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quarta-feira, 21 de junho de 2023

RESULTADO DE UMA TARDE MÁGICA DE CONHECIMENTO SOBRE O AUTOCUIDADO DO CUIDADOR.

 

 Psicóloga Noely Correa e a Coordenadora de Cuidado de Idosos Laiza Ferreira de Alcântara

No dia 16.6.2023, aconteceu a ação no Centro de Ensino Profissional Graziela Reis de Souza e na oportunidade ocorreu a palestra ministrada pela Psicóloga Noely Correa Souza Pereira, com apoio de Edeilson da Silva Ramos. O tema apresentado para um grupo de 100 participantes foi: “Cuidando do Cuidador: Aspectos Psicológicos para manter o equilíbrio emocional". 

Na equipe de escuta Psicológica contamos com a participação das psicólogas Kissia Tamires, Diomar Santos e Ana Praseres.

A experiência foi incrível e oportuna para discutir com o grupo pontos importantes do autocuidado. Como atentar-se para a própria saúde mental é o primeiro passo antes de se responsabilizar pelo outro, condições e dimensões do cuidar, dimensões emocionais, dimensões relacionais. Também trabalhamos o viés profissional da saúde (é aquele que cuida e merece ser cuidado) etc.

Durante a palestra os presentes participaram com afinco de todos os pontos discutidos e deram exemplos de vida e profissionais o que enriqueceu significativamente o momento. E para finalizar a Psicóloga Ana Mira Praseres mediou um momento de relaxamento dando oportunidade de os participantes refletirem sobre seu futuro. Esses momentos de troca enriquecem bastante a aprendizagem de todos que estão nesse processo. 


 Dessa experiência resultou na construção de um grupo de WhatsApp dos futuros Cuidadores de Idosos, que no momento oportuno participaram de eventos referente a temáticas voltadas para a categoria, ou seja, serão profissionais que trarão em seus currículos uma formação diferenciada. As formações serão trabalhadas pela Psicóloga Noely Corrêa e parceiros.


 

 

Ação social no Centro Graziela - Psicóloga Ana Mira Praseres.

Psicóloga Ana Mira Praseres

 Na sexta feira dia 16 de junho,  no Centro de Ensino Profissional Graziela Reis de Souza, a clínica Sistêmica Instituto da Mente através de seus profissionais Noely Correa, Ana Mira Praseres e Edeilson Ramos, participou com Escuta Ativa e palestra ministrada pela Psicóloga Noely Corrêa com o objetivo de promover ações para a preservação da qualidade de vida dos cuidadores, a importância de olhar para o este profissional que desempenha um papel fundamental no contexto da saúde do idoso,  e que esse profissional precisa estar bem emocionalmente para execução das tarefa que lhes compete.

Seu principal objetivo é fornecer assistência física, emocional,  social, e ajudar o idoso a realizar atividades diárias requer do cuidador esforço físico  e emocional precisa de orientação e suporte dos profissionais da saúde para o idoso e para ele próprio, orientação para a atenção com sua saúde mental, onde ele é convidado a desenvolver habilidades de autoconhecimento, autorregulação emocional, autocontrole e sensibilidade social para manter o seu próprio bem estar. 

 É de suma importância a ampliação de ações que tenham o cuidador como sujeito principal, para que essa atividade seja reconhecida e investida em práticas adequadas, trazendo benefícios para quem cuida e quem é cuidado. O Centro de Ensino Profissional Graziela Reis de Souza, além de formar traz consigo a responsabilidade de contribuir com palestras e outras ações para ajudar estes profissionais à estarem bem.

 

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Ação social no Centro Graziela Reis de Souza. Palestra: Cuidando do Cuidador.


 Foi realizado no dia 16 de junho de 2023 no Centro Graziela Reis de Souza, uma ação social envolvendo o corpo discente e docente da Instituição. Na oportunidade houve a palestra: Cuidando do Cuidador, no aspecto psicológico, com a participação das Psicólogas Noely Corrêa e Ana Praseres. Na Esculta Psicológica estiveram presentes o Psicólogo Edeilson da Silva Ramos, Kissia Tamiris da Silva e Diomar dos Santos Barros.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Porque as meninas sofrem mais com as mídias sociais?

 

Ángel Bermúdez

  • Role, BBC News Mundo
  • Twitter,

    Alguns dizem que é uma emergência de saúde pública — e os números certamente indicam que algo está acontecendo.

    As adolescentes nos Estados Unidos estão experimentando níveis sem precedentes de tristeza e ansiedade.

    Um estudo do Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC), com dados de 2021, indica que quase três em cada cinco meninas adolescentes relataram sentir-se constantemente tristes ou sem esperança, o que representa um aumento de quase 60% em relação a 2011, quando 36% das mulheres jovens disseram que se sentiam assim.

