculatórias, musculares, dor de cabeça. É muito marcante nos distímicos a tendência em dedicar pouco tempo para atividades de lazer, valorizando em excesso atividades produtivas. Outros sintomas que chama a atenção é a tendência à irritabilidade, ironias, crises de raiva e excesso de críticas.
É certo entender a Distimia como uma síndrome depressiva de grau leve ou moderado, cujos sintomas são persistentes e cuja prevalência é maior do que a Depressão Maior.
Os critérios oficiais para diagnóstico de distimia foram estabelecidos pela primeira vez na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico da Associação Psiquiátrica Americana (DSM.III), em 1980.
Depois da classificação do DSM.III a Distimia tornou-se um termo popular para definir o rebaixamento do humor, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países cientificamente alinhados, como o Brasil. Na Europa, entretanto, o termo Distimia em si enfrenta resistência, principalmente na Inglaterra, onde tal conceito está diluído dentro do diagnóstico de Depressão Menor e Depressão  Ansiosa, as quais representam um grupo de transtornos comumente encontrados na prática médica geral.
Os estudos epidemiológicos mais recentes mostram que existe uma comorbidade elevada na Distimia, de forma que mais de 2/3 dos pacientes apresentam também Depressão Maior, Abuso de Substância ou algum Transtorno de Ansiedade junto com a Distimia.
Resumindo, Distimia é um transtorno depressivo do humor, tem natureza crônica, se inicia insidiosamente desde a infância ou adolescência e não tem sintomas graves o suficiente para ser diagnosticada como Depressão Maior, ou seja, o transtorno é considerado como uma depressão de baixa intensidade, flutuante e duradoura.
Alguns pacientes distímicos, de fato, não se queixam propriamente de tristeza, entretanto, queixam muito apropriadamente de falta de alegria de viver: “- doutor, eu não estou com tristeza, mas também não sinto alegria ou prazer com nada”. Além disso, os próprios distímicos manifestam grande preocupação com sua inadequação. Quer dizer, eles mesmos sabem que são “chatos” e lamentam por isso.
Muitas pessoas com Distimia relatam que estiveram deprimidas durante toda a sua vida e acabam tendo uma concepção existencial deturpada pelo mau humor crônico. Geralmente elas se auto-definem como tristes ou "na fossa", mas geralmente são definidas pelas outras como mal humoradas, amargas, irônicas e implicantes. Embora a Distimia seja considerada menos grave que a Depressão Maior, suas conseqüências podem ser graves e incluem prejuízo grave do desempenho familiar, social e profissional, aumento de sintomas físicos e doenças psicossomáticas e aumento do risco de desenvolver Depressão Maior.
Em geral esses pacientes costumam ser tensos, rígidos e resistentes às sugestões de terapia. Como freqüentemente eles podem ser sarcásticos, rabugentos, exigentes e queixosos, não é raro que o médico de outras especialidades sinta-se irritado com eles. Apesar disso, o funcionamento social das pessoas com Distimia é relativamente estável e muitas delas investem sua energia fortemente no trabalho, desprezando quase totalmente o prazer, as atividades familiares e sociais. (Akiskal, 1999)
A prevalência da Distimia na população geral é assustadora. Alguns autores cogitam ser aproximadamente de 3 a 6% da população geral os portadores de Distimia (Seretti, 1999 – Akiskal, 1994 – Avrichir, 2002), sendo um dos quadros clínicos mais comumente encontrados na prática médica. Em relação à distribuição da Distimia entre homens e mulheres, o transtorno é relativamente mais freqüente em mulheres, embora não tanto como acontece na Depressão Maior, onde a proporção é de 2:1.
A despeito da imensa população de distímicos, esses pacientes não procuram ou relutam muito em procurar tratamento específico para a questão emocional, apesar de se manterem sempre muito queixosos e insatisfeitos com a vida. Trata-se de uma alteração afetiva bastante incômoda, não só do ponto de vista emocional, fazendo sofrer o paciente e, comumente, quem com ele convive, como também do ponto de vista orgânico, se manifestando por inúmeros sintomas físicos, os quais acabam fazendo com que os pacientes procurem os médicos com queixas vagas e mal definidas, tais como mal-estar, letargia e fadiga.
Por outro lado, se os distímicos relutam em procurar ajuda psiquiátrica, a maioria deles procura médicos de outras especialidades e geralmente eles não serão diagnosticados corretamente (Akiskal, 2001). Por causa disso, inúmeros exames de laboratórios são inutilmente solicitados, inúmeras consultas a especialistas são marcadas, muitos medicamentos são inutilmente consumidos.
Provaveis causasOs mecanismos neuropsiquiátricos envolvidos na Distimia ainda não foram claramente esclarecidos, entretanto, já se pode falar em alterações nos sistemas neuroendócrinos, principalmente no eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e hipotálamo-hipófise- tireoidiano, tal como acontece nas doenças depressivas em geral.
De fato, os dados do eletroencefalograma (EEG) durante o sono e as anormalidades nos testes dos neuro-hormônios TRH-TSH das pessoas distímicas mostram os mesmos padrões neurofisiológicos encontrados no Transtorno Depressivo Maior, reforçando assim a natureza constitucional do transtorno (Akiskal, 1994).
O envolvimento dos sistemas de alguns neurotransmissores e neuroreceptores, tal como também acontece nas doenças depressivas em geral, pela resposta positiva aos medicamentos que aumentam a disponibilidade de serotonina, noradrenalina e dopamina.
A causa da Distimia, como tantos outros quadros afetivos, é multifatorial. Entre esses múltiplos fatores destacam-se a hereditariedade, predisposição biológica, traços de temperamento, estressores vivenciais, entre outros. Eventos de vida estressantes na infância podem ter um papel importante no perfil afetivo distímico do adulto, segundo alguns pesquisadores (Hayden, 2001 - Lizardi, 2000).
A grande taxa de comorbidade com outras doenças psiquiátricas (cerca de 77% dos distímicos terão comorbidades psiquiátricas)25 torna ainda mais importante o diagnóstico da distimia para o manejo adequado das psicopatologias comórbidas.
Tratamento clínicoA psicoterapia é um importante componente do tratamento. Em geral a terapia cognitiva comportamental tem demonstrado ser eficaz no tratamento de distimia. A terapia cognitiva comportamental deve ser planejada para ser realizado por um tempo limitado, cujos objetivos principais é fazer o paciente reconhecer as circunstâncias que levam à depressão e estruturar a uma resposta emocional adequada.
   
Sobre o uso de medicamentos, existe evidência científica comparando o uso de antidepressivo e o uso placebo para o tratamento medicamentoso da Distimia. Estudos mostram que 50 a 60% dos pacientes com distimia respondem ao tratamento com antidepressivos (Williams , 2000). Atualmente o tratamento considerado mais eficaz é aquele que associa o uso de medicamentos com psicoterapia, principalmente a terapia da linha cognitiva comportamental.
De fato, os antidepressivos são eficazes no tratamento em curto prazo da distimia (Lima, 1999). Entre os antidepressivos indicados para o tratamento da Distimia sugerem-se os serotoninérgicos, não só pela eficácia terapêutica, como pela maior tolerabilidade. As doses geralmente são as habituais, sem nenhuma evidência de que doses maiores sejam necessárias.
Apesar dos resultados dos antidepressivos serem satisfatórios em curto prazo, isto é, em no máximo 12 semanas, deve-se considerar a natureza crônica da Distimia. Isso quer dizer que há possibilidades do mesmo perfil distímico voltar depois de algum tempo da interrupção da medicação. Isso é um dos motivos pelos quais a psicoterapia tem fundamental importância. Espera-se que depois de 12 meses de tratamento medicamentoso juntamente com psicoterapia, o paciente tenha adquirido uma nova atitude emocional não patogênica.
Ballone, GJ - Distimia, in. PsiqWeb, Psiquiatria Geral, disponível na Internet em http://www.psiqweb.med.br/, 2011.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Somos todos Borderlines?

Frequentemente, na etapa inicial (ex.: começo da adolescência, por volta dos 12 anos de idade) da eclosão dos sintomas do transtorno de personalidade limítrofe, sintomas como má adaptação social, baixo rendimento escolar e comportamentos anormais são comuns. Há também déficit na regulação dos afetos, agressividade, conflitos no ambiente familiar, tentativas de suicídio e depressão grave. A etapa secundária, no fim da adolescência ou início da idade adulta (na faixa dos 18 aos 21 anos), todos os sintomas propriamente ditos ficam evidentes, tendo seu auge por volta dos 25 anos de idade, causando grande prejuízo. O distúrbio também fica muito mais evidente quando o doente encontra-se apaixonado ou num relacionamento sentimental, uma vez que o transtorno de personalidade borderline pode se classificado como um grande vilão das relações íntimas. Contudo, é sábio que o transtorno tende a ser atenuado conforme a idade, sobretudo próximo dos 40 anos de idade. Talvez pelo fato de que ao passar do tempo, as pessoas ficam menos enérgicas e mais “maduras emocionalmente” que aos 20 anos de idade. Assim como todos os transtornos de personalidade, quase nunca borderlines acreditam sofrer de uma patologia ou que sua conduta e comportamentos são muito problemáticos. Eles tendem a culpar os outros, como causadores de discórdias e outras atitudes típicas de fronteiriços, em geral com argumentos implausíveis, e acreditam que "são normais": o que causam-lhes sofrimento são as outras pessoas.
As estatísticas apontam que 93% das pessoas portadoras do transtorno de personalidade borderline também apresentam um transtorno afetivo concomitante, especialmente depressão nervosa e transtorno afetivo bipolar. Além disso, estima-se também que 88% apresentam um transtorno de ansiedade, especialmente o transtorno do estresse pós traumático e diversas fobias em geral. A conduta suicida no borderline pode ser maior naqueles com história prévia de tentativas de suicídio, história de abuso sexual e comorbidade com abuso de substâncias e/ou depressão nervosa. Comportamentos histriônicos e psicopáticos são fenômenos fortemente presentes em borderlines. Muitas vezes, o borderline é confundido com o psicopata e histriônico por apresentar comportamentos semelhantes e, não raramente, ocorrem simultaneamente. No padrão geral de patologia grave, as famílias de pacientes borderline têm como características mães intrusivas e dominadoras e pais distantes, sendo que as relações conjugais são predominantemente conflitivas.
Em suma, o transtorno de personalidade borderline é tido como um dos transtornos mentais mais devastadores, sobretudo na área de relacionamentos interpessoais, sendo também dos mais difíceis de ser tratado.
  • Borderlines têm raciocínio 8 ou 80, branco ou preto, amor ou ódio, ótimo ou péssimo, perfeito ou terrível mas nunca o cinza ou meio termo.
  • Eles vêem as pessoas drasticamente como perfeitas ou terríveis. Para eles, não existe o "mais ou menos", ou a pessoa é perfeita ou a pessoa é terrível. Se não é perfeita é terrível e vice-versa;
  • Se a pessoa é perfeita, ótima ou boa ela merece ser tratada muito bem, como um deus. Quando a pessoa é horrível, péssima ou má, ela merece ser tratada muito mal, como um demônio;
  • Eles têm esse pensamento também consigo mesmos: se hoje eles se vêem como perfeitos, eles acham que merecem serem tratados como os melhores, como os principais e terem toda a atenção do mundo, caso contrário, eles se tornam terríveis, merecedores de maus tratos, punições e auto mutilações;
  • Pensamentos "tudo-ou-nada" aparecem em muitas outras áreas da vida do borderline. Quando há um problema, algumas pessoas com desordem borderline podem sentir como se existisse apenas uma solução. Uma vez que a ação é feita, não há retorno. Por exemplo "faça tudo, ou não faça nada". Uma mulher no trabalho, recebeu novas ordens na qual ela não gostou, sua solução foi deixar seu emprego;
  • Têm dificuldade em terminar o que começam. Isso vai desde uma simples leitura de um livro, até a desistência ou interrupção de um projeto importante.
  • Podem ser tidos erroneamente como "preguiçosos" por causa desse pensamento;
  • Não conseguem ver o "lado bom" e o "lado ruim" de cada pessoa, objeto ou circunstância: acreditam que o objeto é totalmente bom, ou totalmente ruim, alternando drasticamente entre o primeiro e o segundo, várias vezes;
  • Têm dificuldade em verem defeitos ou más qualidades em pessoas que consideram totalmente boas ou ótimas. E têm dificuldade em enxergar qualidades boas em pessoas que consideram totalmente más ou péssimas, demonstrando uma grande resistência em entender o "meio-termo" das coisas e situações.
  • Sua opinião sobre alguém é baseada frequentemente em sua última interação com ele, porque têm dificuldade em integrar os traços bons e ruins de uma só pessoa;
  • Em cada momento particular, alguém é "bom" ou é "mau", não há nada no meio, nenhuma área cinzenta;
  • Eles também podem sentir que seus relacionamentos devem ser claramente definidos: ou é amigo ou é inimigo. Ou é seu amante apaixonado ou um companheiro platônico. Esta é a razão porque as pessoas borderlines podem ter dificuldade em ser amigos após o fim de um romance.

