Universidade de Cambridge, no Reino Unido, fez
um sofisticado estudo para entender esse fenômeno. Resposta passa por
mudanças estruturais no cérebro
Um dado em comum entre transtornos mentais como a esquizofrenia e o
transtorno bipolar é que os primeiros sinais dessas disfunções ocorrem
durante a juventude. “A adolescência pode ser um período de transição
difícil e é quando se costuma ver o surgimento de distúrbios mentais
como a depressão”, explica o professor Ed Bullmore, chefe da psiquiatria
na Universidade de Cambridge, em nota.
As respostas que poderiam explicar o fenômeno não são simples, mas
algumas pistas começam a surgir. Uma delas veio do time de cientistas da
Universidade de Cambridge e da Universidade College London, no Reino
Unido. Eles mapearam o cérebro de jovens para ver o que poderia explicar
o surgimento dos transtornos nesse período. O estudo foi publicado
nesta segunda-feira (25) no prestigiado PNAS (Proceedings of the National Academy of Science).
Transtornos
mentais começam a dar seus primeiros sinais na adolescência e a ciência
tenta entender o porquê. Foto ilustrativa/Ingimage
A explicação para o desenvolvimento nessa fase pode estar na maneira
como o cérebro “cruza dados”. O estudo mapeou o cérebro de 300
indivíduos entre 14-24 anos e pesquisadores notaram dois fatos:
a) Durante esse importante período de
desenvolvimento, as regiões exteriores do cérebro, conhecidas como
córtex, diminuíram de tamanho e tornaram-se mais finas.
b) A bainha de mielina, no entanto, estrutura que
envolve neurônios, aumentou sua concentração na adolescência. A mielina é
responsável pela propagação do impulso elétrico na célula nervosa, ou
seja, ela controla a velocidade com que a informação se propaga.
No estudo, o aumento de mielina ocorreu em
regiões do cérebro que agem como “roteadoras”. Essas estruturas
interligam as diferentes regiões do cérebro.
Depois, os cientistas cruzaram esses achados com um projeto que
associou o cérebro a expressões de diferentes genes. Ao cruzar os
achados da pesquisa que fizeram com os resultados desse projeto, eles
descobriram que as mudanças cerebrais ocorrem mais intensamente naqueles
que expressam genes associados à esquizofrenia.
O fato de a bainha de mielina ficar mais concentrada nesse
período e o fato de essa concentração se dar em regiões que interligam
uma parte do cérebro a outra pode abrir caminho para mais pesquisas com
foco nesse aspecto. “Como essas regiões são centros importantes que definem como o nosso
cérebro se comunica, não nos surpreende que, quando algo de errado
acontece nesse processo, isso vai afetar o modo como funcionamos”,
afirma Bullmore. Agora que o estudo conseguiu mostrar esse aspecto, a
expectativa é que novas pesquisas expliquem o que exatamente “dá errado”
nessa comunicação.
Fonte:PNAS. “Adolescence is associated with genomically patterned consolidation of the hubs of the human brain connectome”.
Um dia me disseram Que as nuvens não eram de algodão Um dia me disseram Que os ventos às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro Um intervalo na escuridão Uma estrela de brilho raro Um disparo para um coração
A vida imita o vídeo Garotos inventam um novo inglês Vivendo num país sedento Um momento de embriaguez Nós Somos quem podemos ser Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram Quem eram os donos da situação Sem querer eles me deram As chaves que abrem essa prisão
E tudo ficou tão claro O que era raro ficou comum Como um dia depois do outro Como um dia, um dia comum
A vida imita o vídeo Garotos inventam um novo inglês Vivendo num país sedento Um momento de embriaguez
Nós Somos quem podemos ser Sonhos que podemos ter
Um dia me disseram Que as nuvens não eram de algodão Um dia me disseram Que os ventos às vezes erram a direção
Quem ocupa o trono tem culpa Quem oculta o crime também Quem duvida da vida tem culpa Quem evita a dúvida também tem
A menopausa causa depressão?