    No caso dos meninos também houve piora, mas bem menor, já que o número dos que relataram esses sentimentos negativos passou de 21% para 29% no mesmo período.

    Outro indicador preocupante do estudo é o aumento do número de adolescentes que consideraram seriamente o suicídio: uma em cada três, o que representa um aumento de quase 60% em relação a 2011 e o dobro do número de meninos (14%).

    Embora as autoridades de saúde apontem que o alto risco de suicídio, depressão, uso de drogas e outros problemas em adolescentes pode responder a uma mistura de vários fatores, os especialistas destacam o papel das redes sociais na deterioração da saúde mental dos jovens .

    Entre esses especialistas está Donna Jackson Nakazawa, escritora especializada em neurociência, imunologia e emoção, que, no final de 2022, publicou o livro Girls on the Brink ("Garotas no Limite", em tradução livre; sem edição brasileira), no qual explora essa situação.

    Nesta conversa com a BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, a autora explica as causas biológicas, sociais e culturais por trás do aumento chocante do número de adolescentes com problemas de depressão e ansiedade nos Estados Unidos.

    BBC News Mundo - O diretor-geral de saúde dos EUA, a mais alta autoridade do país na área, emitiu um alerta sobre os efeitos negativos que as redes sociais podem ter na saúde mental dos jovens. Em seu livro Girls on the Brink, você aponta que a situação é muito pior para as meninas. Por que isso acontece?

    Donna Jackson Nakazawa - O estresse acumulado ao longo do desenvolvimento é muito difícil para todos os jovens. Quando há muito estresse não mitigado, começam a ocorrer mudanças em áreas do cérebro como o córtex pré-frontal e o hipocampo, onde abrigamos nossas memórias.

    Também há mudanças na área que chamamos de rede neural padrão, associada ao nosso senso de quem somos no mundo. Somos uma boa pessoa? Temos oportunidades? Como lidamos com essa narrativa sobre nós mesmos? Acreditamos em nós mesmos? Sentimo-nos desesperados ou tristes? Além disso, vemos mudanças na amígdala, aquela área em forma de amêndoa na parte superior do cérebro. Isso é como uma central de alarme e é diferente em meninas e meninos. Lembre-se de que isso ocorre diante de um estresse incessante.

    Nas meninas, vemos sua amígdala crescendo e associamos isso a ruminar, a ficar presa aos mesmos pensamentos e repeti-los. As diferenças são sempre mostradas nas áreas do cérebro mais relacionadas à execução de ações.

    Agora inclua as redes sociais. As meninas estão mais nas redes sociais do que os meninos. Sabemos que, mesmo que passem o mesmo tempo online que os homens, é mais provável que acabem se sentindo deprimidas, ansiosas, sem esperança e persistentemente tristes.

    Em parte, isso tem causas externas. O que as meninas encontram nas redes sociais tem um teor muito mais sexista. É mais provável que sejam informações sobre seus corpos, seus rostos, sua pele, suas roupas, como elas se comparam fisicamente a algum falso ideal feminino sob o olhar masculino do que é perfeição, do que é aceitável e do que não é. Então a carga que elas recebem é maior.

    Elas também são mais propensas a enfrentar essa dicotomia de (como me disseram milhares de garotas em todo o país) "se eu quiser ser popular, tenho que ser sexy e se eu quiser ser sexy, mesmo que eu tenha 11 ou 13 anos, tenho que fingir que sou sexualmente madura. Mas, quando faço isso, também tenho esse bando de caras nojentos que me sexualizam como se eu fosse uma mulher adulta." Elas são assediadas online, são alvos de comentários. Conversei com muitas jovens. Elas não querem estar online do jeito que estão. Elas querem a ajuda de um adulto para se desconectar.

    As redes sociais mais populares agora, como TikTok e Instagram, postam vídeos e imagens. E as imagens têm um impacto muito mais rápido do que as palavras no cérebro em desenvolvimento.

    Há muitas pesquisas que mostram que, quanto mais você vê algo que é popular na internet, mais isso te dessensibiliza. E isso desliga o filtro de prevenção do cérebro que diz aos jovens que algo pode ser ruim. É provavelmente por isso que, como disse o diretor-geral de saúde dos EUA, quando os jovens veem na internet alguém que se automutila, é mais provável que imitem e reproduzam esse comportamento.

    BBC News Mundo - Que outros efeitos isso tem no cérebro das meninas?