Manipulações

  • Manipulam as pessoas através de chantagens emocionais pouco evidentes como brigas, discussões e conflitos que na verdade são a forma de que encontram para testarem as pessoas das quais necessitam;
  • Demonstram seus medos através de irritabilidade, mau humor, raiva e agressividade;
  • Tentam se proteger através da raiva;
  • Críticas e acusações são típicos mecanismos de defesas usados por borderlines; na verdade eles estão a criticar-se mas o fazem com os outros por não terem coragem de verem o seu verdadeiro "eu".
  • Às vezes, as críticas e acusações se tornam abuso verbal;
  • Agem de maneira extrema, exagerada ou manipuladora para conseguir o que quer;
  • Acusam os outros de terem dito coisas que nunca disseram, de terem feito coisas que nunca fizeram, de terem acreditado em coisas que nunca acreditaram;
  • Conseguem reconhecer o ponto fraco das pessoas as quais conhecem muito bem, utilizando de tal conhecimento para manipulações e terem êxito nas suas necessidades;
  • Chantagistas para conseguir o que quer;
  • Eles vivem a testar o amor e afeição das outras pessoas, pois muitas vezes não conseguem acreditar que as pessoas possam amá-los de verdade.

Instabilidade excessiva

  • Borderlines têm uma grande instabilidade emocional evidente: pessoas instáveis sentem tudo de forma intensa, ferindo-se facilmente e deixam-se abalar por situações externas e internas por motivos pouco importantes ou até mesmo fúteis. Eles não conseguem manter o mesmo humor e emoções durante um longo período (no caso do borderline, ele não consegue manter um humor estável num mesmo dia, alternando muitas vezes). Uma característica típica de pessoas instáveis emocionalmente são as constantes brigas no ambiente intrafamiliar, por exemplo, por isso são tidos como agressivos, briguentos ou que reclamam demais.
  • Mudam de comportamento de forma muito rápida, em questão de segundos: com pessoas que conhecem muito bem (tal como familiares ou cônjuges), tratam-nas mal com frequentes discussões e provocações, mudando rapidamente para gentis e adoráveis com as outras pessoas na qual têm pouco intimidade;
  • Muitas vezes, as outras pessoas não acreditam nos familiares que relatam esse comportamento;
  • Agem de forma controlada e apropriada em várias situações, mas extremamente fora do controle em outras;
  • Facilmente desvalorizam alguém. Podem amar a pessoa em um minuto, mas por qualquer deslize, contrariedade ou um simples "não" vindo da outra pessoa, passam a odiá-la em questão de segundos a ponto de maltratá-la e não sentir remorso disso, uma vez que de repente, o outro transformou-se drasticamente em uma pessoa "terrível" que merece ser tratada assim como ela é vista. Tais desvalorizações rápidas são precedidas por motivos pouco perceptíveis para a outra pessoa que termina sem entender o motivo por qual foi cruelmente maltratada.
  • Ao mesmo tempo que querem a intimidade, eles não querem. Eles têm medo de muita intimidade, por isso alguns relacionamentos podem ser superficiais.
  • Às vezes eles querem estar perto do outro, outras vezes quer estar longe;
  • Empurra o outro para longe justamente quando o outro está se sentindo próximo;
  • Limítrofes tendem a ser aquele tipo que quando querem alguma coisa, ficam ansiando e sentindo uma grande vontade de ter aquilo, contudo, se conseguem, enjoam, não querem mais ou passam a odiá-lo facilmente;
  • Eles têm dificuldade em dizer exatamente o que gostam, o que querem, de modo que há uma notável tendência à instabilidade em seus gostos, comportamentos, identidade e auto-imagem;
  • Eles frequentemente não sabem quem são, não sabem o que gostam, mudam de gosto drasticamente de um segundo a outro, não sabem o que querem ou então mudam de opiniões e objetivos a todo momento;
  • Sua orientação sexual também pode ser instável: uma boa parte dos borderlines têm dificuldade ou instabilidade em relação à sua própria orientação sexual, sendo que também não sabem o que são, mudando rapidamente de uma identidade sexual para outra. Por exemplo, eles podem não ter certeza se são realmente heterossexuais ou homossexuais, ou então podem ser bissexuais (isto não é regra);
  • Borderlines são cheios de imagens contraditórias de si mesmos. Eles relatam geralmente que sentem o vazio interior, que são pessoas diferentes dependendo de com quem estão;
  • Esses indivíduos possuem tanta dificuldade em saber "quem são" que, em casos mais graves, perdem totalmente a noção da sua própria identidade, procuram um modo de "achar-se" em algum outro tipo de identidade, possuem sentimentos de que irão desaparecer ou fundir-se e de que não são reais ou são inexistentes;
  • Mudam de desejos, opiniões e humor num piscar de olhos;
  • "Mantenha a distância um pouco próximo": o borderline pode começar a se sentir subjugado ou com medo de estar perdendo o controle quando uma pessoa se aproxima demais dele. Ao tempo que ele quer a intimidade, ele não sabe como estabelecer limites de maneira saudável, e a intimidade genuína pode fazê-lo sentir-se vulnerável ou abusado. Ele talvez esteja com medo de que o outro possa ver o seu "verdadeiro" eu, fique enojado e o abandone. Então, ele começará a se distanciar para evitar se sentir vulnerável ou controlado. Ele pode arranjar uma briga com o outro, "esquecer" alguma coisa importante ou fazer algo dramático ou explosivo. Mas então a distância o faz se sentir solitário. Os sentimentos de vazio pioram e o seu medo de abandono se torna forte. Então ele faz esforços frenéticos para se aproximar novamente e o ciclo de repete.
  • O indivíduo limítrofe muda de comportamento drasticamente, sem motivo evidente, tal como passam de um comportamento delicado e gentil para frio, seco ou distante.

Narcisimo e histrionismo

  • Podem parecer egoístas ou egocêntricos;
  • Suas emoções e sentimentos são tão intensos que eles têm dificuldade em colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar, acontecendo o contrário: suas necessidades são colocadas antes das dos outros, pouco importando se a pessoa em relação é seu filho, pai, mãe etc.;
  • Eles se sentem ignorados quando não são o foco da atenção;
  • Visto sob esta ótica narcisista, o borderline é um balão inflado a ar - por fora, uma imagem adulta poderosa; por dentro, uma criança frágil, impotente e triste.
  • Fazem ou dizem algo impróprio para receber atenção e cuidado quando se sentem ignorados. Por quererem atenção, tais traços histriônicos podem estar presentes, tais como: às vezes o borderline pode se vestir sexualmente provocante para receber cuidado e atenção, podem inventar histórias ou exagerá-las, exagerar sintomas ou doenças, entre outros comportamentos a fim de reafirmar sua presença;
  • Alguns borderlines podem jogar o papel de vítima para si mesmos, porque isso atrai atenção solidária, fornece uma identidade e lhes dá uma ilusão de que não são responsáveis por suas próprias ações;
  • Há uma evidente exigência narcisista no borderline: alguns borderlines frequentemente trazem o foco da atenção para si mesmos. Algumas pessoas com personalidade borderline puxam a atenção para si mesmos por ficar se queixando de doenças; outras talvez ajam inapropriadamente em público. Esse comportamento narcisista pode ser sobrecarregante especialmente para as outras pessoas que não possuem o transtorno de personalidade borderline, visto que o limítrofe nem mesmo considera como suas ações afetarão a outra pessoa.
  • Negam os efeitos de seu comportamento em outros, frequentemente diz que os outros exageram;
  • Cheia de auto-ódio, a pessoa borderline talvez acuse os outros de odiá-la ou de nunca amá-la. Com medo de ser abandonada, ela pode se tornar tão crítica e facilmente enfurecida, que por fim desejam realmente abandoná-la. Então, incapaz de enfrentar a causa de sua dor, o borderline pode culpar os outros e se colocar no papel de vítima;
  • Às vezes, podem ser exageradamente dramáticos, fazendo "tempestade em copo d'água";
  • Podem ser tidos como incapazes de demonstrar gratidão.

Irritabilidade e comportamento briguento

  • Irritam-se muito facilmente, sendo que muitas vezes por motivos inexistentes ou incomprensíveis aos olhos dos outros. Às vezes os familiares não sabem o motivo que levaram o borderline a adotar um comportamento agressivo para com eles, por exemplo.
  • Generalizando, o borderline é facilmente conhecido por pessoas íntimas como uma pessoa: geniosa, "de lua", que fica brava facilmente, indecisa, imprevisível, egocêntrica, controladora, perspicaz, exagerada, rude, áspera, indelicada e emocionalmente desequilibrada. No entanto, demonstra paralelamente grande carência afetiva e fragilidade emocional.
  • São indivíduos que têm dificuldade em demonstrar o amor, carinho e generosidade de forma genuína, embora o sintam de forma sincera
  • Eles podem criar crises ou brigas desnecessárias, demonstrando um estilo de vida caótico e desorganizado;
  • Geralmente, o que parece ser raiva, impulsividade, agressividade e comportamento manipulativo é na realidade uma tentativa mal-orientada de extrair envolvimento e afeição;
  • O borderline vive constantemente num caos. Ele pode deliberadamente levantar argumentos e isso em constante conflito com outros. Ele também pode ser fanático por drama, desde que isso crie agitação;
  • Como não toleram frustração e não controlam a impulsividade, podem acabar se envolvendo na criminalidade antes de receber qualquer ajuda médica ou psicoterápica: tal é o grau de desordem de suas vidas, que os pacientes borderline geralmente viram caso de polícia antes de virarem caso de psiquiatria;
  • Tentam diminuir o vazio, a dor interna e a tensão interior através da raiva e brigas.

