Você pode não estar clinicamente
deprimido, mas o estresse do dia a dia pode facilmente acabar com sua
sensação de bem-estar e contentamento.
A boa notícia é que não
faltam estratégias baseadas em evidências para ajudá-lo a sair do
marasmo: o campo científico da chamada psicologia positiva, que acaba de
completar 20 anos, oferece inúmeras técnicas para melhorar seu humor. Mas
como encontrar tempo para incorporá-las à nossa rotina? Sandi Mann,
professora da Universidade de Central Lancashire, no Reino Unido, sugere
uma solução. Com base em sua experiência como psicóloga clínica, ela
propõe um exercício que pode ajudar.
Descrito no livro Ten Minutes to Happiness ("Dez minutos
para a felicidade", em tradução livre), o programa que ela montou tem a
forma de um diário, a ser completado em seis etapas: 1. Que experiências, por mais mundanas que sejam, te deram prazer? 2. Que elogios e retornos você recebeu? 3. Quais foram os momentos de sorte? 4. Quais foram suas conquistas, por menores que sejam? 5. O que fez você se sentir grato? 6. Como você expressou gentileza? Grande
parte do programa é baseada na vasta quantidade de pesquisas
científicas que mostram que dedicar um pouco de tempo para avaliar como
foi o seu dia, sob as perspectivas acima, pode mudar gradativamente sua
forma de pensar, de modo que você encontre mais felicidade em sua vida. Quando nos sentimos para baixo, pode ser fácil
ignorar o que está dando certo - e manter esse diário coloca os aspectos
positivos em primeiro plano.Mann destaca que os benefícios podem
ser observados não só à medida que você lista os acontecimentos; mas
reler as anotações anteriores pode ajudar a lidar com situações difíceis
no futuro também. Graças à nossa memória "associativa", o mau
humor - causado por um evento negativo - pode levar você a se lembrar
preferencialmente de outras fontes de estresse e infelicidade. Sempre
que isso acontecer, folhear as páginas do diário pode ajudar a sair
desse ciclo vicioso. O sexto ponto se baseia em pesquisas recentes
sobre o poder da gentileza. Vários estudos descobriram que atitudes
altruístas não apenas aumentam o bem-estar das pessoas ao seu redor,
como também melhoram sistematicamente seu próprio humor. Gastar um pouco de dinheiro para ajudar um estranho,
por exemplo, deixa você mais feliz do que usar a mesma verba para se
dar um presente, segundo uma pesquisa realizada em mais de 130 países.Focar
em gestos desse tipo garante que você aproveite ao máximo esse
sentimento reconfortante e, ao mesmo tempo, seja incentivado a procurar
novas oportunidades no dia seguinte. Uma revisão de 10 minutos do
seu dia não é capaz de fazer milagres, é claro - e Mann enfatiza que
qualquer pessoa que suspeite que possa sofrer de depressão deve
consultar um médico e procurar ajuda profissional. Mas, para
aqueles que geralmente se sentem desanimados e estressados, sem sintomas
clínicos graves, esse exercício pode ser um aliado para entrar no eixo
novamente. Se você achou a abordagem de Mann instigante, também
pode se interessar por sua pesquisa contraintuitiva sobre o tédio. Em
uma série de experimentos, ela descobriu que curtos períodos de tédio
podem trazer grandes benefícios.Estudantes que foram instruídos a
copiar a lista telefônica, por exemplo, acabaram apresentando soluções
mais criativas para desafios em uma fase posterior do que aqueles que
foram poupados do tédio. Mann suspeita que a atividade enfadonha
encoraje a mente dos alunos a divagar e sonhar acordada, estimulando um
pensamento mais flexível para tarefas criativas. "Se você se
deparar com um problema, basta dar um tempo - ficar entediado - e pode
ser que a solução criativa surja em sua mente", disse Mann à BBC. Isso
é particularmente importante nos dias de hoje, em que estamos sempre
tentados a dar uma checada nas redes sociais para ocupar a mente. "Uma maneira por meio da qual podemos abraçar (isso) em nossas vidas é parar de evitar o tédio", acrescentou. Com
o tempo, você pode até descobrir que sua tolerância aumentou, de modo
que os períodos de espera, outrora agonizantes, se tornam uma
oportunidade para relaxar e refletir. "Paradoxalmente, a melhor maneira de lidar com o tédio é dar mais espaço para ele em nossas vidas." FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-46242086
Desde 2014, o Brasil vem enfrentando momentos de muita turbulência, e a grave crise política
que se instalou por aqui, permeada pela desilusão em relação aos
políticos e pelo exacerbado confronto entre as pessoas - estimulado,
inclusive, pelo discurso de alguns candidatos em suas campanhas
eleitorais - só fez piorar este cenário.