    Nakazawa - Vamos voltar ao que eu disse sobre ruminar. Os cérebros das meninas são mais propensos a ficar presos nesse processo. Quando você está sob estresse na vida adulta, há mudanças em seu corpo que levam a uma série de inflamações em cascata. O cérebro e o corpo produzem mais substâncias químicas e hormônios do estresse. E com o tempo, quando permanecem elevados, começam a produzir mudanças que podemos ver nas varreduras cerebrais: mudanças na conectividade cerebral nas áreas importantes que mencionei. E não queremos ver isso.

    Quando você rumina sobre um evento — sofrer bullying online, comentários sobre seu corpo ou ser excluída de círculos sociais, por exemplo — e o repassa para sua mente, o efeito é como se ainda estivesse acontecendo: seu corpo e seu cérebro absorvem o golpe como se estivesse acontecendo em tempo real.

    Ameaças sociais são particularmente prejudiciais para o cérebro em desenvolvimento porque, durante a maior parte de nosso tempo evolutivo como humanos, precisamos de muita cooperação e comunicação para conviver, sobreviver e criar nossos filhos. Ser desprezado ou condenado ao ostracismo era fisicamente perigoso porque significava a possibilidade de ser deixado de fora da tribo, tornando mais provável que você fosse vítima de predadores. O sistema imunológico entrava em frenesi ao estar tão exposto.

    Assim, nosso sistema imunológico desenvolveu o primeiro sinal de uma ameaça socioemocional. Essa "cascata" de hormônios e substâncias químicas de que falei acelera o sistema imunológico para que causem danos ao corpo e ao cérebro ao primeiro sinal dessa hostilidade social. E o que são redes sociais? Uma repetição daquela possível hostilidade social, acontecendo o tempo todo.

    Os algoritmos das redes existem para fisgar o cérebro com algo que te mobilize, para que você volte sempre, para buscar a possibilidade de pertencimento. Mas você é dominado repetidamente por sentimentos de não pertencimento, de não se importar, de raiva, de desdém. E, como as meninas passam mais tempo nessas plataformas, isso se reflete em pesquisas como o relatório do CDC: 57% das meninas relatam que se sentem persistentemente tristes e sem esperança.

    BBC News Mundo - Como esse quadro atual se compara com dados anteriores? E que outro fator poderia piorar tanto a situação das meninas?

    Nakazawa -Entrando na puberdade, sempre houve uma disparidade na qual as meninas são mais propensas a desenvolver depressão do que os meninos. Isso já acontecia antes mesmo das redes sociais. Isso ocorre em parte porque os hormônios entram em ação na puberdade, e o estrogênio aumenta a resposta ao estresse de uma forma que a testosterona não faz.

    Muitos estudos mostram que as mulheres desenvolvem uma resposta maior ao estresse. Elas têm uma resposta maior às vacinas e são mais propensas a desenvolver doenças autoimunes do que os homens. E parte da razão é que a resposta feminina ao estresse na puberdade é intensificada pelo estrogênio. Isso também tem um efeito protetor, para que um dia possam carregar outra vida humana dentro de si.

    Você mencionou os aspectos negativos que afetam as meninas, mas li que você disse que o cérebro das adolescentes também pode se tornar um superpoder.

    Quem já criou uma adolescente sabe que elas têm um sexto sentido completamente inigualável. São as garotas que podem olhar ao redor de uma sala com uma espécie de "sentido aranha" e saber exatamente o que está acontecendo. E sabemos que no cérebro feminino adolescente o corpo caloso que conecta os dois lados do cérebro é realmente espesso e rico. O cérebro adolescente feminino se desenvolve um pouco mais cedo do que o masculino.

    O que é realmente sensacional é que, quando removemos algumas das coisas que estressam nossos filhos e as substituímos por segurança psicológica, o cérebro nessa idade é extremamente plástico, aberto a possibilidades e pronto para disparar e se conectar novamente.

    Para fazer isso, à medida que esses estressores psicológicos aumentam, temos que construir mais segurança psicológica e tornar o mundo real — a conexão conosco mesmos, com os adultos em suas vidas, com seus professores, com suas comunidades — mais profundo. Já conversei com milhares de garotas e posso dizer o seguinte: mesmo para uma garota muito querida, o senso de quem ela no mundo e para as pessoas é diminuirá com o tempo se ela ficar muito na internet.

    Queremos ajudar nossos filhos a parar de ruminar, a não ficarem presos em um pensamento, por isso queremos garantir que eles tenham as habilidades para fazer isso. Quando falo com garotas em minhas conferências, sempre digo a elas: "Você precisa se perguntar, o que seu corpo significa? Do que sua mente precisa?" Nós realmente queremos expandir as habilidades de nossas filhas para reformular seu pensamento.