O número de mulheres na menopausa vem crescendo com o aumento da
expectativa de vida e a depressão é uma das enfermidades psíquicas mais
comuns. Como o mito de que há depressão na menopausa é arraigado na
sociedade ocidental, até mais de 2/3 das mulheres temem apresentá-la,
embora este temor não esteja associado à forma como elas virão a
vivenciar o climatério ( período de vida da mulher logo após a ultima
menstruação). Os fatores psicossociais são os que têm sido mais
associados à depressão e seriam: mudanças nos papéis familiares, eventos
estressantes da vida, envelhecimento e perda do papel reprodutivo /
feminilidade. Ainda influenciam normas e valores culturais e quanto a
mulher investe na valorização das alterações fisiológicas desse período.
O "efeito dominó" (o aparecimento dos sintomas físicos na perimenopausa
levando as alterações do humor) de maneira isolada e de maneira
generalizada não explicaria a depressão na menopausa, mas poderia ser
significativa em mulheres vulneráveis.
É importante ressaltar que alterações do humor como tristeza, angústia,
crises de choro e irritabilidade são sintomas que fazem parte do inicio
do climatério. São sintomas que também ocorrem na depressão, mas
isoladamente não significam que a mulher está deprimida.
Como a depressão ocorre na menopausa?
O mecanismos fisiológico que se propõe para explicar a depressão no
climatério até o momento seria o déficit de estrógenos ( hormônios
femininos, por suas repercussões no sistema nervoso central (SNC).
Pesquisas tem associado o estrógeno como estimulador dos sistemas
serotoninérgicos e adrenérgicos (sistemas que estão deficientes na
pessoa deprimida), facilitador da resposta aos antidepressivos e
estimulante de um hormônio que esta relacionado com o crescimento de
neurônios. A depressão não ocorres somente devido a um fator, e sim uma
serie de fatores, lembre-se esse é só um mecanismo que pode explicar a
depressão na menopausa. Muitos estudos devem ser feitos ainda para que
se tenha uma resposta definitiva.
Existe um fator de risco para a depressão na menopausa?
Um período prolongado de perimenopausa (período de corresponde a
aproximadamente 1 ano antes e depois da última menstruação) aumentaria
moderadamente o risco para depressão, enquanto a perimenopausa por si
aumentaria discretamente. Um episódio depressivo prévio, depressão
puerperal, depressão induzida pelo uso de anticoncepcionais orais e
transtorno disfórico pré-menstrual (TPM) também aumentariam o risco.
E a menopausa cirúrgica, a que ocorre depois de uma cirurgia para retirada do útero e/ou ovários, pode levar a depressão ?
A menopausa cirúrgica não estaria associada a depressão. A depressão
nesses casos seria secundária a uma série de fatores, tais como:
episódio depressivo prévio, uso nocivo/ dependência de álcool, baixo
nível educacional, alto nível de estresse psicológico prévio e história
de doença psiquiátrica. Podem ocorrer sintomas depressivos, não sendo
necessariamente depressão, e sim sintomas relacionados a diminuição da
produção de estrógenos (semelhantes a uma menopausa natural).
Qual o papel da terapia de reposição hormonal na menopausa?
A Terapia de Reposição Hormonal (TRH) utilizada no tratamento dos
sintomas da menopausa pode ser um coadjuvante no tratamento da depressão
na menopausa. Estudos comprovam a melhora dos sintomas vasomotores (
"fogachos" - ondas de frio e calor seguidas de suor intenso),
lubrficação vaginal, a qualidade do sono, a libido, diminuição da
osteoporose e a incidência de doenças cardiovasculares (infarte agudo do
miocárdio - IAM e acidentes vasculares cerebrais - AVC) e teria
provável efeito protetor contra a doença de Alzheimer.
