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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Entrevista com o Doutor Raimundo Facundes dos Santos.

 

 


Doutor Raimundo Facundes dos Santos – Delegado de Polícia aposentado.

1 – Conte-nos um pouco sobre sua história como delegado de polícia.

R – Ingressei na primeira turma de delegado de Polícia Civil do Estado do Amapá em 1992. O Estado tinha deixado de ser Território e naquele ano realizou seu primeiro concurso para o quadro da Polícia Civil. Foram muitos os desafios. O primeiro, e mais importante, foi porque me tornei policial quando o Brasil vivia um Estado Democrático. Isso faz muita diferença. Implantar uma polícia cidadã foi muito interessante. Abracei a filosofia de Polícia Comunitária e com essa filosofia conheci Alcoólicos Anônimos. Na Polícia Civil trabalhei em Santana e Macapá. Fui instrutor da Academia onde ministrei instrução em Direitos Humanos e Polícia Comunitária. Ocupei todos os cargos de direção superior, chegando a ocupar o cargo de Delegado Geral.

2-   Como o senhor conheceu o trabalho de Alcoólicos Anônimos?

R – É uma longa história, mas vou tentar sintetizar. Tudo começou quando descobrir que muitos crimes são cometidos por pessoas que estão sobre o efeito de álcool. Pior, para o dependente do álcool a lei não faz “efeito”, o álcool é uma droga lícita e, portanto, eles nunca vivem sem a droga porque ela está disponível a qualquer hora e nada e nem ninguém pode detê-los de usar. Só depois de um bom tempo na polícia descobrir isso. Fiquei chocado pelos crimes em que as pessoas alcoolizadas estavam envolvidas.  Principalmente os homicídios, que sem o álcool seriam evitados. Estava despreparado para trabalhar com essa demanda, não tinha informações. Na procura por resposta, então, encontrei Alcoólicos Anônimos que muito me ajudou a compreender o problema do alcoolismo. Sou grato a eles por isso. Álcool é um fator de violência.

3 – Como o senhor se tornou amigo de Alcoólicos Anônimos?

R – Quando, em busca das respostas para os problemas dos bêbados que eram presos, conheci Alcoólicos Anônimos e eles me convidaram para participar de algumas reuniões nos Grupos deles. Fique tão impressionado com o que vi, referente a recuperação deles, que resolvi acompanha-los e, desde então, eles me chamam de Amigo.  

4 – Em todos esses anos o senhor conheceu muitas histórias sobre o alcoolismo. O senhor poderia nos contar uma?

R – São muitas histórias impressionantes.

Na polícia foi um homicídio em que vítima foi uma criança que, a pedido do pai, foi comprar pão e ao sair da padaria foi assassinada por uma pessoa alcoolizada, atendendo o mando de uma outra pessoa alcoolizada. Quando o assassino foi preso ele disse que na hora viu apenas um vulto e furou esse vulto.

Em Alcoólicos Anônimos o impressionante são as histórias de recuperação, mas você pediu só uma, então, vou contar a história de um membro que eu conheci na cidade de Altamira, Estado do Pará. Um caso daqueles que o álcool devasta a saúde física da pessoa. Ele estava no hospital, entubado e já desenganado, e, então o levaram para um grupo. Ele foi na ambulância e assistiu a primeira reunião dele na maca. Até hoje ele está no AA.    

5 – Na sua opinião como a sociedade trata a questão do alcoolismo?

R – O alcoolismo, para a sociedade, é um grande desconhecido. Primeiro é considerado uma doença e essa doença é incurável. O que provoca essa doença? O álcool. Se essa doença incurável é provocada pelo consumo de álcool e o consumo só aumenta, como podemos explicar esse fenômeno? Só o desconhecimento, na minha opinião. Por isso que sempre digo que o álcool é um grande desconhecido.

6 – Na sua opinião, como a sociedade trata a questão do alcoolismo?

R – De um modo geral, a sociedade não trata a questão do álcool com o cuidado que o problema requer. Acho que ainda teremos muito que refletir até chegar a um ponto em que entenderemos quem é este álcool. Quanto mais informação melhor.