    O mindfulness [atenção plena], o mover de seus corpos, a avaliação de seus sistemas nervosos . Nas conferências, todos querem que eu fale sobre resiliência. Bem, resiliência é realmente estar ciente do estado em que seu corpo está. Como está meu sistema nervoso? Estou realmente estressado? Estou ativado ou estou calmo e em paz? Reconheça esse estado e então tenha ferramentas para retornar a um estado de bem-estar.

    E queremos construir essas ferramentas que podem incluir qualquer coisa, desde conversar com um adulto ou mentor, fazer ioga, meditar, correr, caminhar na natureza, fazer um diário e respirar fundo.

    Queremos garantir que eles tenham essas habilidades para avaliar seu sistema nervoso, descobrir o que desejam e o que precisam para voltar a um estado de bem-estar. Eles precisam de nós, porque pegam emprestado nosso estado de estresse. Eles pegam emprestada nossa neurobiologia. A frequência cardíaca dos jovens se alinha com a dos adultos ao seu redor. Eles começam a se acalmar, quando nos acalmamos, mas também precisamos ensiná-los a ter essas habilidades.

    As meninas precisam ser ensinadas a responder a vozes sexistas porque esse é um estressor que elas enfrentam e é amplificado online, como ter um tio que faz piadas sexistas. Existem estudos em faculdades e escolas de ensino médio que mostram que quando as meninas aprendem a responder — em ambientes onde podem fazer isso com segurança porque nem sempre é o caso, como sabemos pela violência contra as mulheres — elas se saem melhor, se sentem menos desesperadas, menos tristes.

    A educação sobre as mídias sociais precisa ser desenvolvida. A coisa mais importante e útil que podemos fazer para ajudá-los a se desconectar é fazê-los pensar criticamente:  Por que esses posts no TikTok que tiram sarro dos corpos das meninas? Por que as contas das garotas que se sexualizam são tão populares? O que há de errado nisso? Como elas se sentem depois de usar esses aplicativos? Você se sente melhor consigo mesma? Você sente mais medo? Você se sente mais sozinha?

    As redes sociais são projetadas para produzir grandes emoções. E eles favorecem falsidades positivas e negativas. No primeiro caso, parece que está tudo ótimo: “Olha como eu sou linda, meu mundo é maravilhoso”. Na segunda, focam no negativo, nas divisões, na vergonha, no cancelamento das pessoas.

    Quando estiverem online, ajude-as a entender bem como se sentem em resposta ao que veem. A vida dessas pessoas é sempre tão positiva? Como isso faz você se sentir sobre si mesmo? Você acha que é verdade? Ajude-os a avaliar seu sistema nervoso, porque se você se sentir deprimido e sentir que não está preparado para isso, se você se sentir feio, não é bom o suficiente ou está sendo social ou emocionalmente excluído, isso irá acelerar seu sistema imunológico em maneiras que são muito ruins para o cérebro e isso é um sinal de que você está sendo usado.

    Por fim, seu telefone não precisa ser seu relógio e despertador. Temos que recuperar a vida familiar normal longe da tecnologia.

    FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9x9dzl5p4po


     


     

    quarta-feira, 24 de maio de 2023

    Algumas pessoas são mais propensas à se tornarem viciadas?

     Isabelle Gerretsen

     Role, BBC Future

    Nos anos 1990, algumas empresas farmacêuticas começaram a usar a expressão "personalidade adictiva" — talvez ironicamente, para promover medicações anestésicas que causam dependência.

    Na campanha de marketing para o opioide controlado OxyContin, por exemplo, a companhia farmacêutica americana Purdue Pharma instruiu seus representantes a dizer aos médicos que apenas pessoas com "personalidade adictiva" corriam risco de desenvolver dependência, mesmo sabendo que a droga era altamente viciante e que o abuso da substância era frequente.

    Drogas que são fortes causadoras de dependência, como o OxyContin e o opioide fentanil, são consideradas responsáveis por alimentar a crise dos opioides nos Estados Unidos, que causou mais de meio milhão de mortes entre 1999 e 2020.

    A ideia de que a sua personalidade determina se você vai desenvolver ou não dependência em relação a uma substância "atendia muito bem a indústria farmacêutica", afirma Ian Hamilton, professor especializados em vícios da Universidade de York, no Reino Unido.

    "A mensagem é: 'Se você é fraco o suficiente para desenvolver um problema com o nosso produto, é devido à sua personalidade, não tem nada a ver conosco."

    Mas essa personalidade adictiva existe na realidade? Existem pessoas que realmente são mais propensas a desenvolver dependência?

    Muitos psiquiatras e especialistas em dependência afirmam que não há evidências científicas que sustentem essa ideia. Eles também alertam que este é um conceito prejudicial, pois indica que as pessoas têm pouco ou nenhum controle sobre a dependência.