O fato é que, na véspera do primeiro turno da eleição deste ano,
os sentimentos negativos dominaram de vez a vida dos cidadãos, o que
foi confirmado em pesquisa, não sendo fruto apenas de observações feitas
nas redes sociais ou em conversas por aplicativos. Em
levantamento realizado no dia 2 de outubro com 3.240 eleitores de 225
municípios, o Datafolha, além da intenção de voto, fez a seguinte
pergunta: "Quando pensa no Brasil de hoje, você sente...?" As opções de resposta eram: seguro ou inseguro, feliz ou triste,
animado ou desanimado, tranquilo ou com raiva, confiante ou com medo do
futuro e com mais esperança do que medo ou com mais medo do que
esperança. O resultado mostrou que existe uma nuvem bem carregada
pairando sobre a cabeça da população: 88% se declararam inseguros, 79%
tristes, 78% desanimados, 68% com raiva, 62% com medo do futuro e 59%
com mais medo do que esperança. No geral, o pessimismo foi mais relatado
por mulheres, pelos mais jovens e pelos mais instruídos.
Apesar
de não ter relação com as eleições, a edição de 2018 do Relatório
Mundial da Felicidade também merece destaque. Produzido por
pesquisadores independentes e organizado pela Rede de Soluções para o
Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDSN), ele revelou que o
Brasil caiu seis posições no ranking dos países mais felizes, ocupando
agora o 28ª lugar dentre os 156 analisados - o líder é a Finlândia e o
lanterna, o Burundi. Trechos do documento citam que, por aqui,
assim como em outros locais da América Latina, a percepção de corrupção
generalizada, as dificuldades econômicas e os índices de violência
contribuem para a perda na satisfação em relação à própria qualidade de
vida. Levando em conta tudo isso, além da cada vez mais crescente
polarização, as discussões acaloradas e a tensão por todos os lados, a
questão que fica é: como lidar com os sentimentos negativos?
Como lidar com os sentimentos negativos?
De acordo com a psicóloga Denise Pará Diniz,
coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o primeiro passo, por
mais óbvio que seja, é buscar o equilíbrio. "Estamos diante de um
processo de mudança, que por si só já é um fator estressor. Dessa
forma, o que precisamos fazer é encontrar o meio termo, e é
cientificamente comprovado que temos capacidade e ferramentas para
controlar nossos sentimentos e emoções", afirma. A especialista
salienta que é importante entender que, em toda situação, existe uma
escolha: vivenciá-la com saúde ou com estresse. "A liberdade de escolha
pelo gerenciamento dos pensamentos e das emoções depende apenas de nós e
pode resultar em comportamentos saudáveis e produtivos." Na
avaliação do psicólogo e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental -
Equilíbrio (Casme), Yuri Busin, o brasileiro está passando por um grande
movimento de transferência de raiva. "Ao invés de debater e
buscar em conjunto um novo caminho ou formas de evoluir, o que tem
acontecido é a pessoa despejar seus medos, frustrações e ira nos outros,
resultando em amizades desfeitas, parentes se distanciando, casais se
desentendendo... O que todos necessitam agora, mais do que nunca, é
compreender a fundo seus sentimentos e aprender a debater sem brigas e
ataques." Outra questão apontada pelo profissional para lidar com
tanta negatividade é evitar as chamadas bolhas sociais - ou seja, só se
relacionar com quem pensa igual ou parecido e com quem se tem mais
afinidades -, por mais tentadoras e seguras que elas possam parecer. Para
ele, bloquear e excluir vozes dissonantes quase sempre gera mais
abismo, isolamento e uma visão distorcida do mundo, além de provocar uma
falsa sensação de verdade absoluta e roubar a possibilidade de aprender
com o outro. "Afastar, bloquear ou 'eliminar' alguém do convívio,
suspendendo o diálogo e a negociação, realmente não são as melhores
maneiras de lidar e acabar com a raiva e o ódio", concorda o
psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo (USP) Christian Ingo Lenz Dunker. Segundo
ele, o caminho inicial para isso é conhecer a fundo o conflito
existente e, a partir daí, fazer uma análise complementar para
identificar se ele pode ser tramitado a produzir algum tipo de
transformação positiva, seja pessoal ou no mundo.