7 – Como uma pessoa pode se tornar amigo de AA?

R – Certa vez, o saudoso radialista Cunha Lopes, ao me entrevistar, me anunciou aos seus ouvintes: O FACUNDES FOI LÁ PRA DENTRO DO AA. Então, eu digo, pra ser amigo de AA a pessoa não deve ter problema com álcool e ir lá pra dentro de Alcoólicos Anônimos. Conhecer a irmandade, seus princípios e participar da vida de AA. É isso que faço.    

8 – Deixe uma mensagem para todos que nesse momento vivem o flagelo do alcoolismo.

R – A minha experiência me diz que, quem está sofrendo nas garras do álcool, deve procurar Alcoólicos Anônimos, tenho visto muitas recuperações que, dificilmente, a pessoa conseguiria fora de lá.

 

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Por que o Brasil tem a população mais depressiva da América Latina

 


  • Rone Carvalho
  • Role, De São José do Rio Preto (SP) para BBC News Brasil

O Brasil é o país com a maior prevalência desta doença na América Latina, de acordo com o relatório “Depressão e outros transtornos mentais”, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dados do último mapeamento sobre a doença realizado pela OMS apontam que 5,8% da população brasileira sofre de depressão, o equivalente a 11,7 milhões de brasileiros.

A nível continental, o Brasil aparece atrás apenas dos Estados Unidos, onde segundo a OMS, 5,9% da população sofre de transtornos de depressão.

Um estudo epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde revela que nos próximos anos até 15,5% da população brasileira pode sofrer depressão ao menos uma vez ao longo da vida.Uma soma de fatores explica a alta incidência de depressão entre os brasileiros, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil:

  • Dificuldade de acesso a tratamento de qualidade na rede pública de saúde;
  • Forte estigma social ainda existente no país em relação aos transtornos mentais;
  • Falta de um protocolo de atendimento para a depressão.

A OMS aponta que o número de pessoas que sofrem de doenças mentais comuns está aumentando no mundo inteiro, principalmente em países de baixa renda.

E alerta que, apesar da depressão atingir pessoas de todas as idades e nível de renda, o risco de alguém ficar deprimido aumenta com a pobreza, o desemprego e com fatos da vida, como a morte de uma pessoa próxima, o fim de um relacionamento, debilitação física ou problemas causados pelo consumo de álcool ou drogas.

Mulheres são mais suscetíveis

Atendimento especializado

Na lista de pessoas mais suscetíveis a ter depressão, mulheres aparecem na liderança. Segundo a OMS, elas apresentam duas vezes mais chances de terem o diagnóstico da doença do que os homens.

“Do ponto de vista biológico, os menores níveis de testosterona acabam deixando a mulher mais exposta à doença. Por outro lado, na questão social e psicológica, a mulher corriqueiramente está em uma posição de maior vulnerabilidade que o homem e acaba ficando com muitas obrigações, o que aumenta as chances delas terem mais diagnósticos do que eles”, disse Volnei.

“Trata-se de uma doença cuja gênese é multifatorial. Ocorre em decorrência da somatória de fatores diversos, tais como: predisposição genética, meio ambiente adverso ou hostil, relações interpessoais insatisfatórias, dificuldades em ser reconhecido dentro de uma comunidade. No entanto, quanto melhor for a qualidade de vida como um todo, menores serão as chances de uma pessoa desenvolver um quadro de depressão”, ressaltou.

Preconceito ainda é barreira

“O ideal é que desde cedo o paciente seja tratado, mas o que acontece muitas vezes é que procurar ajuda especializada é um dos últimos atos. Antes, o paciente tenta de tudo para evitar ser taxado como doente mental pela sociedade”, disse Mariza Theme, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

No Brasil, os estados do Pará, Ceará, Amazonas e Maranhão aparecem como os que possuem o menor número de psicólogos atendendo na rede pública de saúde.

Contudo, engana-se quem pensa que o preconceito é a única barreira enfrentada por quem tem depressão no Brasil.

O acesso ao atendimento especializado na rede pública de alguns municípios brasileiros também dificulta a vida de quem tem depressão no país, segundo especialistas.