    Eles ressaltam que há algumas relações entre certos traços de personalidade e a adicção, mas que elas são muito mais complexas do que o indicado frequentemente pela expressão "personalidade adictiva".

    Sintoma de outros problemas 

    O renomado professor de dependência comportamental Mark Griffiths, da Universidade Nottingham Trent, no Reino Unido, descreve a "personalidade adictiva" como um "completo mito".

    "Para haver algo como a personalidade adictiva, o que você está dizendo é que existe uma característica que prevê a adicção e somente a adicção", afirma Griffiths.

    "Não há evidências científicas de que haja uma característica que preveja a adicção e somente a adicção."

    A personalidade adictiva "é uma forma de pensar preto no branco sobre algo que é muito complexo", diz o psiquiatra Anshul Swami, especialista em saúde mental e dependência do Hospital Nightingale, em Londres.

    "Não existe um tipo de personalidade [que preveja a adicção], e não há dois dependentes iguais.”

    Isso não quer dizer que certas características de personalidade não estejam associadas "à aquisição, desenvolvimento e manutenção de comportamentos adictivos", afirma Griffiths.

    O neuroticismo, por exemplo, costuma ser associado a muitas formas de dependência. O neuroticismo é um dos Cinco Grandes traços de personalidade. Ele define até que ponto uma pessoa reage a ameaças percebidas e situações de estresse.

    Pessoas altamente neuróticas são ansiosas e propensas a ter pensamentos negativos.

    Segundo uma análise de 175 estudos, os transtornos de abuso de substâncias são associados a altos níveis de neuroticismo e baixos níveis de conscienciosidade (até que ponto uma pessoa demonstra autocontrole). E pesquisas concluíram que vícios de comportamento, como a compulsão por compras e a dependência da internet e de exercícios físicos, também são associados ao neuroticismo.

    Para ele, "as pessoas tendem a adotar comportamentos adictivos ou usar substâncias como forma de gerenciar seus traços neuróticos. A maioria das dependências é questão de lidar [com as situações], e elas são sintomas de outros problemas subjacentes, como a depressão ou o neuroticismo."

    Mas Griffiths afirma que não existem pesquisas que demonstrem que todas as pessoas com dependência sofrem de neuroticismo.

    "O que você vê são altos índices de depressão ou ansiedade entre as pessoas que se tornam dependentes de drogas. Mas passa a ser a questão do ovo e da galinha", afirma.

    "Foi o neuroticismo que levou a pessoa para a droga ou a sua dependência de cocaína por um longo período de tempo prejudicou o seu estado de espírito?"

    Para Swami, as dependências "têm muitas nuances e fatores".

    Pesquisas indicam que as dependências podem ser influenciadas pela genética e por uma ampla variedade de fatores ambientais, incluindo a pressão dos colegas, exposição precoce a substâncias e abusos físicos ou sexuais.

    Um estudo de 2018 concluiu que o antigo retrovírus HK2, que fica próximo do gene envolvido na liberação da substância dopamina, é mais frequentemente encontrado em dependentes de drogas.

    Os pesquisadores concluíram que pessoas que sofrem de transtornos de abuso de substâncias apresentam de duas a três vezes mais chance de ter o HK2 integrado em seu genoma, indicando uma forte associação com a dependência.

    Swami ressalta que este estudo não fornece nenhuma evidência de que algumas pessoas possuem uma "personalidade mais adictiva" do que outras.

    "Esta descoberta preliminar sobre o HK2 não explica por que cada vez mais pacientes desenvolvem dependência mais tarde na vida", afirma.

    "Se eles tivessem [o HK2], e ele fosse associado ou causador [da dependência], certamente ela se expressaria mais cedo."

    O gênero é outro fator de risco para o desenvolvimento de dependência. Nos Estados Unidos, 11,5% dos homens e meninos sofrem com o abuso de substâncias, em comparação com 6,4% das mulheres e meninas.

    As razões são várias, segundo Hamilton.

    "Os homens, principalmente os adolescentes, tendem a correr mais riscos e ser mais impulsivos", afirma.

    A impulsividade é outra característica associada à adicção. Mas Hamilton alerta que a subnotificação pode ser significativa, já que a quantidade de mulheres que buscam tratamento é menor, por questões relacionadas ao cuidado dos filhos e à estigmatização.

    Pesquisas mostram que o ambiente e a criação de uma pessoa também influenciam bastante o risco de desenvolver dependência.

    Um estudo concluiu que usuários de opioides têm 2,7 vezes mais chance de ter um histórico de abuso na infância, seja sexual, físico ou ambos, do que não usuários.