Dunker informa ainda que é preciso convidar as
pessoas a não se levarem tão a sério. "Por um lado, temos de ser mais
consequentes com o que pensamos, dizemos, em quem votamos, com os nossos
afetos, mas, por outro, necessitamos de menos seriedade em relação a
nós mesmos e de menos convicções de que sabemos tudo", complementa.E
isto se encaixa bem com o que ainda está por vir, já que,
independentemente do resultado da eleição, alguém sairá das urnas
derrotado. "Infelizmente, o que está ruim pode piorar. Para
evitar que isso aconteça, o lado vencedor, seja qual for, deve adotar
uma posição de humildade em relação ao outro, e, o perdedor, aceitar o
resultado. Teremos de ter cuidado com os discursos triunfalistas da
vitória e com os ressentidos da derrota. Só assim não entraremos em uma
fase de destruição, violência e mais negatividade", acrescenta o
psicanalista. As maneiras de evitar as emoções e os sentimentos
ruins em momentos tumultuados passam ainda por questões como trabalhar a
flexibilidade e o autocontrole, não se achar o dono da verdade ou se
encher de culpa, não incentivar brigas ou fazer provocações, não
alimentar aquilo que te faz mal, ter calma, mudar o foco, respeitar e
aceitar quem tem ideias contrárias, ter empatia, ficar atento à maneira
como se comunica com os demais, não agir de cabeça quente e se afastar
antes que as coisas saiam do controle. Para quem tem dificuldade
de lidar com tudo isso sozinho, a terapia é a ferramenta mais indicada. O
importante neste caso é encontrar um profissional e um método com os
quais você se identifique e estar realmente disposto a se abrir e a
mudar. Junto a isso, adotar um estilo de vida mais saudável e
positivo, que inclui atividade física, exercícios de respiração e
relaxamento, meditação, leitura e passeios agradáveis e ajuda
espiritual, é mais uma maneira de buscar a paz interior, acalmar a mente
e, consequentemente, diminuir os pensamentos negativos.
Os efeitos da negatividade
Claro
que, em períodos de muita tensão, como o que o Brasil vive atualmente, é
normal não se sentir feliz o tempo todo. O problema é quando isso se
torna algo exagerado, a ponto de comprometer as relações pessoas,
sociais e profissionais. Alguns dos efeitos nocivos são: aumento
dos batimentos cardíacos e da pressão arterial, dores musculares e de
cabeça, problemas gastrointestinais e na pele, queda de cabelo, insônia,
irritabilidade e infecções recorrentes. Além disso, os quadros
de depressão e ansiedade podem se agravar ou até mesmo se instalar,
assim como a busca por comportamentos violentos e disfuncionais, por
exemplo, o consumo excessivo de álcool e drogas. FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45772358
Os ansiolíticos são remédios utilizados para o tratamento de ansiedade. Têm o objetivo de reduzir a ansiedade e a tensão de pessoas que sofrem com algum tipo de transtorno ansioso.
Atuam no organismo do paciente afetando diretamente as áreas do
cérebro responsáveis por controlar a ansiedade e o estado de alerta. Seu
efeito provoca uma sensação de relaxamento.