Levantamento feito pelo Instituto República.org com base em dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), mostra que existem apenas 19 psicólogos para cada 100 mil habitantes no Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil.

Em alguns países da Europa, esse número de profissionais chega a ser superior a 40 para cada 100 mil habitantes.

Ao mesmo tempo, segundo a cientista política Paula Frias, ainda paira no senso comum do brasileiro uma ideia de que o cuidado com a saúde mental é um luxo ou algo que deve ficar

O que diz o governo

Segundo o  presidente do conselho científico da Abrata, Volnei Costa:“A maior parte da população brasileira precisa do SUS e muitas vezes os profissionais da rede não estão treinados para diagnosticar precocemente a saúde mental, fazendo com que o quadro da doença avance para uma depressão mais grave”, explicou.

O Ministério da Saúde também informou que, atualmente, a organização da rede pública para atendimento de pacientes com transtornos mentais está configurada em quatro níveis:
  • Organização por níveis de cuidado: a Atenção Primária é a principal porta de entrada para o SUS. Esta envolve promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos, vigilância em saúde, com atendimento preferencial para casos de depressão e ansiedade leve e moderada. Até junho de 2023, foram realizados 10.866.381 atendimentos na Atenção Primária à Saúde (APS) a pessoas que apresentavam condições relacionadas à saúde mental.
  • Serviços especializados: para casos mais complexos, o acompanhamento é prioritariamente realizado pelos serviços especializados da RAPS. Isso inclui atendimento em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviços de urgência e emergência, UPAs e Pronto Atendimento. Além disso, havendo justificativa clínica, há a possibilidade de cuidado em leitos de saúde mental em hospital geral.
  • Acolhimento e encaminhamento: outra forma de acesso é quando o próprio usuário do SUS procura diretamente os serviços de saúde, ou por meio de encaminhamento de outros setores interligados, como Assistência Social, Educação e Justiça.
  • Medicação gratuita: por fim, o Ministério da Saúde informou que o SUS também fornece medicação para o tratamento de depressão em unidades de saúde pública e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Tipos de depressão

Transtorno depressivo maior (depressão clássica): o indivíduo apresenta humor deprimido quase todos os dias, grande diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades; perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta; insônia ou hipersonia diária; agitação ou retardo psicomotor; fadiga ou perda de energia; sentimentos de culpa e inutilidade; capacidade reduzida para pensar, concentrar-se ou indecisão; e pensamentos de morte (medo de morrer e ideação suicida).

Transtorno depressivo persistente (distimia): este transtorno representa uma consolidação dos transtornos depressivo maior crônico e transtorno distímico e tem como sintomas o humor deprimido constante por pelo menos dois anos (para adultos) ou pelo menos um ano (para crianças e adolescentes) em conjunto de duas ou mais das seguintes características: apetite diminuído ou alimentação em excesso; insônia ou hipersonia; baixa energia ou fadiga; baixa autoestima; ou sentimentos de desesperança.

Depressão pós-parto: é um transtorno que acomete mulheres após o parto, sendo caracterizada por uma tristeza profunda. Pode promover falta de interesse por atividades diárias, insônia, cansaço extremo, ansiedade, sentimento de culpa, falta de conexão com o bebê, entre outros sintomas.

Transtorno disfórico pré-menstrual: os sintomas deste transtorno apresentam-se na maioria dos ciclos menstruais na semana final antes do início do ciclo e apresenta melhora poucos dias depois do início da menstruação, até se tornarem mínimos ou ausentes na semana pós-menstrual e pode apresentar sintomas como: instabilidade afetiva acentuada; irritabilidade ou raiva acentuada; ansiedade e tensão acentuados; e baixo interesse em atividades habituais.

Transtorno bipolar: é uma condição de saúde mental que causa mudanças extremas de humor. Conhecido anteriormente como psicose maníaco-depressiva, se caracteriza pela alternância de períodos em que a pessoa fica mais exaltada (mania), de episódios de depressão (hipomania) e de normalidade.

FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czkekymmv55o

domingo, 22 de outubro de 2023

Como o que pensamos antes de dormir afeta a qualidade do sono.