A TRH não estaria isenta de riscos ( por exemplo: câncer de mama e
endométrio e litíase biliar). A associação com progesterona poderia
diminuir esses riscos, mas em contrapartida haveria um possível efeito
desestabilizador do humor contrapondo os efeitos positivos dos
estrógenos. O papel dos andrógenos (hormônios masculinos) ainda é pouco
estudado, havendo indícios com bem-estar e humor.
A melhora dos sintomas físicos melhoraria também a irritabilidade,
ansiedade e libido. Quanto aos aspectos cognitivos (atenção, memória e
habilidades de comunicação), a TRH com estrógenos também parece trazer
benefícios, embora mais estudos sejam necessários para que se comprovem
essas observações.
A TRH pode ajudar no tratamento da depressão na menopausa?
Apesar dos poucos trabalhos publicados na área, há evidências de que a
TRH teria propriedades antidepressivas ou aumentaria a eficácia dos
antidepressivos. O potencial benefício da TRH como coadjuvante no
tratamento da depressão necessita mais estudos para que seja
estabelecido, principalmente quanto ao papel dos hormônios andrógenos.
Deve-se lembrar que as reações à TRH variam de mulher para mulher,
portanto não podem ser padronizadas.
A avaliação de sintomas depressivos na mulher nessa fase da vida deve
ser criteriosa avaliando-se toda a vida reprodutiva e psiquiátrica para
que se estabeleça o tratamento mais adequado.
Mulheres sem história prévia de transtornos do humor, apresentando
sintomas depressivos ou depressões leves/moderadas e com sintomas
vasomotores poderiam ser tratadas somente com TRH. Se os sintomas
persistirem por mais de 1 mês deve ser feita a associação com
antidepressivos. Depressões graves devem ser sempre tratadas com
antidepressivos. A colaboração entre psiquiatras e ginecologistas é de
fundamental importância para o bem estar da mulher nesse período de sua
vida.
Transtorno que atinge milhões de pessoas no Brasil nem sempre se
manifesta da mesma maneira. Conheça os diferentes perfis de pessoas com
TDAH.
PorDenis Russo Burgierman
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma
condição tremendamente comum: alguns especialistas calculam que ele
afete algo entre 3% e 5% das crianças. Os sintomas são sempre iguais:
desatenção, hiperatividade, impulsividade. Mas isso não quer dizer que
seja fácil identificar alguém que tem TDAH, porque as pessoas que sofrem
com o transtorno lidam com ele de maneiras muito diferentes umas das
outras.
Segundo o blogueiro Neil Petersen,
que tem TDAH e escreve sobre o transtorno no tradicional site Psych
Central, isso acontece porque há quatro estratégias bem distintas para
lidar com o transtorno - e portanto quatro perfis de pessoas com TDAH,
cada um deles definido por uma das quatro estratégias. Você
provavelmente conhece alguém de cada um desses tipos. Veja:
O perfeccionista - algumas pessoas tentam compensar o
TDAH com uma obsessão por planejar tudo nos mais mínimos detalhes.
Chegam meia hora adiantados para não se atrasarem, fazem listas
detalhadas de tarefas, criam métodos minuciosos para tudo. Esses aí
sofrem com cada tarefa no trabalho, porque vivem com medo de perder o
controle.
O improvisador - esses usam uma estratégia praticamente
oposta à do perfeccionista: são as pessoas que simplesmente aceitam o
caos em suas vidas. Diante da enorme dificuldade de planejar as coisas,
eles simplesmente não planejam nada e "deixam rolar".
O minimalista - quem tem TDAH sabe que tentar organizar
as coisas é um pesadelo. Por isso, uma estratégia comum para lidar com o
problema é simplificar a vida ao máximo. Pessoas desse perfil fazem de
tudo para ter o mínimo possível de posses, para que não haja muito o que
organizar.
O viciado em adrenalina - pacientes de TDAH muitas
vezes percebem que o transtorno fica pior quando eles estão em ambientes
pouco desafiadores. Diante da falta de estímulo, a distração toma conta
e fica muito difícil fazer qualquer coisa. Por causa disso, alguns
começam a buscar estímulos fortes - afinal, a adrenalina ajuda a focar.