    Pessoas que sofreram quatro experiências adversas na infância, como abuso físico, sexual ou emocional, ou a perda de um dos pais, apresentam três vezes mais chance de desenvolver problemas com álcool na idade adulta, segundo um estudo de 2022.

    "Fatores psicossociais, como a violência, abuso sexual e negligência emocional apresentam forte associação com a adicção", observa Swami.

    "Muitas pessoas vão dizer: 'Tenho histórico de adicção, é por causa da minha genética'. Mas, quando você se aprofunda no histórico clínico, você percebe que houve muita bebida, negligência, abuso, trauma e privações", ele explica.

    "Isso é passado de geração em geração e vem à tona na forma de adicção."

    Anshul Swami concorda que o conceito é irreal e "fatalista".

    "Ele impede que as pessoas assumam a responsabilidade, tomem para si o problema e encontrem soluções construtivas para melhorar", afirma.

    Para Mark Griffiths, muita gente com dependência vai usar a ideia da personalidade adictiva como "justificativa para o seu comportamento". Segundo ele, "quando alguém diz 'tenho personalidade adictiva', o que está dizendo, na verdade, é 'nunca vou conseguir me curar'."

    "As adicções são doenças biológicas, psicológicas e sociais muito complexas, como qualquer outra doença do planeta", afirma Swami.

    "Todo mundo está procurando uma resposta simples, mas ela não existe."

    A BBC tentou obter um comentário da empresa Purdue Pharma, mas a farmacêutica foi reestruturada após um processo de falência.

    FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw455dj47elo

    quinta-feira, 20 de abril de 2023

    O que um psicólogo descobriu estudando segredos das pessoas por uma década.

     


    Author, Dalia Ventura
    • Role, Da BBC News Mundo

    "Nada pesa tanto quanto um segredo", escreveu o fabulista francês Jean de la Fontaine, já no século 17.

    Esta metáfora é repetida de diversas formas por muitos outros escritores. E foi o ponto de partida para uma pesquisa que levou uma década, realizada pelo psicólogo Michel Slepian, da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos.

    Ele visualizou os aspectos mais profundos da vida de cerca de 50 mil pessoas de 26 países.

    "Meus estudos originais questionavam se as pessoas realmente pensavam desta forma", declarou Slepian à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

    Para se aprofundar no tema, o pesquisador procurou literatura científica sobre os segredos e percebeu "que, na realidade, não sabíamos nada".

    A questão não é que o assunto não tivesse sido abordado, mas sim que “os psicólogos simplesmente presumiram que sabiam como eram os segredos, e os recriaram em laboratório, em vez de olhar como eles eram no mundo real”.

    "Não tínhamos respostas satisfatórias para algumas das perguntas mais básicas, como quais segredos as pessoas guardam, com que frequência elas os conservam e o que acontece quando um segredo vem à mente", afirma Slepian.

    Ele se propôs então a encontrar essas respostas.

    Mas, para começar, havia uma pergunta básica que precisava ser respondida.

    O Que é um segredo?

    Parece fácil, mas não é. Existem muitas coisas sobre as quais não falamos, mas todas elas são segredos?

    "Existe todo tipo de pensamento e experiência que tivemos e que as pessoas não sabem, mas isso não significa que sejam segredos", diz o pesquisador.

    Há assuntos que você só confiaria ao círculo mais próximo ou que não discutiria em certos espaços, "mas isso tem mais a ver com a noção de privacidade".

    Para Slepian, que é autor do livro The Secret Life of Secrets ("A vida secreta dos segredos", em tradução livre), o que diferencia um segredo é a intenção.

    "Defino o segredo como a intenção de reter informações de uma ou mais pessoas", explica.

    "No momento em que você tem a intenção de não contar algo a uma pessoa, nasce um segredo."

    E não depende de ter havido uma situação em que você poderia ter contado o segredo, mas se calou.

    "O fato de você não ter precisado ocultar esse segredo em uma conversa não significa que não seja um segredo."

    "De fato, concluímos que não é muito frequente precisar guardar um segredo em uma conversa, mas é muito comum ficar pensando no segredo ou até ruminando a respeito', afirma o pesquisador.

    38 segredos

    Slepian começou pedindo a mil pessoas que contassem um segredo que estavam guardando.

    "A partir desse conjunto de mil segredos, desenvolvemos uma lista de 38 categorias muito bem representadas pelos dados", revela.

    Depois de fazer a mesma pergunta para outro grupo de mil pessoas, ele e sua equipe comprovaram que a lista era válida. E continuaram confirmando.

    "Quando fazemos a pergunta aberta 'qual é o segredo que você está guardando?', 92% das respostas se enquadram em uma dentre 38 categorias."