 

Mulher deitada em uma cama com os olhos abertos olhando para cima
Melinda Jackson e Hailey Meaklim

Você está na cama, tentando dormir, mas seus pensamentos não param.

Seu cérebro está ocupado fazendo planos detalhados para o dia seguinte, repetindo momentos vergonhosos (“por que eu disse isso ou aquilo?”) ou produzindo pensamentos aleatórios (“onde está minha certidão de nascimento?”).

Mas o que a ciência diz sobre isso? O que pensamos antes de dormir tem alguma influência nas nossas noites de sono?

Diferenças importantes

Acontece que pessoas que dormem bem e aquelas que têm sono de má qualidade têm diferentes tipos de pensamentos antes de dormir.

Pessoas que dormem bem dizem ter principalmente imagens sensoriais visuais ao adormecer (elas veem pessoas e objetos e têm experiências semelhantes às de um sonho).

Elas podem ter menos pensamentos organizados e mais experiências alucinatórias, como imaginar que estão participando de eventos do mundo real.

Para pessoas com insônia, os pensamentos antes de dormir tendem a ser menos visuais e mais focados no planejamento e na resolução de problemas reais.

Pessoas com insônia também têm maior probabilidade de ficar estressadas com o sono quando tentam dormir, o que leva a um ciclo vicioso, já que fazem um esforço para tentar dormir e ficam ainda mais acordadas.

Quem tem insônia frequentemente relata preocupação, planejamento ou pensamento em coisas importantes na hora de dormir. Elas também se concentram em problemas ou ruídos no ambiente e têm uma preocupação geral por não dormir.

Infelizmente, toda essa atividade mental prévia pode impedir que você adormeça.Um estudo revelou que pessoas que normalmente dormem bem podem ter problemas para cair no sono se estiverem estressadas com alguma coisa ao se deitar (como ter que fazer um discurso na manhã seguinte).

Mesmo níveis moderados de estresse na hora de dormir podem afetar seu sono naquela noite.

Maratonando séries

Outro estudo com 400 jovens adultos investigou como programas e séries de TV podem afetar o sono.

Os pesquisadores descobriram que níveis mais elevados de compulsão alimentar estão associados a uma pior qualidade do sono, mais fadiga e um aumento nos sintomas de insônia.

A “excitação cognitiva”, ou ativação mental, desencadeada por uma narrativa interessante e identificação com personagens, também podem desempenhar um papel nesse sentido.

A reorientação cognitiva, desenvolvida pelo psicólogo e pesquisador americano Les A. Gellis, consiste em se distrair com pensamentos agradáveis ​​antes de dormir.

São como os “cenários falsos” que as pessoas publicam nas redes sociais, mas o truque é pensar em uma situação que não seja tão interessante.

Decida antes de ir para a cama o que você vai pensar quando estiver deitado, esperando dormir.

Escolha uma tarefa cognitiva envolvente, com alcance e amplitude suficientes para manter seu interesse e atenção, sem causar excitação física ou emocional. Portanto, nada muito assustador, excitante ou estressante.

Por exemplo, se você gosta de decoração de interiores, pode se imaginar redesenhando um cômodo da sua casa. Se você é um amante do futebol, pode repetir mentalmente uma parte do jogo ou planejar uma nova tática.

Não importa o que você escolha, certifique-se de que é algo que se adapta a você e aos seus interesses. A tarefa precisa ser prazerosa, sem ser muito estimulante.

A reorientação cognitiva não é a solução perfeita, mas pode ajudar.

Um estudo feito com pessoas que têm insônia descobriu que aqueles que tentaram fazer uma reorientação cognitiva demonstraram uma melhora significativa nos sintomas de insônia, em comparação com o grupo de controle.

Meditação e atenção plena

Outra técnica antiga é a meditação ou atenção plena.

Praticar meditação pode aumentar nossa autoconsciência e nos tornar mais conscientes de nossas ideias. Isso pode nos ajudar com pensamentos ruminativos (repetitivos).

Muitas vezes, quando tentamos bloquear ou interromper os pensamentos, a situação pode piorar.