São chamados, também, de tranquilizantes e calmantes. Em alguns casos, são recomendados para o tratamento de insônia, devido à sonolência que podem provocar.
Os principais ansiolíticos utilizados são os benzodiazepínicos,
que agem diretamente nos neurotransmissores responsáveis por
proporcionar o efeito sedativo e tranquilizante das atividades do
sistema nervoso central (SNC).
Essa droga foi descoberta na década de 50, mas foi somente nos anos
subsequentes que o seu uso cresceu. Podemos dizer que na década atual
houve um crescimento preocupante.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o
país líder em casos de Transtorno de Ansiedade, no qual 9,3% da
população sofre com esta doença. Ainda sobre doenças que afetam a saúde
mental, a depressão afeta 5,3% dos brasileiros.
RIO- A Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a transexualidade da categoria de "distúrbios mentais" na
Classificação Internacional de Doenças (CID). A atualização é um marco e
acontece mais de 40 anos depois de a homossexualidade também ser
retirada da lista, na década de 1990. Essa é a primeira grande revisão
da CID em quase três décadas.
A
transexualidade, no entanto, não saiu totalmente da CID-11, ela foi
movida para a categoria "condição relativa à saúde sexual". A OMS admite
que mantê-la na Classificação Internacional de Doenças pode reforçar
estigmas, mas diz que a medida ainda é necessária.
"O raciocínio é que, embora as evidências agora estejam claras de que
não se trata de um transtorno mental, e de fato classificá-lo pode
causar enorme estigma para as pessoas transgênero, ainda há necessidades
significativas de cuidados de saúde que podem ser melhor atendidas se a
condição for codificada na CID", diz a OMS.
A CID é uma ferramenta que padroniza a identificação e o
monitoramento de problemas de saúde em todo o mundo. A partir de sua
criação, foi possível estabelecer um padrão no diagnóstico de doenças em
todo o mundo a partir de um código estabelecido a cada doença.
A atualização da lista da CID, de acordo com a organização, reflete
avanços na medicina e na ciência. Segundo a OMS, as revisões são feitas
quando a "evidência médica não apoia as suposições culturais". Foi o que
aconteceu com a "homossexualidade", classificada na CID em 1948, e
acontece agora com a transexualidade.
A decisão foi celebrada pelo movimento LGBT. A militar Bruna
Benevides, afastada de seu cargo na Marinha sob justificativa de ser
incapaz devido a um quadro de "transexualismo", comemorou a medida e
afirmou que a mudança na classificação é um passo importante para
garantir os direitos da população trans.
— É uma decisão importantíssima, porque nos dá autonomia de sermos
quem somos. Espero que cada vez mais as pessoas entendam que não há nada
de errado em ser transexual, e é apenas mais uma possibilidade de ser e
existir, e é legítima. Espero que as pessoas trans possam conquistar
cada vez mais os espaços que continuam lhes sendo negado — afirma.
A revisão da CID incluiu ainda o vício em videogames como
"transtornos relacionados ao uso de substâncias ou comportamentos
viciantes", ao lado de drogas como a cocaína.
—A pessoa joga tanto que outros interesses e atividades são
ignorados, incluindo dormir e comer — argumenta Shekhar Saxena, diretor
do departamento de saúde mental e abuso de substâncias da OMS.
Quantas vezes você pega o celular
para checar mensagens por dia?
Aplicativos de
mensagens instantâneas se disseminaram rapidamente no Brasil e no mundo,
em nome da velocidade, custos mais baixos e praticidade na comunicação -
mas o outro lado da moeda na crescente dependência social desses apps é
a ansiedade produzida pela sensação de estar ligado, e em dívida, o
tempo todo, alertam especialistas.
"O que está acontecendo
basicamente é que as pessoas ficam de plantão o dia inteiro, e claro que
isso é maléfico. Elas não descansam, não têm um momento de parar. Isso
gera estresse, que pode desencadear quadros como depressão e ansiedade",
adverte o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente eleito da
Associação Psiquiátrica da América Latina (Apal).