Sequelas de abuso na infância

  • Alguns especialistas acreditam que o transtorno de personalidade limítrofe seja uma síndrome consequente de graves sequelas na personalidade, decorrente de diversas formas de abuso na infância;
  • Uma boa parte das pessoas com o transtorno tiveram uma infância traumática (porém, isto não é regra geral);
  • Borderlines têm dificuldade em confiar nas pessoas (especialmente se houve abuso), sobretudo nos indivíduos do mesmo sexo do abusador;
  • Borderlines com histórico de abuso, podem repetir o roteiro do passado. Eles tendem a se sentir eternamente vitimados porque estão condicionados a esperar o comportamento cruel das pessoas em que confiam. Quando crianças, podem ter se sentido responsáveis pela circunstância traumática. Podem ter acreditado que algo neles levou as pessoas agirem daquela forma cruel. Então, quando adultos, essas crianças anteriormente abusadas esperam o pior das pessoas, existindo sempre um grande pessimismo. Interpretam o comportamento normal como cruel ou negligente e reagem com a raiva, desespero ou humilhação intensa. As pessoas em torno deles ficam confusas porque não podem ver o que realmente provoca o seu comportamento;

Desconfiança e idéias paranóides

  • Borderlines têm dificuldade em confiar nas pessoas;
  • Têm frequentemente idéias paranóides, estas são maiores em períodos de estresse ou sensação de abandono e solidão;
  • Borderlines caminham numa linha tênue entre sanidade e a loucura, às vezes se desequilibram e acabam por caminhar francamente na loucura, com alucinações e idéias delirantes, especialmente em situações estressantes, embora não possam ser diagnosticados como totalmente psicóticos ou esquizofrênicos.
  • Manias de perseguição e pensamentos paranóides são comuns;
  • Facilmente interpretam as ações de outras pessoas erroneamente como hostis, ameaçadoras, irritantes ou zombadoras, o que causa um gatilho para explosões de irritabilidade e brigas constantes, porque tendem a reagir da mesma forma pela qual acreditaram ter sido tratados.

Despersonalização

  • Borderlines podem sentir que não são reais, são inexistentes, especialmente quando estão sozinhos;
  • Em momentos de grande estresse ou quando percebem o abandono real ou imaginado, podem dissociar-se, existindo assim a despersonalização. Eles relatam tal fenômeno sendo frequente, mas que aumentam de intensidade nos momentos em que estão a sós ou sentem-se abandonados, ignorados ou rejeitados;
  • A despersonalização pode ser referida por uma sensação de irrealidade, de que nada mais é real em sua volta, nem eles mesmos. Podem acreditar estar num sonho ou pesadelo, cuja sensação de irrealidade é fortemente angustiante. Ainda podem relatar que estão num filme e vêem tudo como se estivessem fora do corpo, como se tivessem se desprendido da sua própria personalidade ou do seu corpo. Tais sensações são tão fortes que podem se sentir deprimidos e angustiados, sendo às vezes um gatilho para a auto mutilação (podem se mutilar para sentir que são reais);
  • Quando estão tendo uma crise de despersonalização, as outras pessoas podem perceber um comportamento levemente anormal, como por exemplo, uma falta de atenção, como se a pessoa estivesse longe, distante ou "viajando";
  • Alguns borderlines podem conviver dias, semanas e até meses com despersonalização, sendo pegos a todo instante pela sensação angustiante de irrealidade e de desprendimento do corpo.
  • Algumas pessoas relatam que olhar-se no espelho bem como se lembrar da despersonalização piora o quadro, pois sentem-se irreais ou inexistentes;
  • Borderlines podem ter problemas com a memória e atenção, especialmente em momentos de dissociações tais como a despersonalização. Eles podem ter "brancos" e apagões, esquecimentos sobretudo após essas situações.
  • Geralmente a despersonalização é precedida geralmente por dois motivos: ou o sentimento de rejeição por uma pessoa amada ou por indagações e dúvidas a respeito de quem ele é, do que ele gosta. Como o borderline não consegue ter uma identidade concreta e definida, ele não consegue se auto definir, não tem certeza de quem ele é e possui um grande sentimento de ter se perdido de si próprio ou de que sua identidade é falsa ou copiada. Por isso a instabilidade em suas vidas. Sua identidade é, a todo momento, construída e destruída, gerando uma inconstância insuportável.

Sentimentos e emoções

  • Possuem intensos sentimentos crônicos de vazio e tédio. Nada os preenche, nada os satisfaz, tudo vira enjoativo, monótono e tedioso rapidamente;
  • Eles se sentem a maior parte do tempo irritáveis, ansiosos ou desconfiados;
  • Eles se sentem ignorados por motivos insignificantes para outras pessoas;
  • Raramente dizem com palavras que têm medo de serem rejeitados. Sempre demonstram isso através de manipulações, chantagens, discussões e agressões, mas jamais admitem;
  • Acreditam que "quem ama não abandona", se "não ama, então, odeia" (pensamento extremista);
  • Recordam de situações de modo muito diferente de outras pessoas ou então se acham incapazes de se lembrar de tudo;
  • Se veem como pessoas más (ou fora dos padrões);
  • Por terem esse tipo de sentimento, eles demonstram baixa responsabilidade por si só;
  • Eles se sentem muito merecedores de atenção, entretanto, sentem-se como se nunca conseguissem, como se nunca fossem receber amor, atenção e afeto. Um simples "não" de uma pessoa significante para o borderline, é visto como prova de rejeição, motivo para mudar radicalmente de humor;
  • Sentem-se irreais, inexistentes ou fora de si, como se não tivessem uma personalidade;
  • Eles não têm uma identidade bem formada. Tal identidade é destruída e remontada a toda hora, por isso a instabilidade e incertezas são constantes na vida de um borderline.
  • Tentam preencher o vazio interno através de comportamentos exagerados;
  • Borderlines olham para outros para conseguir coisas que se acham difíceis de suprir a si mesmos tais como segurança, otimismo e identidade;
  • O medo de abandono ou rejeição nessas pessoas é tão grande que a perda potencial de um relacionamento ou uma grande rejeição sentimental é como a perda de um braço ou perna, ou mesmo a morte. Ao mesmo tempo, sua auto-estima é tão baixa que não entendem por que alguém poderia querer viver com eles. Por isso são hipervigilantes: estão o tempo todo tentando achar uma forma de comprovar que a outra pessoa não o ama de verdade. Quando suas suspeitas são supostamente confirmadas, podem estourar em raiva, fazer acusações, chantagens, provocações, agredir, procurar vingança, mutilar-se, ter um caso, mentir e entre outras inúmeras situações extremas;
  • São intolerantes às ambiguidades humanas;
  • Às vezes eles se acostumam a aproximar-se das pessoas de modo amigável e adorável, a fim de que cuidem-no. Mas depois percebem que nenhuma dessas pessoas são capazes disso, porque embora se sintam como uma criança por dentro, eles se parecem como adultos por fora.
  • Borderlines têm uma visão infantil do mundo: ambivalência, problemas constantes de objetivo, problemas de abandono/subjugamento, impaciência, problemas de identidade, exigências narcisistas, aparente falta de empatia e manipulação são todos pensamentos borderlines que imitam estágios de desenvolvimento nas crianças.
  • Quando uma criança de dois anos quer alguma coisa, ela quer isso agora, não amanhã. Quando o borderline está fazendo compras, por exemplo, ele é assim. Ele não consegue dizer não a si mesmo, então ele compra, mesmo que esteja com dívidas. Para uma criança, a coisa mais importante é a segurança. Para borderlines, também. O interior permanece escondido. Mas por baixo de toda a delicadeza e gentileza aparente, se esconde uma criança furiosa e aterrorizada, que é vista apenas por pessoas muito íntimas.
  • Alguns tendem ao Infantilismo

Pensamentos borderline

  • "Eu tenho que ser amada por todas as pessoas importantes na minha vida o tempo todo senão isso significa que eu sou desprezivel";
  • "Algumas pessoas são ótimas e tudo sobre elas é perfeito. Outras pessoas são inteiramente péssimas e devem ser severamente censuradas e punidas por isso";
  • "Odeio quando as pessoas não dão atenção para mim;
  • "Eu não tenho controle sobre meus sentimentos ou as coisas que faço em consequência deles;
  • "Ninguém se importa comigo tanto o quanto deveria, então eu sempre perco todos com quem me importo - apesar das coisas desesperadas que eu tento fazer para impedi-los de me abandonar";
  • "Quando eu estou sozinha, eu me torno ninguém e nada";
  • "Eu não consigo parar a frustração que eu sinto quando necessito algo de alguém e não sou capaz de receber isso."
  • "O que será que eu fiz para ele(a) me olhar com desdém?"
 Quando os sintomas ficam expostos?
O distúrbio é totalmente evidente, geralmente, no final da adolescência (18 anos) ou, no máximo, no início da idade adulta (21 anos). Os sintomas também ficam fortemente vistos quando apaixonam-se e começam um relacionamento amoroso.

O transtorno é um "defeito" da pessoa ou realmente uma doença?

Defeitos todas as pessoas têm. Diferente do borderline que acredita que as pessoas devem ser totalmente perfeitas, sem defeitos, ou totalmente desastrosas, sem virtudes — todas as pessoas têm seu lado ruim e lado bom, seus defeitos e suas qualidades. O distúrbio não tem nada a ver com a "natureza" da pessoa, não é "um de seus defeitos", é realmente uma verdadeira doença, mesmo uma grave desordem, crônica e sofrida. Centenas de estudos e publicações pelo mundo todo comprovam isto. O que o faz um distúrbio grave é não só sua forte taxa de suicídio mas também um grande sofrimento psíquico, exteriorizado ou não. Entretanto, tanto o paciente quanto os que estão em sua volta, estão "acostumados" com esses comportamentos "bizarros", porque geralmente estão presentes desde a pré-adolescência em diante, o que os fazem acreditar que simplesmente é "o jeito" da pessoa.

É preciso ter todos os sintomas para ser borderline?