O treinamento nesta prática pode nos ajudar a reconhecer quando estamos entrando em uma espiral de pensamentos ruminantes e nos ajudam a dar um passo para trás, quase como se fôssemos um espectador passivo.

Trata-se de observar seus pensamentos, sem julgá-los. Você pode até dizer “olá” aos seus pensamentos e deixá-los passar e ir embora. Deixe-os estarem lá e veja o que realmente são: apenas pensamentos, nada mais.

A pesquisa do nosso grupo mostrou que as terapias baseadas na atenção plena podem ajudar no tratamento da insônia.

Elas também podem ajudar no sono pessoas com problemas psiquiátricos, como transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo e esquizofrenia.

O que você pode fazer para aliviar seus pensamentos antes de dormir?

Um bom sono começa no momento em que você acorda. Para ter mais chances de ter uma boa noite de sono, comece levantando-se na mesma hora todos os dias e expondo-se ao sol da manhã (independentemente do quanto dormiu na noite anterior).

Tenha um horário de dormir consistente, reduza o uso de tecnologia à noite e faça exercícios regularmente durante o dia.

Se sua mente estiver ocupada quando você for dormir, tente praticar a reorientação cognitiva.

Escolha um “cenário falso” que prenda sua atenção, mas que não seja assustador ou estimulante.

Pratique esse cenário em sua mente quando for dormir e aproveite a experiência.

Você também pode tentar:

  • Manter uma rotina consistente de horário para dormir para que seu cérebro possa relaxar
  • Anotar suas preocupações em algum momento do dia (para não pensar nelas quando for dormir)
  • Adotar uma mentalidade mais compassiva (não se castigar na hora de dormir por seus defeitos imaginados)

*Melinda Jackson é professora associada do Instituto Turner para a Saúde Mental e do Cérebro, da Escola de Ciências Psicológicas da Universidade de Monash, na Austrália. Hailey Meaklim é psicóloga e pesquisadora do sono na Universidade de Melbourne, também na Austrália.

*Este artigo foi publicado no The Conversation e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original.

FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgl3vpk2rdgo

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

A Consequência da Repressão Emocional na Saúde Mental dos Jovens

 


Em uma sociedade que frequentemente valoriza a aparência de força e controle emocional, muitos jovens são ensinados desde cedo a reprimir suas emoções. No entanto, essa postura errônea está causando sérios problemas na saúde mental dessa geração. A repressão emocional, muitas vezes vista como uma virtude, pode ter efeitos negativos profundos e duradouros. A pressão social para parecer forte e inabalável é uma constante na vida dos jovens. Isso cria a falsa noção de que mostrar vulnerabilidade é sinal de fraqueza, levando muitos a esconderem seus sentimentos genuínos. 

Quando as emoções são reprimidas repetidamente, elas não desaparecem; em vez disso, acumulam-se como uma pressão interna. Esse acúmulo pode levar a problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e explosões emocionais.

A repressão emocional também afeta as relações pessoais, uma vez que a dificuldade em expressar sentimentos pode levar a mal-entendidos e distanciamento entre amigos, familiares e parceiros. Ao negar suas emoções, os jovens muitas vezes perdem a autenticidade em suas vidas. Eles podem se tornar desconectados de seus próprios sentimentos, o que prejudica a autorreflexão e o crescimento pessoal. 

A capacidade de reconhecer e comunicar sentimentos é essencial para o desenvolvimento emocional saudável. É importante que os jovens compreendam que buscar ajuda profissional não é vergonha. Psicoterapeutas e conselheiros podem fornecer orientação e ferramentas para lidar com emoções de maneira saudável.

É necessário um esforço coletivo para mudar essa narrativa prejudicial. A educação sobre saúde mental nas escolas e conversas abertas em casa e na sociedade são fundamentais. Para preservar a saúde mental dos jovens, é crucial que eles aprendam a aceitar e abraçar sua própria humanidade, incluindo suas emoções. Isso não só os tornará mais resilientes, mas também promoverá uma sociedade mais empática e saudável como um todo.
FONTE:https://www.aquiacontece.com.br/post/blog-da-juventude/02/10/2023/a-consequencia-da-repressao-emocional-na-saude-mental-dos-jovens/199103

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

255 MIL

 

Quando iniciei esse blog no dia 18 de outubro de 2011, sinceramente, não tinha a dimensão da importância que o mesmo teria na vida de muitas pessoas. Recebo muitos e-mails de estudantes, professores, enfermeiros, médicos, psicólogos, falando sobre como encontraram aqui no egolegal, material para suas pesquisas.