Esse perfil costuma procurar atividades profissionais e de lazer de alto
risco.
"Claro que nem todas as pessoas com TDAH se encaixam perfeitamente em
um desses perfis", escreveu Petersen. Uns usam um misto de duas, três
ou até de todas essas estratégias e são mais difíceis de encaixar. FONTE:http://super.abril.com.br/ciencia/os-4-tipos-de-pessoas-com-deficit-de-atencao-qual-e-o-seu
Saem as brincadeiras no quintal,
entram os apartamentos. Saem as praças e parques, entram os prédios.
Saem os jogos na rua, entram os tablets e videogames.
Basta um
olhar rápido para perceber que nas grandes e médias cidades o contato
das crianças com a natureza, em geral, vem diminuindo.
E para o americano Richard Louv, autor de A Última Criança na Natureza,
essa constatação em nada tem a ver com um saudosismo barato. Mas sim
com os impactos negativos causados pelo o que ele chama de Transtorno de
Deficit de Natureza.
Em visita a São Paulo para o lançamento de
seu livro, Louv contou à BBC Brasil que ele começou a se interessar pelo
tema no início dos anos 90, quando fazia pesquisas para seu livro Childhood's Future ("O Futuro da Infância", em tradução livre).
"Entrevistei
mais de 3 mil pais e professores. Queria saber deles sobre como o
cenário da infância estava mudando. E uma constante nos depoimentos
foram pais reclamando de que não conseguiam tirar seus filhos de casa.
Mesmo se morassem perto de áreas verdes ", disse.
"Na época, não
haviam estudos sobre a aflição desses pais. Somente há menos de 10 anos
surgiram as primeiras pesquisas sobre isso - e todas apontam para a
mesma direção: a falta de contato das crianças com a natureza causa
problemas físicos, como a obesidade, e mentais, como depressão,
hiperatividade e deficit de atenção."
Louv, no entanto, vai além
do cenário triste que pinta para as crianças dos dias atuais: ele também
aponta medidas simples que pais, educadores, médicos e o poder público
podem adotar para evitar o "deficit de natureza" até mesmo em grandes
metrópoles. Confira os principais trechos da conversa:
BBC Brasil: Ainda há esperança para as crianças que vivem em cidades como São Paulo ou outras do estilo "selva de pedra"?
Richard Louv: (Risos).
Sim, é claro que há esperança! Vi experiências muito interessantes em
cidades na China e também em Atlanta, Chicago e em outras metrópoles
americanas que podem ser comparadas com as brasileiras.
São
escolas e associações que estão usando hortinhas, caminhadas em bosques e
outras soluções simples para combater uma série de novos problemas que
atingem muitas das crianças de hoje, por estarem tão afastadas da
natureza.
BBC Brasil: Quais exatamente são esses novos problemas? São físicos ou mentais?
Richard: Os
dois. Na parte física temos, por exemplo, a obesidade infantil, que
hoje é epidemia em vários países mundo afora, inclusive, até onde eu sei
no Brasil. (47% das crianças brasileiras têm com excesso de peso ou são
obesas).
As crianças hoje passam menos horas ao ar livre e,
consequentemente, mais tempo confinado em casa, vendo TV ou jogando
videogame. Essa é uma das grandes causas da obesidade infantil. Meninos e
meninas que ficam na frente de telinhas são menos ativos do que os que
correm no parque, sobem em árvores...
BBC Brasil: E os transtornos psicológicos?
Richard: São
muitos e são novos. Porque até a poucos anos atrás, era raro os
pediatras atenderem crianças bem novas com sintomas de depressão. Também
posso citar transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH),
além de problemas cognitivos.
BBC Brasil: Como a natureza pode amenizar esses problemas?