Obviamente, não. Assim como qualquer outra pessoa, é preciso lembrar que o borderline é, acima de tudo, um ser humano e, portanto, cada um é diferente do outro. Mas são pessoas que sofrem e fazem sofrer. Também é importante lembrar que eles não "são" borderlines e sim pessoas que sofrem de um distúrbio de personalidade borderline. Nem todos as pessoas com a desordem vão ter que, necessariamente, se automutilar, fazer tentativas de suicídio, nem ter acessos de cóleras, condutas inadequadas e comportamentos compulsivos para aliviar seu sofrimento interno. Alguns serão capazes de enganar o mundo completamente, o que muitas vezes "corrige" o ambiente, enquanto outros mais graves são menos capazes de esconder a sua dor. Em todos os casos, entretanto, as pessoas com o distúrbio sempre têm problemas para gerar suas emoções e, consequentemente, seus relacionamentos com os outros.

Somos todos borderlines?

Não. Algumas pessoas podem ter traços borderlines e se identificar com alguns sintomas, mas isto não quer dizer que ela possui o distúrbio. Entretanto, isto é uma questão de determinação e duração. Deve-se ter em mente, que o borderline não está se comportando desta maneira por acaso, e sim porque ele se comporta repetidamente e exageradamente assim. Por outro lado, não se torna borderline à idade adulta, uma vez que o distúrbio se remete a tempos muito mais distantes. Um trauma não pode "acordar" um distúrbio nesta idade. O borderline, infelizmente, não tem uma capacidade normal para sobreviver às frustrações do cotidiano. Ele não é assim porque é "mimado", "fresco" ou simplesmente porque quer. Ele tipicamente não sabe lidar com problemas comuns do dia-a-dia. Quando as pessoas confrontam-se com um problema, obviamente, sentem-se mal, entretanto, em seguida conseguem contornar a situação e erguer-se novamente. O borderline, não, sente-se ferido facilmente, reage de forma exagerada e anormal ao estresse e também demora muito mais tempo para conseguir voltar ao normal, sofrendo sempre muito mais e por mais tempo que as outras pessoas.
FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade_lim%C3%ADtrofe

Transtorno de Personalidade Borderline


A característica principal do Transtorno de Personalidade Borderline traduz-se num padrão de comportamento intenso mas extremamente confuso e desorganizado. Aqueles que sofrem do transtorno de personalidade borderline são indivíduos que afastam aqueles de quem mais precisam. Paradoxalmente, ao tempo que precisam do afeto e da companhia dessas pessoas, são capazes de afastá-las de forma cruel e, muitas vezes, assustadora. São muito exigentes de atenção e são excessivamente manipuladoras, embora nunca o admitam. Borderlines têm profundos traços de masoquismo e sadismo e, de forma geral, são como crianças em um corpo de adulto, não tolerando quaisquer limites. Muito imaturos emocionalmente, são impacientes, não sabem esperar, suas recompensas devem ser sempre imediatas, não toleram frustrações e tendem a colocar a culpa sempre em outros por suas próprias falhas. Isto provavelmente acontece porque borderlines geralmente foram crianças privadas de uma necessidade básica, possivelmente foram negligenciadas emocionalmente em alguma etapa de sua vida psíquica, o que, por sua vez, ocasionou marcas profundas e indeléveis em sua personalidade. Tais marcas podem advir por conta de inúmeros eventos de caráter traumático, como, por exemplo, a separação dos pais, abusos sexuais na infância, violência física e até a perda precoce de um ente querido. Partindo desse pressuposto, pode-se dizer que o desenvolvimento emocional do borderline estacionou drasticamente, antes de alcançar a fase do pleno amadurecimento psicológico. Em suma, são pessoas que crescem e envelhecem fisicamente, mas emocionalmente continuam sendo crianças egoístas e, infelizmente, muito problemáticas.
Indivíduos borderlines podem ser pessoas que cresceram com um grande sentimento de não ter recebido atenção suficiente. Eles geralmente agem como crianças revoltadas, e buscam caminhos para procurar essa falta de atenção em suas relações; porém, esses caminhos são essencialmente imaturos e anormais. Frequentemente, na amnese, é achada uma carência afetiva (exemplo: ausência do pai), maus tratos, abuso sexual ou negligência emocional.
Os diferentes traumas na infância geram um sentimento crônico de vazio e rejeição, incorporando-se na personalidade borderline que é vivenciada como uma dor dilacerante. O borderline é extremamente intolerante às rejeições e outras frustrações comuns no cotidiano de todos. A dor pela falta de amor é intensamente sentida em indivíduos borderlines, o que pode estimular o processo auto e hetero destrutivo. Por isso, muitas vezes o borderline torna-se um indivíduo aparentemente rebelde e com um instinto vingativo contra os maus tratos passados. Os borderlines são pessoas com memória muito exacerbada para eventos negativos: não são capazes de perdoar, remóem coisas do passado e vivem e revivem intensamente um sofrimento desproporcional aos fatos porque apresentam um juízo de valor muito rígido. Por isso tudo, são pessoas facilmente vingativas, rancorosas, que, em momentos de ira intensa, podem oscilar entre um comportamento explosivo ou friamente vingativo, passando bruscamente do papel de vítimas injustiçadas para o de verdadeiros vilões sanguinários e cruéis que não medem esforços para cometer ações maldosas em busca de vingança. Interiormente, eles acreditam estar corretos em suas atitudes e não entendem por que as outras pessoas os olham com espanto e indignação após tais comportamentos. No fundo, são muito imaturos emocionalmente e — embora não demonstrem — facilmente frágeis.
O borderline também é, essencialmente, insaciável. Em termos de busca de atenção, eles sempre querem mais do que realmente têm. Por mais que as pessoas lhe dêem atenção, eles estão a exigir muito mais do que recebem. Talvez porque quando crianças não tiveram sua necessidade de atenção e afeto suficientemente preenchida. Para o borderline, toda a atenção do mundo não é suficiente. Inclusive, eles tendem a ser "paranóicos", exigentes e desconfiados sempre de que os outros não lhe dão importância, mesmo que isso não seja a realidade. Eles, sem querer, distorcem-na, e acabam por tendenciar tudo para um lado "ruim" e enxergar somente o lado negativo ou das pessoas ou das situações com que se defrontam, acreditando, por exemplo, que as outras pessoas não lhe dão atenção, ou que de repente mudaram de comportamento e por isso são más, merecendo assim, punições e vinganças. Borderlines costumam ver e achar coisas inexistentes no comportamento de outras pessoas, o que causa sempre reações exageradas e tempestades emocionais. Uma "mudança" quase imperceptível no comportamento de uma pessoa aos olhos de outros, para o borderline é um enorme motivo para se desesperar e acreditar que a pessoa não gosta mais dele. Por isso, o borderline é excessivamente possessivo, acreditando que a pessoa pertence apenas a ele e a mais ninguém. Ninguém mais merece atenção a não ser ele. Caso contrário, ele perceberá qualquer simples atitude de distração ou enfado do próximo como rejeição, o que o fará dar início a uma série de comportamentos extremos que se traduzem em atitudes perigosas tanto para si quanto para os que estão ao seu redor, causando medo e espanto às outras pessoas.
Limítrofes são pessoas com instabilidade emocional, ou seja, aquelas que não conseguem manter equilíbrio emocional em situações de tensão ou estresse. Elas frequentemente mudam de humor, emoções e conduta conforme o contexto que lhe for apresentado. Via de regra, têm baixa capacidade de julgamento e usualmente têm reações grosseiras, acompanhadas muitas vezes de ansiedade. Podem ser pessoas rebeldes ou totalmente tímidas. Essas pessoas podem confundir carência emocional com paixão. Transferem para relacionamentos amorosos a sua instabilidade emocional. Muitas vezes tornam-se os causadores de brigas excessivas, têm extremo sentimento de posse e profunda carência afetiva. O borderline vê o outro como se ele tivesse nada menos que a obrigação de estar ali apenas para prover aquilo de que ele necessita. Além disso, ele tende a acreditar que o outro parceiro tem de estar todo o tempo com ele, e têm a obrigação de não deixá-lo sozinho. Quando o parceiro tem de ir viajar ou quando cancela um encontro, facilmente o borderline se enfurece ou entra em pânico, pois sente-se facilmente rejeitado. Essa tendência do limítrofe se sentir facilmente ferido ou agredido (pequenos estressores são capazes de deixá-lo odiável) faz com que ele frequentemente entre em brigas ou confusões no ambiente intrafamiliar. Borderlines não têm controle de si mesmos, por isso facilmente demonstram irritabilidade e raiva em variadas situações triviais, e outras reações desproporcionais que vão desde a amargura, maus tratos ao próximo e grosseria até xingamentos e violência consumada. Entretanto, é interessante notar que, embora eles demonstrem esse comportamento rebelde em várias situações, em outras, podem, pelo contrário, exibir total controle. Portanto, são pessoas totalmente imprevisíveis. Em geral, tais conflitos são frutos de explosões em situações contornáveis aos olhos do observador, mas que o borderline não consegue evitar.
Limítrofes são pessoas que passam seu tempo a tentar controlar mais ou menos emoções que elas não controlam realmente. São pessoas que, diga-se de passagem, têm duas vidas. Uma vida quando estão na sociedade e outra vida de comportamentos muito diferentes quando estão a sós. Sua capacidade de esconder o transtorno faz com que sejam vistos, superficialmente, como se não tivessem nada, entretanto suas vidas são sofríveis e um verdadeiro inferno. Pessoas com o transtorno oscilam sempre entre dois extremos: um comportamento adulto e um comportamento infantil; entre a crueldade e a bondade.
Esses indivíduos são árduos manipuladores. Alguns psiquiatras e psicólogos dizem que borderlines são "pacientes impossíveis", porque, frequentemente, são manipuladores, pessoas que buscam atenção, perturbam e irritam, além de não terem capacidade suficiente para controlar suas condutas. Agridem a eles mesmos e aos demais que tentam ajudá-los. Em suas relações iniciais (exemplo: terapia), por causa da grande desconfiança que eles mantêm, as palavras com frequência não são usadas para comunicar ou exprimir sentimentos. O que existe são as manipulações, os testes, os controles etc. Eles tendem a defender-se de sentimentos, emoções e lembranças e facilmente testam suas relações através de manipulações. Parece que o borderline está sempre urdindo testes e manipulações, a fim de testar as outras pessoas, como elas reagirão a tais testes, lançando mão de estratégias como agressividade, brigas, chantagens, como para ver se elas o abandonarão por tais razões. Esses testes, então, são a forma de os limítrofes analisarem as pessoas ao seu redor e terem a certeza de que não há jeito de aparecer alguma ameaça de abandono por parte delas.