Segundo um estudo feito pelo Datafolha em 2017, o WhatsApp é o
aplicativo de mensagem preferido por 89% dos brasileiros. A empresa, que
pertence ao Facebook, tem 120 milhões de usuários no Brasil.
Vício portátil
A
possibilidade de ter conversas em tempo real pela internet já era
conhecida de frequentadores de grupos de chat, usuários do MSN
Messenger, ou viciados em Blackberry nos idos dos anos 2000.
"O MSN
funcionava no computador, então você tinha que estar parado em um lugar.
Se você fosse um viciado em tecnologia, ficava em casa preso no
computador. Com o smartphone não, você passa a carregar esse vício para
onde você vai. Fica logado 24 horas", diz a psicóloga Andréa Jotta, do
Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e
Comunicação (Janus) da PUC-SP.
Uma "conversa" pressupõe uma resposta imediata,
"pá-pum". E os comunicadores instantâneos de fato permitem que as
interações se sucedam quase como se os interlocutores estivessem face a
face. Permitem até saber se uma resposta está em construção, com as
reticências que aparecem quando outra pessoa está escrevendo, ou já foi
lida, com as setinhas azuis que acendem no indicador de leitura.
O
problema é que os comunicadores são "instantâneos" para quem os manda,
mas não necessariamente para quem os recebe, diz Jotta.
"As
pessoas não estão disponíveis para você 100% do tempo. Mesmo que o
aplicativo indique que esteja online, não necessariamente ela pode
responder. E não dá para achar que aquela 'não resposta' é direcionada a
você."
Mas é justamente o que acontece muitas vezes, com relatos
de reações de insegurança, ciúme, ansiedade, "porque alguém leu a
mensagem mas demorou para responder" - o que, dependendo da relação,
pode gerar uma interpretação excessiva de lacunas de silêncio; ou da
hesitação ao escrever e reescrever uma resposta, como se fossem gestos a
se atribuírem significados.
Tanto a expectativa de que o
interlocutor responda instantaneamente quanto a vontade de responder
rapidamente a todas as mensagens que chegam alimentam a ansiedade, diz
Jotta - ainda mais quando avisos sonoros estão ativos e o celular fica
apitando, pedindo atenção.
Quem é ansioso para responder
rapidamente fica com aquele pensamento ocupando a mente até conseguir. E
quem é desorganizado e dado ao acúmulo de tarefas se sente ainda mais
sobrecarregado. "Ficam na demanda constante, eu tenho que dar conta, eu
tenho que dar conta", diz a psicóloga.
Uso consciente
Grupo
multidisciplinar criado para pesquisar a dependência da tecnologia, o
Instituto Delete atende pessoas que sofrem do uso abusivo de tecnologias
como redes sociais, telefones celulares e aplicativos de mensagens,
recebendo pacientes todas as sextas-feiras, no campus da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na Praia Vermelha, em Botafogo.
De
acordo com o coordenador do Instituto, Eduardo Guedes, o uso abusivo de
aplicativos de mensagens é bastante comum, mas os casos mais
preocupantes são os que configuram uma dependência, e estão associados a
transtornos relacionados, como ansiedade, depressão, pânico ou
transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
"A
tecnologia surgiu para encurtar distâncias, otimizar o tempo e nutrir
relações humanas. O perigo é quando você começa a substituir a vida real
em prol das sensações de prazer geradas pela tecnologia", diz. "A gente
estimula o uso consciente, para colocar a tecnologia no lugar e no
propósito que ela deve ter."
As queixas são variadas, diz Guedes.
Há pessoas que relatam desconforto com grupos de família, dizendo que
têm vontade de sair deles, mas não conseguem e, ao mesmo tempo, não
sabem como se comportar ali; casos de TOC em que usuários ficam checando
compulsivamente se outra pessoa está online; e de pessoas que relatam
depender do app para sentirem acompanhadas, e por isso mandam mensagens
mesmo quando estão dirigindo, apesar do grande risco que isso acarreta.