Quero agradecer à todos(as) colaboradores(as) que nestes anos, me ajudaram à construir esse sonho. São duzentas e cinquenta e cinco mil visualizações ! 

Muito me honra a participação de vocês. Que venham mais e mais visualizações e que o horizonte seja sempre calmo e seguro para todos nós. 

Enfermeiro Marcelo Pereira. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

As famílias que sofreram impactos profundos devido ao uso de antidepressivos.


 BBC News Mundo

 

Os antidepressivos são os medicamentos mais comumente prescritos para transtornos mentais, como depressão e ansiedade.

Eles são prescritos também para uma série de outras condições, como insônia, dor, enxaqueca e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

Nos Estados Unidos, por exemplo, 13% dos adultos com 18 anos ou mais tomam algum medicamento antidepressivo, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) do país.

No Reino Unido, o percentual chega a 14,7%, segundo o último censo demográfico, de 2021.

No Brasil, dados do Conselho Federal de Farmácia mostram que a venda desses medicamentos cresceu cerca de 58% entre os anos de 2017 e 2021.

Em um documentário veiculado pela BBC no início de agosto, com título Are My Antidepressants Worth It? ("Os meus antidepressivos valem a pena?"), vários jovens e famílias relataram que não receberam conselhos ou informações adequadas sobre os possíveis efeitos colaterais de antidepressivos prescritos.

Dylan Stallan era um adolescente quando começou a receber tratamento para dismorfia corporal e depressão.

"Ele estava lutando com a maneira como se sentia sobre si mesmo, com sua aparência", conta a mãe dele, Seonaid Stallan.

"Ele estava extremamente ansioso e ficava fisicamente doente. Ele não conseguia sair de casa."

Aos 16 anos, Dylan recebeu a prescrição médica de um tipo de antidepressivo e, quando ele completou 18 anos, a medicação foi alterada para outro medicamento voltado para sintomas de depressão e ansiedade.

Dois meses depois que o tratamento foi alterado, Dylan cometeu suicídio.

Seonaid diz que, quando a troca de medicamentos foi feita, ninguém os alertou sobre possíveis efeitos colaterais.

Ela estava presente na consulta com seu filho e diz à BBC que eles não foram informados de que, antes de melhorar, o jovem poderia se sentir pior com o novo medicamento.

E apesar de as diretrizes de saúde do Reino Unido dizerem que é melhor evitar o álcool ao iniciar o tratamento com o tipo de medicamento que ele tomou, e de a bula alertar isso também, a mãe diz que Dylan foi informado de que não havia problema em beber álcool enquanto tomava o novo antidepressivo.

Seonaid conta que, na noite anterior ao suicídio do filho, em 2015, ele havia bebido uma "quantidade considerável" de álcool.

Segundo a mãe, Dylan não havia expressado pensamentos suicidas antes de iniciar o novo tratamento.

A clínica particular onde Dylan foi tratado disse à BBC que ficou "profundamente triste" com a morte do jovem e expressou condolências à família.

A eficácia dos antidepressivos em menores de 18 anos ainda não é totalmente conhecida. Em vários países, como os Estados Unidos e o Reino Unido, apenas um ou dois desses medicamentos são prescritos nessa faixa etária.

Quando uma pessoa completa 18 anos, no entanto, pode ser prescrito qualquer antidepressivo, como foi o caso de Dylan.

Existem algumas evidências de ensaios clínicos que sugerem que o risco de suicídio em pessoas com idade entre 18 e 24 anos aumenta ao tomar esses medicamentos.

Impactos na vida sexual

Os possíveis efeitos colaterais físicos e mentais dos antidepressivos vão desde dores de cabeça e confusão mental a efeitos mais graves, como perda da função sexual e pensamentos suicidas.