 Vazio e intolerância às rejeições

O borderline, tipicamente, é intolerante às rejeições sentimentais. Isto quer dizer que qualquer movimento diferente da outra pessoa, percebido pelo borderline, significa que o outro não gosta mais dele, que não lhe quer mais, ou que irá abandoná-lo. Uma simples contrariedade partindo da pessoa por qual o borderline mantém um vínculo afetivo importante, é visto como um sinal de "não", frustração e abandono, mesmo que isto não seja verdade. Inclusive, o borderline costuma "ver coisas" onde, na realidade, não existem. Exemplo de ocasião típica: o borderline vê-se idealizado e apaixonado por uma pessoa. O limítrofe faz um convite para esta pessoa. A outra pessoa diz que, embora queira muito, não pode em tal data, pois inevitavelmente irá viajar. Isto basta para que o borderline entre em uma série de conflitos, mudando drasticamente de humor e comportamento. Para o borderline, isso significa que a outra pessoa não quer sair com ele; significa que o outro o rejeitou, que o odeia e, portanto, sente-se profundamente ferido e desprezado. Esse sentimento de rejeição é tão forte no indivíduo borderline que o faz ter uma crise emocional intensa por um motivo visto como "banal" e comum para os outros. Aos olhos do observador, essa situação é fácilmente contornável, uma vez que resolveria apenas marcar o encontro para outro dia; entretanto, para o borderline isto é visto de maneira totalmente distorcida, sente-se rejeitado encarando a situação como frustração intensa e sinal de que a outra pessoa definitivamente não gosta dele. Então, drasticamente ele muda: passa do amor para o ódio do outro, torna-se agressivo, raivoso, odiável, prometendo maus tratos e vingança. Por dentro corrói-se de decepção, dor e desespero, pois acredita (erroneamente) ter sido fortemente rejeitado. Isso, então, faz com que fique vulnerável a atos autoagressivos e manipulações. Para as outras pessoas, tudo isso é visto como tempestade em copo d'água, extremismo e exagero, entretanto, para o borderline a situação foi uma grande prova de frustração, uma rejeição que implica que a outra pessoa o odeia. Como é perceptível, o indivíduo com TPB tem muito medo de ser rejeitado por quem ama, mas a forma como demonstra esse medo é dissimulada: demonstra através da agressividade e raiva. Na realidade, eles não conseguem admitir esse medo e acabam por demonstrar toda a intolerância de abandono através do ódio, rebeldia, depressão, chantagens, manipulações e diversos comportamentos que trazem sérios riscos a si próprio e à outra pessoa.
Como o portador do distúrbio é excessivamente exagerado, extremista e não tem controle de suas emoções, essa intolerância totalmente desproporcional às rejeições e abandono muitas vezes fazem com que — antes do indivíduo passar por um psiquiatra — termine em casos de polícia. No entanto, obviamente, é importante notar que a maioria dos indivíduos que padecem do distúrbio não terminem em casos assim, porém, não se pode negar que uma parcela desses pacientes podem cometer, em situações extremas, algum tipo de crime relacionado às separações sentimentais. Quase sempre pessoas que cometem algum tipo de extremismo em relação a uma decepção amorosa (não conseguir admitir o término do casamento, por exemplo) podem possuir traços que sugerem um possível portador do transtorno de personalinade borderline. No entanto, deve-se ressaltar que a maioria dos borderlines não são capazes de cometer atitudes extremas hetero-agressivas e sim o oposto: nos bordelines com características mais leves do distúrbio, eles têm mais facilidade em se auto-agredir do que agredir a outros. Porém, nos casos em que a severidade do transtorno é alta e não há tratamento adequado, pode-se verificar uma probabilidade maior de um portador do distúrbio cometer — por puro descontrole emocional — algum tipo de situação hetero-agressiva, principalmente se houver também características psicopáticas no paciente.
O paciente borderline para viver em paz precisa encontrar um objeto protetor que nunca o deixe. Para isso, eles testam tais "objetos" (as pessoas) para poderem acreditar nisso. Tais testes são manipulações, maus tratos, discussões etc. como forma de que isso atesta que, mesmo através de tais caminhos, o borderline nunca será abandonado. Obviamente, isto traz à tona a grande questão da tolerância das pessoas "alvo" do borderline, afinal, dificilmente as pessoas em sua volta têm tamanha paciência para tais manipulações. O limítrofe parece estar sempre insatisfeito e precisando de mais e mais porque sente um vazio irreparável, um nada, um buraco, uma frustração contínua. Portanto, são pessoas que nunca estão satisfeitas. Exigem demais dos outros, mas nunca se satisfazem, inclusive, não retribuem, demonstrando uma grande ingratidão.
Para eles, é como se eles não existissem, sem uma estrutura externa. Facilmente sentem-se irreais ou inexistentes. Com seu amante, podem estar em plena euforia; porém, quando este demonstra qualquer contrariedade às expectativas do borderline, facilmente passam de um humor eufórico para raivoso com manipulações e esforços excessivos para evitarem ser rejeitados. Se "abandonados", do humor raivoso decaem para a depressão. Seus pensamentos e atos autodestrutivos aumentam de intensidade. Podem fazer tentativas suicidas, sentir que nada mais é real (despersonalização e desrealização), entre outros comportamentos extremos.
Borderlines sentem que estão sempre com um grande sentimento crônico de vazio. Tal sentimento constantemente os incomoda e tendem a achar sempre uma forma de preenchê-lo, mas descrevem que esse sentimento nunca desaparece. Borderlines sentem tudo com uma alta intensidade, sendo que para eles, tudo faz mal, tudo os agride e machuca. Não sabem se proteger, ou ao menos, acreditam não saber. Eles ainda têm sentimentos de ser uma eterna "vítima", incapaz de aceitar suas próprias responsabilidades. São pessoas que não têm uma noção clara de sua identidade. Na realidade, eles não têm uma identidade bem formada, assim, precisam do apoio de outra identidade, causando assim um grande medo à perda e rejeição de tal identidade cujo borderline o considere. A visão que eles têm de si mesmo se caracteriza por uma visão flutuante e pouco constante. Isso contribui para a grande instabilidade que circula em suas vidas. Quase sempre eles dizem não ter certeza de nada e não sabem o que são ou como é sua personalidade. Eles têm frequentes "crises de identidade", por vezes acreditando que sua personalidade é irreal, falsa ou copiada. Podem ser considerados indecisos e "de lua", pois são pessoas que dizem ou fazem uma coisa, mas em seguida mudam de idéia ou opinião drasticamente. Seus gostos são muito instáveis, podem gostar de uma coisa, para em seguida enjoar da mesma. Sua identidade, orientação sexual e a visão de si mesmos também assim são baseados. Eles se vêem como estranhos, sem amor e sem doçura. São indivíduos que são escravos das suas próprias emoções.
Em um relacionamento íntimo, o borderline exige atenção exclusiva e constante, alguém forte que amenize seu vazio. Quando isso acontece, ele se sente confortável e tranquilo, contudo, teme o abandono do ser amado e o inferniza constantemente com medo de que isso realmente se concretize. No momento em que o borderline se vê incompreendido ou ameaçado pelo objeto amado, ele pode ter respostas agressivas. Isso geralmente surge em situações de cólera intensa ou misturada com explosões súbitas do humor depressivo, revelando gestos e comportamentos a fim de estabelecer um controle sobre o ambiente e as pessoas de tais situações, provocando no outro um sentimento de culpabilidade e remorso.[40]
O borderline demonstra um grande medo de ser abandonado ou rejeitado e por isso está sempre a tentar achar uma forma para que isso não aconteça. Alguns evitam começar relacionamentos, especialmente pelo medo de ser rejeitado ou abandonado, depois. Quando em algum relacionamento íntimo, este medo é acompanhado caracteristicamente de esforços frenéticos para evitá-lo. Podem fazer manipulações emocionais, especificamente chantagens, como ameaças ou tentativas de suicídio. Eles podem demonstrar explosões de raiva que terminam frequentemente em auto-agressões, como auto mutilar-se, ou até mesmo hétero agressões. O medo de ser abandonado é tão enorme nessas pessoas que casualmente sofrem de dissociações, têm distorções da realidade como ter idéias paranóides ou alucinações e, no extremo, praticar impulsivamente o suicídio completo. Além disso, por conta do suposto abandono ou rejeição (real ou imaginado) vindo da pessoa amada, da grande idealização/paixão, eles passam rapidamente para a grande desvalorização/ódio do outro, pelo fato de ter sido "rejeitado". Contudo, é notável também que a volta da pessoa ocasione a remissão de tais sintomas e manipulações. No entanto, eles têm tanto medo da perda que acabam por ser muito possessivos, ciumentos, sem se darem conta que todo esse comportamento prejudica e assusta as pessoas. De maneira geral, o transtorno de personalidade borderline é um dos principais distúrbios associados ao suicídio e automutilação. Eles podem tomar muitos medicamentos de uma vez só, com ou sem intenção de suicídio, abusar de drogas e bebidas, auto mutilar-se fisicamente, colocar-se em risco, entre outros atos impulsivos com notável tendência autodestrutiva.
O limítrofe é tão intolerável às frustrações que suas rupturas e decepções sentimentais sempre terminam em depressão profunda, conduta violenta, tentativas de suicídio ou autoagressão e, ocasionalmente, param no hospital ou até mesmo polícia. Eles têm intensos temores de se sentirem rejeitados ou abandonados, sendo que trazem consigo um sentimento de que sem o outro não podem dar continuidade à vida. Tais decepções amorosas são muito intensas, dolorosas e insuportáveis em borderlines. Eles sentem um intenso sentimento de vazio e um grande medo de fundir-se ou desaparecer. Entretanto, essas características típicas borderlines não são reveladas abertamente. Eles nunca admitem que sentem medo de serem rejeitados pela pessoa amada: demonstram sempre através da agressividade, raiva, ódio e manipulações.
Por todos esses motivos, é muito comum o borderline ser possessivo e controlador. Pessoas muito dependentes, influenciáveis e sugestionáveis, como a personalidade histriônica e dependente facilmente sofrem num relacionamento com um borderline, por exemplo.