Entre
as técnicas básicas para o uso comedido e consciente dos comunicadores,
Guedes recomenda silenciar notificações de mensagens, parar de usar os
aplicativos duas horas antes de ir dormir e, se possível, desabilitar os
avisos de recebimento e de leitura - "porque tem gente que não sabe
lidar com isso."
Sem limites entre lazer e trabalho
A
dependência que os brasileiros têm do WhatsApp no dia a dia ficou
evidente nos episódios em que o aplicativo foi temporariamente bloqueado
pela Justiça, levando a revolta entre usuários e expondo o quanto o
aplicativo é usado tanto para comunicações corriqueiras do dia a dia
quanto no trabalho e em serviços, como parte do ganha-pão de muitos
brasileiros.
Mas a mistura de trabalho e lazer e a falta de
limite de horários para uso colaboram que gerar um estado de atenção e
de prontidão constantes, diz Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto
de Tecnologia e Sociedade (ITS) e professor de Direito da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
"Você confunde esferas da sua
vida que costumavam ser separadas. Antes, você falava com seus colegas
no horário de trabalho, e com amigos e família nas horas de lazer. Os
aplicativos de mensagem misturam tudo e tornam o momento de atenção
perene", considera.
Se uma
mensagem de trabalho chega às 23h da noite, interfere na vida privada
das pessoas e faz com que de repente se vejam ligadas, como se
estivessem sempre de prontidão, diz a psicóloga Aline Restano.
"Estabelecer
limites entre trabalho e lazer está cada vez mais difícil", diz
Restano, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas
(GEAT), grupo de psicólogos e psiquiatras do Rio Grande do Sul que
estuda dependência de tecnologia.
Para ela, a mania de se criar
grupos reunindo pessoas das origens mais variadas - de amigos e
familiares a pais de crianças da escola, grupos da pelada ou do pedal,
grupos de colegas de trabalho - contribuiu para que o entusiasmo inicial
com o aplicativo fosse vencido por um cansaço com seus excessos.
"No
início havia um prazer de receber mensagens, mas hoje em dia os
usuários costumam ter tantos grupos e o volume é tão grande que isso
gera uma irritabilidade, com tantas pendências sempre para responder",
diz a psicóloga.
'Falta tempo para ficar a sós'
Restano
diz que o uso prejudicial de comunicadores instantâneos está
aumentando, e que recebe relatos de conflitos familiares de pessoas que
começam a deixar de fazer programas sociais para ficar em casa se
comunicando no celular.
Ela afirma que indivíduos mais ansiosos
tendem a exacerbar essa característica no uso dos aplicativos de
mensagem, achando que têm que responder imediatamente.
"Na
cultura atual, há uma tolerância muito baixa à frustação. As pessoas
estão acostumadas a ter acesso a tudo muito rápido, a informações, a
respostas, e isso só reforça a ansiedade. Gente com temperamento mais
saudável tende a se relacionar com o WhatsApp e outras mídias de forma
mais saudável."
Para a psicóloga, o principal malefício de se
estar o tempo todo acessível é a "impossibilidade de se ficar sozinho
com os próprios pensamentos."
"A capacidade de estar só é muito
importante para o nosso desenvolvimento emocional. É quando pensamos dos
nossos sonhos, projetos, desejos, medos loucuras", considera. "Hoje
estamos o tempo todo nos distraindo, pegando o celular, conferindo o
WhatsApp ou outras redes. Não sabemos ainda que efeito isso pode gerar
no nosso futuro, de não conseguir lidar com a nossa própria companhia."
Em 18 de maio completa-se 30 anos da
comemoração do Dia Nacional da Luta Antimanicomial. O Movimento da
Reforma Psiquiátrica se iniciou no final da década de 70, em pleno
processo de redemocratização do país, e em 1987 teve dois marcos
importantes para a escolha do dia que simboliza essa luta, com o
Encontro dos trabalhadores da saúde mental, em Bauru/SP, e a I Conferência Nacional de Saúde Mental, em Brasília.