Bernadka Dubicka, professora de psiquiatria infanto-juvenil da Universidade de Hull, na Inglaterra, diz que sempre que um paciente receber a indicação de tomar antidepressivos, independentemente da idade, deve ser informado sobre os efeitos colaterais.

“Os dados parecem mostrar que, até os 25 anos de idade, um em cada 50 jovens que tomam um antidepressivo pode experimentar, nas primeiras semanas [de tratamento com o remédio], um aumento de pensamentos suicidas e de automutilação”, explicou a especialista à BBC.

Seonaid acredita que, à medida que as taxas de prescrição de antidepressivos aumentam, melhorias nas pesquisas e na compreensão dos efeitos colaterais podem salvar vidas.

A BBC conversou com mais de cem pessoas que usaram ou estão usando antidepressivos. Todas relataram algum tipo de efeito colateral.

Para alguns, os antidepressivos tiveram um impacto profundo e negativo na vida sexual.

Connor — nome fictício de um homem que falou conosco e preferiu omitir sua identidade — descreveu à BBC o impacto que os medicamentos tiveram em seu corpo.

Ele começou a tomar um antidepressivo aos 30 anos e, agora, sofre do que é conhecido como PSSD (Disfunção Sexual Pós-Antidepressivos), ou disfunção sexual pós-ISRS.

ISRS, ou inibidor seletivo da recaptação da serotonina, é uma classe de antidepressivo que inclui a maioria dos antidepressivos usados atualmente.

Connor conta que, 24 horas após a primeira pílula, seu desejo sexual desapareceu, enquanto passou a sentir sintomas físicos extremos.

Doze meses depois de parar de tomar antidepressivos, os sintomas persistem.

"Ainda sinto dormência nos órgãos genitais", diz ele. "Sou basicamente assexual. Não sinto atração."

"Quando me considerava uma pessoa deprimida, tinha uma vida sexual muito saudável."

Connor é uma das mais de 1.000 pessoas que fazem parte da PSSD Network, uma comunidade online que começou a aumentar a conscientização sobre a condição, que não é reconhecida oficialmente pelo sistema de saúde do Reino Unido, onde ele vive.

Connor diz que os antidepressivos "destruíram completamente" a vida dele.

O médico Ben Davis, especialista em medicina do sexo, afirma que dificuldades nesse campo são comuns quando se toma antidepressivos.

"Sabemos que uma em cada duas pessoas com depressão terá alguma dificuldade com o sexo", explica Davis. "Mas também há evidências de que até oito em cada 10 pessoas experimentam dificuldades sexuais com antidepressivos".

Antidepressivos 'salvaram a minha vida'

Elliott Brown, um comediante londrino, toma antidepressivos desde os 16 anos.

Ele também teve como efeito colateral a diminuição da libido.

"Em termos de desejo sexual, fica muito maior quando eu paro [de tomar os medicamentos]", diz ele.

"Seus parceiros em potencial podem pensar que você não os considera tão atraentes. Esse é o momento que você tem para ser honesto."

Brown diz que, apesar dos efeitos colaterais, os benefícios que teve com os antidepressivos valeram a pena e salvaram sua vida.

"Acho que não estaria aqui sem eles", diz o comediante.

"Acho que é mais importante querer estar aqui e estar com pessoas queridas do que fazer sexo de vez em quando ou, no meu caso, muito raramente."

FONTE:  https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjldzzjxdkwo

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Por que tantos adultos estão tomando remédio para tratar TDAH?

 Margaret Sibley

Sendo eu uma mulher na casa dos 30 anos que frequentemente digitava "TDAH" no meu computador, algo intrigante ocorreu em 2021. Fui surpreendida por uma série de anúncios online, todos relacionados ao TDAH, ou seja, ao transtorno de déficit de atenção com hiperatividade.

A razão pela qual o termo "TDAH" se tornou uma presença constante na minha vida digital decorre do fato de eu ser uma psicóloga clínica que se dedica exclusivamente a tratar pacientes com TDAH.