Desregulação emocional e relacionamento familiar

O indivíduo borderline é geralmente visto como "genioso", temperamental, "de lua" e pessoas que facilmente se embravecem. Caracteristicamente, têm dificuldades no controle das emoções e podem ter uma convivência em grupo particularmente complicada. Eles exigem toda a atenção do mundo para si e facilmente são tomados pelas emoções. Podem arranjar conflitos com namorados e familiares com grande demonstração de ciúmes, possessividade e medo de serem abandonados. E ainda com tanta exigência de atenção, armam confusão com notáveis explosões de raiva como agressividade, ironia, xingamentos e até demonstrações físicas de violência. Por isso, podem viver a criar casos com pessoas de sua intimidade.
Pessoas com esse distúrbio, de maneira geral, são superficialmente adoráveis e simpáticos. Porém, com pessoas de sua grande intimidade (ex.: familiares) eles são vistos como irritantes, agressivos, mal-humorados, rebeldes. Tanto que o ambiente intrafamiliar é muitas vezes marcado por brigas e conflitos constantes.
Esses indivíduos não conseguem manter um bom relacionamento entre seus familiares íntimos que convivem dia-a-dia com ele (ex.: pais e irmãos). Por vezes, o ambiente é repleto de discórdias sendo que estes últimos também são classificados hora como bons, hora como maus. A imprevisibilidade e instabilidade típica de limítrofes contribuem para a geração de conflitos intrafamiliar. Essas pessoas que convivem com o indivíduo percebem tais características, como humor instável com demonstração de incapacidade de controlar a raiva (ex.: mau humor frequente, mau gênio, sarcasmo, amargura, agressividade constante). Borderlines também podem ser tidas como pessoas incapazes de demonstrar gratidão, de interessar-se por si mesmo e pelos outros. Os outros, assim como a pessoa que o criou (ex: mãe, pai), podem ser sentidos como estranhos que têm apenas a função de suprir e prover o que ele espera.
A dor física bem como as discussões podem ser formas de aliviar a tensão interna que se alastra no interior do indivíduo limítrofe. Por isso, o borderline se acalma após uma briga com familiares. Enquanto depois da discussão todos ficam mal, como ele descarregou sua tensão, ele age como se nada de importante houvesse acontecido e tende a esperar que os outros reajam assim também.
As pessoas de sua intimidade, facilmente apelidam limítrofes como estressados, pessoas "de lua", de mau gênio e imprevisíveis. A convivência diária com borderlines pode ser de extrema dificuldade. Ao longo de um dia, eles podem mudar de humor várias vezes. Podem ser tidos como aqueles que de manhã estão bem, à tarde de sentem-se raivosos, e à noite depressivos, por exemplo. Como se sentem irritadiços por motivos banais, podem tratar hora bem, hora mal aqueles que convivem com ele, sendo que os conviventes não conseguem entender exatamente o motivo que causou a mudança radical de humor e conduta do borderline. Portanto, medo, repulsa e raiva são emoções frequentes que borderlines produzem em pessoas de sua grande intimidade. Familiares sempre percebem que são pessoas que têm facilidade em demonstrar agressividade, sendo que dificilmente conseguem controlar tais hostilidades — perceptíveis através de demonstração de mau humor, agressividade constante, amargura persistente e até ataques de rebeldia ou violência.
Apesar disso, quase sempre, socialmente essas características não são momentaneamente percebidas. Pelo contrário, suas relações podem ser superficiais, assim, demonstram ser adoráveis, educados e simpáticos. Contudo, tais qualidades perdem a força conforme suas relações se tornam íntimas. Muitas vezes, superficialmente, pessoas que não conhecem profundamente o indivíduo borderline podem duvidar e não acreditar quando familiares, por exemplo, relatam o comportamento irritadiço e anormal que o paciente exibe.

Instabilidade

O perfil geral do transtorno também inclui uma inconstância invasiva do humor, das relações interpessoais, da conduta (comportamento) e da identidade, que pode levar a períodos de dissociação. São pessoas muito instáveis em todos os aspectos de sua vida; seus relacionamentos íntimos são muito caóticos, com tendência a terminar abruptamente de forma explosiva, pois eles são marcados por períodos de grande idealização e grande desvalorização, esforços exagerados para evitar a perda, chantagens emocionais e possessividade. A instabilidade emocional também contribui para relacionamentos instáveis. O humor do borderline pode ser muito lábil, alternando diariamente entre períodos de depressão profunda, euforia, irritabilidade (não necessariamente nessa ordem) e ansiedade. A inconstância também é intensa na própria percepção de si mesmo, nas atitudes, opiniões e até na sexualidade.
O paciente borderline apresenta em todos os aspectos de sua vida a "difusão de identidade" que pode ser descrita como a recusa em considerar outros tempos e outras diferentes situações, dando prioridade à situação presente e atitudes imediatas. Seria como se tivessem uma "amnésia" das situações e atitudes anteriores. Assim, forma-se a instabilidade entre os extremos “bons e maus” (8 ou 80, branco ou preto, mas nunca o meio-termo). Os indivíduos limítrofes tendem a caracterizar uma pessoa, objeto ou circunstância apenas pelo presente, como se não existisse o passado ou o futuro, nem outros tempos ou situações diferentes. Por exemplo, o borderline ao perceber que a pessoa amada está com ela, ele tende a classificá-la como "ótima", ideal e sente-se fortemente apaixonado e feliz. No entanto, se a outra pessoa anuncia que tem de ir embora, por exemplo, o paciente rapidamente passa da grande idealização ("ótima") para a grande desvalorização ("péssima"), desprezando a história em que passaram. Se o cuidador retorna, novamente a pessoa é passada do extremo "péssima" para "ótima". Isto evidencia a grande instabilidade entre os extremos cujos borderlines sofrem. É assim, também, que outras pessoas, objetos e circunstâncias são analisados por limítrofes, sempre oscilando entre o "bom" e o "mau", conforme o presente imediato, deixando de lado o passado, situações remotas e diferentes. Exemplificando, de modo geral, a borderline é aquela jovem que valoriza demais o namorado. Contudo, por menor que seja a contrariedade, já acha que ele não presta mais. Também acontece quando a limítrofe liga para a amiga. Só porque esta não pôde atendê-la naquela hora, a borderline já acredita que não é amada e depois agride a amiga de não dar devida importância a ela.
De forma geral, borderlines estão sempre no extremo e fazem análise extrema das situações externas. Eles passam facilmente do "eu te amo" para o "eu te odeio" e seu pensamento é sempre o branco ou preto, mas nunca o cinza. Suas opiniões em relação aos outros, são assim baseadas também, alternando drasticamente entre pessoas "maravilhosas" e pessoas "terríveis", por isso a frustração é frequente porque o portador do transtorno faz idealizações das pessoas e circunstâncias e estão sempre procurando o "perfeito" e ideal. Quando suas expectativas não são correspondidas, eles passam drasticamente do perfeito para o terrível. Tudo torna-se monstruoso, mau, péssimo. Portanto, as próprias idealizações desses indivíduos trazem ainda mais enorme instabilidade para eles. Mas caracteristicamente eles têm baixa tolerância às frustrações, porque são emocionalmente hipersensíveis a qualquer estímulo estressante, reagindo sempre de maneira exagerada, com grande dificuldade em controlar fortes emoções.
Por causa da tendência em completamente idealizar ou completamente desvalorizar pessoas, lugares e objetos, os portadores da personalidade limítrofe por vezes podem fazer um mau julgamento de outras pessoas fazendo-se assim se envolver em relações extremamente prejudiciais, que levam a sucessivas crises emocionais.
Para se entender a causa da instabilidade do portador de personalidade limítrofe, há de se entender que existe no borderline um mecanismo denominado "cisão". Dividem as pessoas como totalmente boas ou totalmente más. Totalmente monstruosas ou totalmente perfeitas. Não existem o meio-termo e a neutralidade, sendo para o borderline, não há "dois lados da mesma moeda". Em outras palavras, normalmente toda pessoa, objeto ou ambiente possui um lado bom e lado ruim, ao mesmo tempo. Todos têm seu lado positivo e negativo, ninguém é totalmente perfeito ou totalmente ruim. No entanto, para o borderline esse equilíbrio entre o bom e o mau de um mesmo objeto não existe. Ou é totalmente ideal, ou totalmente terrível. Então, esses indivíduos, de maneira geral, trazem consigo sempre grande instabilidade em seus relacionamentos. Apesar da dificuldade em nutrirem confiança por outros, quando eles se apaixonam por alguém, podem referir-se a tal pessoa como "perfeita": tudo a respeito dela é ótimo, bom, bonito e ela merece todo carinho e romantismo do mundo, tratando-na como um verdadeiro deus. No entanto, qualquer deslize (real ou imaginado) percebido pelo borderline, eles podem passar rapidamente para o "terrível": tudo a respeito do outro é monstruoso, mau, péssimo, odiável, ridículo e merece ser tratado como um demônio e ser punido por isso. Então, podem demonstrar humor seco, grosseiro e raivoso, com comportamento impulsivo e agressivo (ex.: dizer que odeia; demonstrar agressividade, tratar cruelmente a pessoa etc.). Se percebem uma ameaça de rejeição ou abandono por parte da outra pessoa, passam a fazer esforços frenéticos para evitá-los. Tais esforços são tão extremos que às vezes cometem atos muito impulsivos, levados por emoções como a raiva. Por exemplo, podem mentir, fingir passar mal ou ficar doentes, acidentar-se propositalmente, auto mutilar-se, ameaçar suicídio, prender a pessoa, chantagear, agredir e até mesmo perseguir o outro (stalker), entre outros atos extremos. Exatamente por isso, às vezes, os borderlines podem terminar em caso policial, porque são eles que muitas vezes são donos de tais esforços frenéticos e comportamentos excessivamente exagerados que envolvem sentimentalmente outra pessoa. Esse mecanismo extremista explica por que borderlines conseguem tratar excessivamente bem alguém, para num piscar de olhos, tornar-se demasiadamente cruel.
Em um relacionamento íntimo, o borderline demonstra grande necessidade de ajuda por causa de sua depressão e por conta de maus tratos passados, contudo, ao tempo que se mostram depressivos e dependentes de cuidados, de repente, podem maltratar cruelmente a outra pessoa sem o mínimo de remorso, porque acreditam estar sempre certos em suas atitudes. As outras pessoas que são sempre as erradas, as culpadas.
Os relacionamentos do borderline bem como comportamentos e sua personalidade em geral não são duradouros. É notável nesses indivíduos constante instabilidade nos seus relacionamentos. Eles podem demonstrar profundos sentimentos de apego e desapego fácil e ambivalente. Ao passo que se sentem sós, desejam muito a presença do outro, de repente, quando esta presença se concretiza, podem achar que estão muito próximos e invadindo sua privacidade. Diga-se de passagem que o borderline de fato constrói o lema "eu te odeio - não me deixe". Parceiros afetivos que se relacionam com limítrofes vivem em constante confusão e se assustam com as relações caóticas típicas do borderline. Isso acontece porque limítrofes idealizam e se desapontam a todo tempo. Eles conseguem passar rapidamente do amor para o ódio em questão de segundos. Pessoas que mantêm relacionamento com um indivíduo emocionalmente instável, hora podem se sentir sufocados de tanto romantismo e exigência de atenção, bem como excessivas manipulações. De repente, podem duvidar do sentimento do borderline que demonstra grande ternura, para em seguida, demonstrar frieza, raiva e crueldade.
Suas opiniões e idéias são facilmente instáveis e contraditórias. Podem dizer com convicção "sim", para em seguida, dizer "não", gostando assim de algo, para facilmente odiá-lo ou vice-versa. Isso também acontece em relação à carreira profissional e sua orientação sexual. Estão constantemente mudando em relação ao que pensam e fazem, e o que irão exercer profissionalmente. Sua identidade sexual é frequentemente marcada por dúvidas e mudanças constantes ou até adeptos à bissexualidade. Por vezes, definem-se a si próprios como "inexistentes" pois não sabem quem são, do que gostam. Quando estão convictos de algo, de repente, vêem-se cercados por dúvidas contrárias novamente, por isso, a indecisão nessas pessoas é comum. De maneira geral, são pessoas que não conseguem ficar estáveis. Por isso, são intolerantes à monotonia e rotinas, facilmente contrariando regras, bem como desistindo ou desanimando facilmente de atividades rotineiras ou que exigem certa monotonia.
Borderlines não têm persistência o bastante para continuar um projeto, tarefa ou objetivo. Eles tendem a iniciar, porém, dificilmente terminam. Enjoam, desanimam ou desgostam facilmente. Por isso, a vida do limítrofe é uma instabilidade contínua, sejam em seus projetos, relacionamentos, preferências ou comportamentos. O borderline não é capaz de se ligar por muito tempo a coisa alguma que não seja, de fato, algo de seu total interesse. Por isso também dificilmente mantêm um relacionamento por muito tempo, um objetivo constante, um gosto ou preferência interna estável. Na realidade, a inconstância é a palavra chave da vida do borderline.
Limítrofes estão sempre à beira entre o amor e o ódio. Eles tendem a idealizar as pessoas por qual querem como seus cuidadores, contudo, não percebem que o perfeito não existe, por isso estão sempre insatisfeitos porque facilmente acham "defeitos" nas pessoas por quais gostariam de vê-las como perfeitas. A pessoa "ideal" parece sempre depender do que o borderline necessita. Caso a pessoa negue, ignore tal necessidade, ou frente a recusas, o borderline rapidamente passa do amor para o ódio. Por exemplo, é o caso da paciente que quer ouvir apenas as coisas que deseja, pelo terapeuta. Quando o terapeuta diz coisas na qual ela não deseja, rapidamente o terapeuta é passado drasticamente para um "monstro" que merece ser tratado cruelmente. Isto mostra que borderlines mudam de um extremo ao outro, por pouquíssimas coisas.
O extremismo nesses indivíduos é muito marcante: quando alguém é amado por ele, a pessoa merece ser tratada de forma especial, carinhosa e muito querida. Quando alguém é odiado pelo borderline, a pessoa merece vingança, ódio e infinitas crueldades. Em suma, a pessoa amada é vista como um deus, e a pessoa odiada, como o demônio. A vida do limítrofe também é dividida entre boa e má. Péssima ou ótima. Mas nunca o neutro ou meio-termo. Nunca reconhecem a neutralidade das outras pessoas e circunstâncias.
O fato de borderlines serem extremistas faz com que tenham visões assim extremistas até mesmo de seus objetivos e futuro. Quando consegue iniciar um projeto (estudos para o vestibular, emprego, entre outros planos em longo prazo), ele é frequentemente presunçoso: sua meta é ser reconhecido ou nada valerá a pena. Como em geral, não vai ser reconhecido imediatamente, ele abandona a tarefa prematuramente, sem se quer terminá-lo. Tal atitude por recompensa apenas imediata, com desprezo à paciência de esperar, torna-o frequentemente paralisado e sem objetivos concretos. As tarefas do dia-a-dia também assim são raciocinadas. Quando a recompensa não é imediata, eles abandonam tal projeto ou têm dificuldade em começá-la, dando uma errônea imagem de "preguiçosos" ou "fracassados".
Em geral, as pessoas que se relacionam superficialmente ou que estão apenas no início de um relacionamento com um borderline, não fazem idéia das perturbações e relações caóticas com que vão ser recebidos em tais relacionamentos. No entanto, os indivíduos com o transtorno de personalidade limítrofe necessitam de muita ajuda e apoio, embora possam fazer de suas relações um verdadeiro "inferno". Eles não têm esse comportamento de forma proposital, pois é notável que sejam pessoas muito perturbadas emocionalmente. A pessoa que está com o borderline tem de estar ciente de que está diante de um grave transtorno, uma patologia dilacerante tanto para o próprio enfermo quanto para os familiares e pessoas próximas.