Com o lema “por uma sociedade sem manicômios”, diferentes categorias
profissionais, associações de usuários e familiares, instituições
acadêmicas, representações políticas e outros segmentos da sociedade
questionam o modelo clássico de assistência centrado em internações em
hospitais psiquiátricos, denunciam as graves violações aos direitos das
pessoas com transtornos mentais e propõe a reorganização do modelo de
atenção em saúde mental no Brasil a partir de serviços abertos,
comunitários e territorializados, buscando a garantia da cidadania de
usuários e familiares, historicamente discriminados e excluídos da
sociedade.
Assim como o processo do Movimento da Reforma Sanitária, que resultou
na garantia constitucional da saúde como direito de todos e dever do
estado através da criação do Sistema Único de Saúde, o Movimento da
Reforma Psiquiátrica resultou na aprovação da Lei 10.216 de 06 de abril de 2001,
nomeada “Lei Paulo Delgado”, que trata da proteção dos direitos das
pessoas com transtornos mentais e redireciona o modelo de assistência.
Este marco legal estabelece a responsabilidade do Estado no
desenvolvimento da política de saúde mental no Brasil, através do
fechamento de hospitais psiquiátricos, abertura de novos serviços
comunitários e participação social no acompanhamento de sua
implementação.
Ao longo dos anos, a política brasileira de saúde mental, álcool e
outras drogas vem se concretizando como política de estado através de
alguns marcos:
Instituição da Rede de Atenção Psicossocial – RAPS através da Portaria nº 3.088/2011,
para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades
decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas no SUS.
496 Serviços Residenciais Terapêuticos cadastrados, para ex moradores de hospitais psiquiátricos;
1.163 leitos de saúde mental em hospital geral cadastrados;
Cadastro de mais de 4 mil beneficiários no Programa De Volta Para Casa,
que tem como objetivo contribuir com a inserção social e com a garantia
de exercício de direitos de ex moradores de hospitais psiquiátricos
Organização de boas práticas no campo da prevenção, com adaptação e
oferta de 3 programas de prevenção do uso prejudicial de álcool e
outras drogas: ELOS – Construindo Coletivos, voltado para crianças (de 6
a 10 anos matriculadas do 1º ao 5º ano do ensino fundamental,
#TAMOJUNTO, ofertado para jovens (de 13 e 14 anos matriculados no ensino
fundamental II) e FAMÍLIAS FORTES, voltado para famílias (com jovens de
10 a 14 anos), beneficiando cerca de 59.608 pessoas em 6 estados das 5
regiões do país (Acre, Amazonas, São Paulo, Santa Catarina, Paraná
Paraíba, Distrito Federal), até o ano de 2016. Em uma nova estratégia de
disseminação no país, neste ano de 2017, os programas têm sido
ofertados para novos estados brasileiros, caminhando para a consolidação
de uma política pública.
A instituição da RAPS
consolida diferentes estratégias e serviços de saúde mental
historicamente construídos a partir de experiências locais de municípios
e estados brasileiros. Apresenta diretrizes gerais que corroboram com o
modelo de atenção comunitária, territorial, diversificado e consoantes
com o respeito aos direitos humanos. Dentre seus objetivos, estão a
ampliação do acesso à atenção psicossocial tanto da população em geral
quanto das pessoas com transtornos mentais e com necessidades
decorrentes do uso de álcool e outras drogas, com priorização aos grupos
mais vulneráveis, assim como articular e integrar os diferentes
serviços de saúde de forma a garantir o cuidado de qualidade.
Fazem parte da RAPS desde a Atenção Primária até serviços de urgência
e emergência, passando pelos já consolidados CAPS e demais serviços e
estratégias que permitam a desinstitucionalização das pessoas que
passaram pela experiência do manicômio / espaços asilares e pelo cuidado
centrado nas questões relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.
Além disso, desde 2005, o Ministério da Saúde financia projetos de
Reabilitação Psicossocial e Fortalecimento do Protagonismo de usuários e
familiares, de forma a apoiar iniciativas de geração de renda e
trabalho, inserção social e outras ações intersetoriais que objetivam
efetivar o exercício da cidadania de pessoas que foram excluídas de vivências básicas do cotidiano devido ao estigma e discriminação.