    E não é só isso: ao apresentar a lista aos participantes, "mais de 97% das pessoas afirmaram que tinham um dos segredos da lista naquele momento e, em média, as pessoas dizem que tiveram 13 segredos da lista em um dado momento", afirma Slepian.

    Essa lista de 38 segredos inclui desde coisas como ferir outra pessoa, física ou emocionalmente, autolesões, uso de drogas ou qualquer tipo de roubo, até uma surpresa planejada para alguém ou um passatempo oculto.

    Segredos leves

    Para nossa sorte, nem todos os segredos pesam.

    "Os que chamo de 'segredos positivos' não prejudicam nossa saúde e bem-estar; na verdade, podem melhorá-los. Eles nos fazem sentir emocionados e energizados", destaca o psicólogo.

    "Estamos falando de segredos como um pedido de casamento ou uma gravidez. São coisas que nos deixam felizes."

    Também existem segredos que são mais como prazeres secretos — coisas que não contamos para as pessoas porque pensamos que elas não vão entender, nem compartilhar.

    "Talvez você goste de ver desenhos animados infantis ou novelas, ou use drogas recreativas", exemplifica Slepian.

    "Quando as pessoas guardam segredos com os quais se sentem bem e acreditam que não estão tomando decisões erradas, mesmo não querendo que os outros saibam, elas demonstram que existe um tipo de solidão que é feliz, autônoma e livre da influência dos demais."

    Mas há muitos segredos que causam ansiedade. O objetivo da missão de Slepian era não só saber que segredos as pessoas guardam, mas também entender por que eles pesam tanto — e, como psicólogo, como fazer para que eles fiquem mais leves.

    Três dimensões

    Com todas as informações reunidas, Slepian e sua equipe prosseguiram com as análises. O objetivo era encontrar uma ordem lógica para essas 38 categorias, criando um mapa 3D de todos os dados.

    Ao consultar o público para posicionar os dados no espaço, ele percebeu que havia três dimensões — e que "cada uma dessas dimensões descrevia uma das razões pelas quais pensar nos segredos é prejudicial".

    "Um segredo moral pode nos prejudicar, fazendo nos sentir envergonhados. Um segredo de relacionamento (que envolve outras pessoas) pode nos fazer sentir isolados. E pensar nos [segredos] relacionados às nossas metas ou aspirações pode nos prejudicar, fazendo nos sentir inseguros ou sem saber o que fazer."

    Segundo Slepian, 95% das pessoas pesquisadas destacaram que o simples fato de identificar como dói um segredo faz com que elas "se sintam mais capazes de lidar com ele e encontrar o caminho a seguir".

    Na primeira dimensão, compreender, por exemplo, que seus erros do passado não refletem quem você é hoje, nem o seu comportamento futuro, pode ajudar você a se sentir melhor.

    Na segunda dimensão, se a razão principal para não revelar o segredo é porque iria ferir alguém de quem você gosta, mesmo sendo difícil guardá-lo, alivia saber que é para o benefício de outra pessoa.

    Mas existe algo que ajuda ainda mais.

    O segredo para que os segredos fiquem mais leves

    No nosso ímpeto, costumamos pensar que, se temos segredos tóxicos, o melhor é confessar. E talvez seja, mas nem sempre.

    Há ocasiões em que ser honesto pode te libertar, mas afetar profundamente outras pessoas sem nenhum benefício, ou colocar você em evidência sem resolver nada.

    Mas isso também não significa que o melhor seja se calar. Slepian destaca que "o problema de não falar de um segredo com ninguém é que é muito fácil encontrar formas prejudiciais de pensar nele".

    O segredo para superar esta situação seria encontrar um bom confidente.

    "Uma forma mais saudável de lidar com os segredos é falar sobre eles com outras pessoas, pois elas podem questionar nossas linhas de pensamento improdutivas e oferecer apoio social e emocional, que você não consegue encontrar por conta própria."

    Mas como encontrar o confidente ideal?

    A pesquisa de Slepian destaca que o melhor é encontrar alguém que, além de discreto, você considere sensível, empático, afetuoso, amável, que não tenha preconceitos e que demonstre um sentido moral parecido com o seu. Se ele se escandalizar com o que você revelar, não vai ajudar em nada.

    E, antes de começar, lembre-se de não pensar só em você. É preciso analisar se você não vai colocar aquela pessoa dentro do seu problema. Você precisa garantir que vai compartilhar o segredo, e não a sobrecarga e a angústia que ele traz.

    "Encontrar alguém com quem falar sobre o seu segredo e escolher a pessoa adequada pode fazer toda a diferença", conclui o psicólogo.


    quinta-feira, 9 de março de 2023

    Quatro hábitos das pessoas felizes, segundo recomendação de psicóloga

     

     Lowri Dowthwaite-Walsh

    Sabemos que pessoas felizes tendem a ter relacionamentos sólidos, boa saúde física e contribuem regularmente com suas comunidades.