Narcisismo e agressividade

Os borderlines têm dificuldade em avaliar as consequências de seus atos e de aprender com a experiência e, então, erram e repetem o erro, nunca aprendendo. São indivíduos tão exigentes e imprevisíveis que assim tendem a afastar todos aqueles que o cercam. Além disso, são pessoas que não têm necessidade, eles têm urgência. Não sabem adiar e não aguentam esperar.
Eles também tendem a funcionar muito mal, conforme o estresse. Quanto mais estressados e pressionados, mais pioram os sintomas. Eles sempre tendem a contornar a situação e colocam a culpa em outros, seja por suas deficiências, decepções, responsabilidades ou problemas. Também vivem da gratificação, especificamente a imediata e geralmente querem ser livres para fazerem o que quer. Porém, ao mesmo tempo desejam ter atenção. Na verdade, são eternas crianças em um corpo de adulto, por isso aparentam estar se fazendo de "vítima".
"Eu os agrido, vocês me devem, vocês precisam fazer tudo por mim e eu nada por vocês" é frequentemente um lema em mente dos borderlines. Quase nunca eles se importam com as necessidades alheias, porque tendem a priorizar as suas. Acusam de forma egoísta e injusta que seus pais deveriam gastar mais dinheiro com o indivíduo borderline, do que com eles próprios, por exemplo. Ou então exigem toda a atenção, paciência e carinho para si mesmos ("Você tem que me tratar sempre bem.") e pouco retribuem ("Eu te maltrato, mas você não pode me maltratar, apenas me dar carinho e apoio."). Isto evidencia um "quê" de egoísmo típico traço narcisista no paciente borderline, por isso tem dificuldade em perceber o lado do outro, ou de distinguir o rosto do outro, só conseguindo visualizar suas próprias necessidades. Interesses genuínos são raros. Se, por acaso, suas necessidades são ignoradas, borderlines sentem-se profundamente irritados por não terem sido levados em conta. Segundo Kernberg, é a difusão de identidade responsável por tais percepções empobrecidas. Como o próprio borderline não tem uma identidade bem definida, obviamente, eles têm grande dificuldade em enxergar o outro, afinal, não consegue enxergar-se com precisão. Por causa dessa dificuldade em enxergar o outro, o borderline pode ser notavelmente difícil em ter amigos ou namorados, ou então, mantê-los. Ele se aborrece com facilidade com qualquer assunto que não lhe diga a respeito, necessitando sempre ser o centro de tudo. Como nem sempre isso ocorre, ele se irrita excessivamente podendo causar sérios prejuízos em tais relacionamentos.
Apesar do histriônico desejar também ser sempre os centros das atenções, a grande diferença, é que quanto tudo gira em seu redor, ele sente sua carência afetiva momentaneamente preenchida, nada mais lhe falta. Nesse caso, a outra pessoa existe e é levada em conta a sua existência. Quanto ao borderline, seu vazio é momentaneamente preenchido, entretanto, a outra pessoa existe apenas para satisfazê-lo naquele instante.[40]
Limítrofes são pacientes que têm uma grande incapacidade em haver relações humanas "normais" e dão a aparência de não se ressentir com as emoções de outros humanos. Eles irritam-se facilmente por coisas banais. Por isso, apesar do borderline conseguir demonstrar certa "normalidade" em várias situações triviais, eles exibem escandalosamente a incapacidade em controlar sua raiva (ex.: acessos de mau humor por ter que esperar a ser atendido no hospital. Ou tratar grosseiramente o médico). Em suma, eles reagem normalmente até o momento em que seu humor radicalmente muda.
Borderlines podem demonstrar com frequência mau humor e agressividade, especialmente com pessoas íntimas. Porém, geralmente saem de seus ataques de raiva como se nada tivesse acontecido, e não conseguem entender por que o outro ficou magoado, demonstrando assim uma dificuldade em compreender a realidade e os sentimentos alheios. Eles sempre tendem a achar que têm a razão de tudo e facilmente exprimem um bloqueamento na interpretação dos sentimentos de outras pessoas.
Quando o borderline crê ter sido tratado de maneira injusta (que seja real ou não), ele reage agressivamente e impulsivamente. Às vezes, muitos gestos de outras pessoas são interpretados falsamente ou qualificadas como hostis. Esses indivíduos têm dificuldade em interpretar justamente o comportamento de outros. Sua percepção sobre outros é muito instável e distorcida sempre para desconfianças. Acreditam que as outras pessoas não são nada confiáveis e são especialmente maldosas.
Pelas outras pessoas, erroneamente o borderline é classificado como "mimado", rebelde, estressado, louco ou apenas o "seu modo de ser". Contudo, seu "modo de ser", na realidade, é um modo de ser doentio.
O borderline tem dificuldade em relação a limites. Ele não conhece limite e necessita de limite para se sentir seguro, entretanto, ele torna-se agressivo ou violento caso uma oposição frontal venha ao encontro dele. Quase nunca colocar limites nesses pacientes serve como uma atitude significativa, porque eles tendem a entender isto de forma errada, como uma atitude de rejeição. Os limites podem e devem ser colocados, mas com muita cautela, para que eles não se sintam ameaçados e maltratados.
Nas relações íntimas, borderlines podem ser francamente insuportáveis, irritantes ou assustadores. Ao tempo que se mostram carentes de afeto, com grande necessidade de apoio e cuidado, podem se mostrar muito manipuladores e irritantes. Facilmente tornam-se embravecidos e sua afetividade é marcada por ansiedade, raiva ou depressão, sendo que tais emoções não são dissimuladas. Demonstram agressividade ou raiva intensa inadequadamente. Por trás dessa rebeldia, escondem um medo profundo de serem rejeitados. Eles necessitam da outra pessoa a todo instante, podendo parecer egoístas porque se comportam como só estão ao lado de alguém, para receber cuidado e afeto, sem se importar se suas manipulações e maus tratos estão a prejudicar ou não o outro. Na realidade, esses indivíduos raramente experimentam emoções genuínas, por vezes sentem um vazio afetivo, sendo que a raiva é a emoção mais sentida nessas pessoas. Contudo, quando sentem emoções plenamente razoáveis, tendem a proteger-se delas. Muitas vezes evitam ou negam sentimentos com medo de terem alguma frustração e machucar-se mais ainda. Podem, ainda, tentar defender-se e dissimular sentimentos e contorná-los, demonstrando frieza ou desprezo, entretanto, por dentro, corroem-se de decepção e medo de serem rejeitados. Assim, suas vidas tornam-se mais instáveis, porque tendem a mudar de amizades, grupos, cidades etc. que consideram "ameaçadoras".
Em relação ao relacionamento familiar, o borderline exige demais da sua família que pode, com razão, cansar-se das suas exigências e das suas agressões.
O borderline pode se tornar agressivo quando contrariado. Como é uma pessoa sensível e perspicaz, ele saberá como agredir, conseguirá escolher pontos vulneráveis dos circunstantes. A tendência da família e pessoas de sua intimidade, nesse momento, será considerá-lo manipulador, agressivo, esperto, capaz de grandes atrocidades. No entanto, na realidade, o borderline é por si uma pessoa frágil e delicada, mas que, sem querer, demonstra o contrário. Ele agride por total desespero. Sua violência, geralmente, ocorre com mais frequência quando se sente rejeitado, incompreendido ou contrariado.
O borderline submete seus familiares a algumas torturas, exigindo e agredindo, embora com isso estejam apenas tentando reviver experiências passadas na quais a relação entre ele e seu cuidador não foi capaz de lhe proporcionar boas condições emocionais. Em geral, o borderline tenta refazer o caminho não realizado no início de sua vida, com as mesmas pessoas (pai, mãe ou outros responsáveis, por exemplo) que não foram capazes de fazê-lo anteriormente.
Como o borderline tem a tendência de não enxergar o outro, vinculando-se apenas a seus interesses mais imediatos, às vezes ele pode tomar atitudes pouco recomendáveis com seus familiares e pessoas íntimas. Eles podem trair, mentir, criticá-los, pôr sempre a culpa em outros, colocá-los em situação financeira difícil, esconder, querer destruir o que o outro possui, querer se vingar e muitas outras coisas do gênero. São atitudes ditas sociopáticas (ou psicopáticas), que menos do que punição, exigem compreensão para não mais se repetirem. Contudo, a família quase sempre não entende isto, sendo assim uma tarefa difícil de convencer a família que o borderline, assim como sociopatas, dificilmente aprende com seus erros e punições. Para eles, raramente castigos e punições funcionam. Pelo contrário, tais punições são seguidas de mais agressividade e raiva, por parte dos borderlines, que entendem isso como rejeição. Não que o borderline não precise de limites destas atitudes. Por causa de seu narcisismo, ele considera muito justo que tudo seja para uso próprio, que tudo esteja voltado para ele. É claro, entretanto, que ele tem de saber o quão importante é reconhecer que é impossível ele continuar a ter atitudes egoístas, essencialmente porque tais atitudes afastam as pessoas das quais ele tanto necessita.
No entanto, o borderline não somente agride os outros, como também se auto-agride. Frequentemente a auto-agressão ocorre de forma manipulativa, para causar no outro um sentimento de culpa e arrependimento. A automutilação é uma das principais características do transtorno. Tais atitudes impulsivas podem ser vistas por inúmeras formas e são tidas como triplo sentido: ao tempo que significam desespero, depressão e dor emocional atenuada com a dor física, a automutilação pode ser uma forma de conseguir atenção, bem como culpar pessoas à sua volta, em momentos de raiva. Alguns atos autodestrutivos usados por borderlines pode ser: cortar-se, queimar, arranhar, bater-se, cutucar-se, roer unhas, além de abusar de medicamentos, expor-se a acidentes e situações perigosas, não se importar com sua saúde expondo-se a doenças. Pode ocorrer também abuso de substâncias psicoativas, café, ingestão de doces em exagero, dirigir imprudentemente, dormir em excesso e praticar sexo inseguro. Gastar dinheiro sem controle, comer compulsivamente, roubar utensílios de pouco valor monetário (cleptomania) entre outros comportamentos prejudiciais a si próprio também podem ocorrer. Engajam-se em tais atitudes para se libertarem de sentimentos crônicos de vazio, mas causam grande arrependimento após cumprir essas ações. Às vezes, as outras pessoas podem perceber ou questionar-se sinais evidentes de automutilação em borderlines (ex.: vários arranhões percebidos no braço, hematomas ou cortes). Mas via de regra, eles tendem a apresentar argumentos implausíveis ou pouco explicativos em relação a tais ferimentos, com medo de que descubram seu comportamento autodestrutivo. Pessoas com o distúrbio, também pode haver períodos em que se isolam socialmente.