Além disso, desfruto da posição de pesquisadora psiquiátrica na Escola de Medicina da Universidade de Washington, onde investigo as tendências do TDAH ao longo da vida.

Esses anúncios representavam uma nova e impressionante tendência. No ano seguinte, em outubro de 2022, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (U.S. Food and Drug Administration) anunciou uma escassez nacional de sais mistos de anfetaminas, os quais são comercializados sob a marca Adderall.

Apesar do aumento da consciência em relação ao TDAH nas últimas duas décadas, a realidade é que muitas pessoas, especialmente mulheres e indivíduos de grupos étnicos minoritários, não recebem diagnóstico de TDAH durante a infância.

Ao contrário da depressão ou ansiedade, diagnosticar o TDAH em adultos é uma tarefa complexa.

Uma pessoa comum pode apresentar alguns sintomas que lembram o TDAH, o que torna desafiador distinguir entre características semelhantes ao TDAH - como esquecer chaves, manter uma mesa desorganizada ou ter a mente vagando durante tarefas monótonas - e um transtorno médico que requer diagnóstico.

Uma vez que não existe um teste objetivo para diagnosticar o TDAH, os médicos frequentemente realizam entrevistas estruturadas com os pacientes, coletam informações de familiares por meio de escalas de avaliação e analisam registros médicos para chegar a um diagnóstico preciso.

O diagnóstico preciso exige um profissional de saúde habilidoso e bem treinado, disposto a investir o tempo necessário para coletar minuciosamente o histórico do paciente.

No ano de 2021, os EUA ainda estavam no ápice da pandemia. As pessoas estavam enfrentando perdas de emprego, desafios financeiros e as complexidades do trabalho remoto, enquanto equilibravam responsabilidades como a educação online de seus filhos. Insegurança e incerteza eram sentimentos generalizados, com muitas famílias lamentando a perda de entes queridos.

Em 2021 a hashtag #ADHD se tornou uma tendência relevante no TikTok, com relatos divertidos sobre perdas de objetos, procrastinação e características do TDAH.

Entretanto, mesmo com a proliferação de conteúdo online relacionado ao TDAH, uma pesquisa conduzida no Canadá classificou os vídeos do TikTok com a hashtag #ADHD em categorias baseadas em precisão e utilidade. O achado foi notável: a maioria dos vídeos era imprecisa. Somente 21% das postagens ofereciam informações corretas e úteis.

Dessa forma, em meio à comunidade online em crescimento, muitas pessoas recentemente diagnosticadas com TDAH podem não estar de fato sofrendo da condição. Para alguns, a cibocondria - uma ansiedade relacionada à saúde após pesquisas online - poderia ter surgido.

Como eram o tratamento de TDAH em 2021

Em 2021, o sistema de saúde mental dos EUA enfrentava um cenário desafiador. A maioria dos prestadores de serviços tradicionais para o TDAH, como psiquiatras, psicólogos, terapeutas de saúde mental e enfermeiras psiquiátricas, tinham listas de espera com meses de antecedência para novos pacientes.

Indivíduos em busca de ajuda recente para o TDAH começaram a encontrar consultas mais ágeis com seus médicos de atenção primária, que por vezes estavam ou não confortáveis em diagnosticar e tratar o TDAH em adultos.

Diante do aumento na demanda por cuidados de TDAH, novas opções eram necessárias para atender às necessidades dos pacientes.

Caso essas tendências se estabilizem, isso poderia indicar que os pacientes que anteriormente enfrentaram dificuldades de acesso aos cuidados finalmente terão a oportunidade de receber a ajuda necessária.

No entanto, se as prescrições para o TDAH retornarem aos níveis pré-pandêmicos, poderemos entender que uma combinação de fatores ligados à pandemia de covid-19 causou um pico momentâneo nas buscas por tratamento do TDAH.

O que fica evidente é que a atual escassez de profissionais de saúde mental confortáveis em diagnosticar e tratar o TDAH em adultos continuará a afetar a capacidade de novos pacientes de receber uma avaliação diagnóstica apropriada para o TDAH.

* Margaret Sibley é professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais na University of Washington.

FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3g8d5pj08go