    Eu experimentei nos últimos sete anos uma série de práticas relacionadas à felicidade e ao bem-estar em uma tentativa de melhorar minha própria saúde mental e de entender a melhor forma de ajudar os outros. Algumas estratégias foram bem sucedidas, enquanto outras não funcionaram para mim. Mas aqui está o que aprendi ao longo do caminho.

    1. Movimente seu corpo

    Meu corpo precisa se movimentar regularmente ao longo do dia. Ficar sentada por longos períodos de tempo não deixa meu corpo ou mente felizes. No mínimo, caminho em ritmo acelerado por uma hora todos os dias.

    A atividade física e o exercício regular estão no topo da lista para alcançar felicidade. Estudos mostram consistentemente uma relação entre ser fisicamente ativo e aumentar o bem-estar subjetivo, também conhecido como felicidade.

    Pesquisas sugerem que caminhar 30 minutos por dia pode melhorar sua saúde. Mas estudos sobre felicidade revelam que as pessoas se beneficiam mais quando praticam exercícios moderados e de alta intensidade, que aumentam a frequência cardíaca.

    Exercício moderado é qualquer atividade que te deixe ligeiramente sem fôlego — você ainda consegue falar, mas provavelmente não seria capaz de cantar uma música.

    2. Priorize a conexão

    A pesquisa mais recente sobre felicidade mostra que nossas conexões sociais são importantes em termos de bem-estar geral e satisfação com a vida. Aliás, arrumar tempo para falar, ouvir, compartilhar e se divertir com amigos e familiares é um hábito que procuro priorizar.

    Mas um estudo recente descobriu que geralmente interagimos mais com amigos e familiares quando nos sentimos infelizes — e menos quando estamos felizes.

    Isso pode acontecer porque naturalmente buscamos conforto e apoio para nos sentir mais felizes, e procuramos outras atividades quando nossa felicidade está estável.

    Parece ser uma questão de equilíbrio, muito tempo sozinho pode levar a emoções negativas e, por isso, procurar outras pessoas é uma maneira natural de aliviar essa sensação e melhorar nosso humor.

    Por outro lado, quando nos sentimos positivos e felizes, ficamos mais inclinados a apoiar os outros e a oferecer um ombro amigo.

    No entanto, passar o tempo na companhia de amigos e familiares proporciona ganhos de felicidade a curto e longo prazo.

    3. Pratique a gratidão

    Nossa visão da vida e como avaliamos as coisas também desempenham um papel importante em nossos níveis de felicidade.

    Estudos mostram que ter uma mentalidade mais otimista e praticar um senso de gratidão pode proteger contra as emoções negativas e aumentar a felicidade.

    Praticar a gratidão diária, como contar minhas bênçãos ou listar as coisas pelas quais sou grata ao longo do dia, me ajuda a pensar de forma mais positiva e a me sentir mais feliz.

    Você pode fazer isso de várias maneiras — por meio, por exemplo, de um diário de gratidão, que pode ser escrito à mão ou redigido no celular.

    O exercício das três coisas boas é um hábito rápido e fácil de adotar para aumentar o otimismo.

    Você simplesmente escreve três coisas que correram bem no dia e reflete sobre o que havia de bom nelas.

    A gratidão também ajuda você a ver o panorama geral e a se tornar mais resiliente diante da adversidade.

    Você também pode praticar a gratidão de forma mais natural, agradecendo – dizendo a alguém pelo que você é grato naquele dia ou enviando mensagens de agradecimento.

    4. Passar tempo com pets também ajuda

    Meus animais de estimação fazem parte da rotina da nossa família e também ajudam na minha felicidade diária. Acho mais fácil sair para caminhar por causa dos meus cachorros.

    Pesquisas mostram que os cães motivam seus companheiros humanos a serem mais ativos e, em troca, tanto o animal quando o dono compartilham uma experiência prazerosa que aumenta sua felicidade.

    Estudos sugerem que os animais de estimação oferecem muitos benefícios para a saúde e a felicidade, pois não só servem de companhia, como também reduzem os casos de depressão e ansiedade, ajudando a aumentar nossos níveis de felicidade e autoestima.

    Os principais ingredientes para a felicidade, a que as pesquisas se resumem, são conexões e atividades sociais — tanto da mente quanto do corpo. E encontrar um fluxo de vida por meio de nossos hábitos e intenções diárias pode levar a uma vida mais feliz e gratificante.

    * Lowri Dowthwaite-Walsh é professora de intervenções psicológicas na University of Central Lancashire, no Reino Unido.