Desconfiança e histeria

Eles estão sempre a reclamar de algo, talvez querendo manter um cuidador perto de si, mas não têm capacidade o suficiente para nutrir uma relação saudável e estável. Para isso, eles são vistos como exímios manipuladores com tendência a manter perto de si a qualquer custo outra pessoa que seja sua "cuidadora". Isso pode ser conseguido de várias maneiras como já citadas, entre elas, ficar doente emocional ou fisicamente é frequente. Primordialmente, mostram-se aparentemente normais a fim de conseguir um vínculo. Entretanto, acabam por criar sérias confusões, mas sempre tendem a se fazer como as vítimas injustiçadas. Assim como pessoas portadoras do transtorno de personalidade histriônica, limítrofes podem glorificar doenças podendo estar cronicamente doentes (ex.: depressão, gripes que não saram, novos sintomas que sempre aparecem sem causa aparente, queixas hipocondríacas etc.).
Indivíduos limítrofes também têm alta probabilidade às dissociações, histeria e podem ter problemas com amnésia, frequentemente com falhas de memória. Eles também têm grande taxa de desenvolvimento ao transtorno dissociativo de identidade (personalidade múltipla), isto é, quando um indivíduo eclode mais de uma personalidade para lidar com as situações estressantes. Esses pacientes apresentam comumente um quadro conhecido como despersonalização ou desrealização. Nesta ocasião, o borderline — geralmente após algum evento que causa angústia e frustração — pode sentir-se como irreal, inexistente. Quando estão numa crise de despersonalização, o indivíduo é tomado por sensações gravemente perturbadoras como ter a sensação de que o mundo em sua volta não é real — nem eles próprios — e de que tudo parece um sonho. Podem sentir-se anestesiados, como se estivessem a ver suas próprias vidas num filme — ou seja, do lado de fora. Também podem sentir-se fora de seus corpos sendo que esta sensação de irrealidade é tão conturbada que, muitas vezes, os levam a cometer atitudes "automáticas" impulsivamente. Nesses casos, o borderline pode ter um comportamento autodestrutivo para certificar-se de que ele é real e está vivo. Geralmente, essas crises de desrealização são precedidas por rejeições sentimentais ou ameaças de abandono (reais ou imaginadas) percebidas pelo borderline sendo que a volta da pessoa amada muitas vezes ocasiona a remissão desses sintomas de irrealidade.
Às vezes, o comportamento de alguns borderlines pode demonstrar como obtinham carinho e consideração, em épocas remotas (especificamente quando crianças). Por isso, eles podem ocasionalmente mostrar um comportamento francamente sedutor para conseguir cuidado, alternando drasticamente, após a intimidade, o papel entre o sedutor e o vingador de maus tratos passados.
Essas pessoas podem mostrar-se simpáticas socialmente, mas em geral, as relações interpessoais desses indivíduos podem ser escassas. Principalmente porque borderlines têm dificuldade em nutrir confiança em relação aos outros, por vezes são desconfiados e têm reações paranóides. Podem ter certeza que existem conspirações contra eles, que estão a enganá-los ou criticá-los, ou que estão querendo passá-lo para trás; em suma, para o borderline ninguém é digno de confiança e em momentos de grande estresses essas características tornam-se exacerbadas. Essas ideações paranóides ocasionam no borderline um gatilho para explosões de agressividade e mau gênio, uma vez que o paciente acredita com veemência que as outras pessoas são inconfiáveis. Portanto, as outras pessoas ficam sem entender exatamente o que causou no borderline uma crise de raiva e agressividade súbita. O limítrofe costuma enxergar mentiras, traições e paranóias em lugares e pessoas nas quais, na realidade, não existem. Por exemplo: num relacionamento íntimo, o borderline é frequentemente aquele indivíduo que simplesmente por ver o parceiro conversar com outra pessoa acredita que está a ser traído, demonstrando explosões súbitas de mau gênio, cólera e ciúmes patológico. Portanto, eles acabam por mostrar emoções totalmente desproporcionais à realidade porque são pessoas excessivamente inseguras e com grande dificuldade em confiar no outro. Portanto, a possessividade e o ciúmes patológico são sintomas muito comuns entre pacientes portadores da personalidade borderline. Essa insegurança somada às ideações paranóides causam sentimentos de ciúmes intenso por situações triviais que seriam toleradas normalmente por uma pessoa equilibrada emocionalmente. Sendo assim, suas relações geralmente são superficiais e recheadas de desconfianças. Esses indivíduos sempre estão a esperar dos outros apenas crueldades, traições e frustrações, como se as outras pessoas fossem sempre maldosas e traíras. Quando estabelecem um relacionamento mais íntimo, esse comportamento anormal fica exageradamente evidente.

Reatividade do humor e impulsividade

Borderlines têm frequentemente flutuações do humor intensas, imprevisíveis e constantes. De manhã, podem ver a vida como muito aceitável. À tarde, bruscamente sentem um grande vazio com intensa vontade de se suicidar. E, à noite, radicalmente seu humor novamente muda e sentem uma grande ansiedade com desejo compulsivo de se acabar em guloseimas, por exemplo.
A impulsividade no borderline sempre está relacionada à desesperança, falta de apoio, intensa sensação de rejeição e vazio, o que leva, no desespero, por atos impulsivos autodestrutivos.
O borderline é confundido com frequência com quadro maníaco por conta do humor instável. Isto ocorre porque ele pode apresentar-se acelerado ou animado, por estar apaixonado por alguém e sendo correspondido, se sentindo amado, por exemplo. Angustiado ou delirante, também se encontra acelerado. De outro lado, pode tornar-se lento e excessivamente depressivo num piscar de olhos. Nestes casos, a confusão com uso de drogas ou bebidas alcoólicas também é frequente. Contudo, ele pode passar da animação para a depressão rapidamente, sempre dependendo das circunstâncias a que esteja submetido. Portanto, a grande diferença básica do indivíduo borderline com o portador da doença bipolar é exatamente duas características principais: diferente do bipolar, o borderline apresenta variações do humor e emoções muito mais rápidas que o bipolar. Enquanto o borderline oscila várias vezes num dia só sempre dependendo de circunstâncias externas e frustrações, o bipolar apresenta seu mesmo estado afectivo durante maior tempo — num dia o bipolar está bem mas no dia seguinte torna-se depressivo sem motivo algum. O borderline caracteristicamente tem seu humor ligado sempre às frustrações, conquistas e situações externas, por isso seu humor tem reatividade mais intensa. Enquanto o bipolar independe de situações externas — com ou sem frustrações ou conquistas, o bipolar continuará no seu mesmo estado afetivo, sem ter um motivo concreto para isto.
Além disso, frequentemente a depressão e o transtorno afetivo bipolar são confundidos com a desordem borderline de personalidade. Contudo, talvez uma das principais diferenças seja que além de todos os outros sintomas típicos de limítrofes, tanto a depressão unipolar como a da bipolaridadade, se caracterizam por sensação de culpa, inferioridade, sem um motivo concreto para este estado de ânimo. Enquanto isso, a depressão do borderline se caracteriza essencialmente em razão de um vazio existencial, um buraco nunca preenchido, uma vida sem sentido, do tédio diante de seus objetivos e idéias de fracassos de frustração em relação a ideais não atingidos. Na depressão, o sentimento de inferioridade e culpa estão sempre presentes. No borderline, esses sentimentos são inexistentes e são substituídos por raiva constante. Como o borderline também pode se sentir muito angustiado, podendo passar dias e anos na cama, isso frequentemente é confundido ainda mais com a depressão (uni ou bipolar). Outra diferença importante entre os transtornos é que como o borderline precisa sempre de uma pessoa consigo que lhe minimize o sentimento de vazio, quando uma pessoa significativamente importante está presente, o limítrofe permanece tranquilo, enquanto sente que a presença do outro está evidente e cuja sensação de abandono está ausente. Diferente do depressivo ou bipolar que tendo ou não uma pessoa consigo, continuará a sentir-se depressivo, triste e mal-humorado.

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade_lim%C3%ADtrofe