Richard: Hoje,
há muitos estudos mostrando que contato com a natureza - ainda que
pequeno e por pouco tempo - podem reduzir os sintomas desses distúrbios.
Uma pesquisa de um grupo na Universidade de Chicago que estuda
distúrbios de atenção entre crianças comprovou que meninos e meninas de 5
anos tiveram uma melhora significativa com caminhadas curtas em
parques.
Pesquisadores da Universidade de Essex também mostraram
impactos psicológicos mensuráveis em adultos depois de apenas cinco
minutos andando entre árvores. Porque adultos, obviamente, também se
beneficiam do contato com a natureza.
BBC Brasil: Você acha que conviver com a natureza é mais eficiente do que receitar remédios?
Richard: Veja, não estou dizendo que
remédios como a Ritalina (usado para o tratamento de transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade, por exemplo) são ruins. Eles podem
ser muito úteis para alguns casos.
Mas quando se têm escolas nos
EUA em que 30% dos meninos tomam Ritalina, sabemos que algo não está
certo. E os pediatras sabem disso. [O Brasil é o segundo maior
consumidor do medicamento no mundo, com cerca de 2 milhões de caixas
vendidas em 2010 - um aumento de 775% na última década, segundo a
Anvisa.]
BBC Brasil: Sabem mesmo?
Richard: Acredito
que muitos estão passando a se dar conta disso. E vejo cada vez mais
profissionais começando a prescrever "brincar no parque". Prescrever
mesmo, por escrito.
Em algumas partes dos EUA, por exemplo,
associações de médicos começaram a usar dados com mapeamento das áreas
verdes de suas cidades. Assim, dizem para os pais "tem um boques a duas
quadras da sua casa, portanto não há desculpas para levar seu filho lá
duas vezes por semana."
BBC Brasil: E o que exatamente
acontece com essas crianças que são taxadas, corretamente ou não, de
hiperativas quando elas passam mais tempo em áreas verdes.
Richard: Essa
mudança costuma ser visível e rápida. Vou dar um bom exemplo. Recebo
muitos comentários de professores que passaram a incluir mais passeios
ao ar livre em suas turmas.
E, juro, perdi a conta de quantos
professores me falaram exatamente a mesma coisa, com praticamente as
mesmas palavras: "Richard, é impressionante. Meu aluno que é
encrenqueiro na classe se transforma no líder quando estamos no parque."
E o que estamos fazendo com essas crianças? Dando Ritalina.
BBC Brasil: Isso também mostra como o papel da escola é importante, não?
Richard: Com
certeza. Eu diria inclusive que em grandes cidades, as escolas devem
liderar o caminho de resgate do convívio das crianças com a natureza, já
que as áreas verdes são poucas e a vida dos pais é corrida.
E há
estudos mostrando que uma educação baseada no meio ambiente melhora o
aprendizado não somente em áreas ligadas à ciências da terra, por
exemplo, mas também em idiomas, matemática, história.
BBC Brasil: Mas como isso acontece?
Richard:
Há muitos exemplos. São alunos aprendendo a somar ou dividir na beira
de lagos. São escolas que exploram as áreas verdes não só em suas
dependências mas também no bairro.
Há dados impressionantes
mostrando como alunos de escolas baseadas no meio ambiente se saem
melhor em testes tradicionais e também desenvolvem melhor a capacidade
de ter um pensamento crítico, de solucionar problemas, de tomar
decisões, entre outras características cognitivas.
BBC Brasil: E esses impactos positivos se dão sempre que a criança tem mais contato com a natureza, seja na escola ou não?
Richard:
Exato. Pegue os exemplos dos parquinhos. Há dois tipos: os com
brinquedos estruturados (escorregador, balanço, etc) e os chamados
"playground de aventuras", em que em vez dos pisos de cimentos, temos
terra, areia, grama; e não tem brinquedos prontos, e sim tocos de
madeiras, morros e afins.
Pesquisas mostraram que crianças
brincando nesse playground natural tinha uma propensão muito maior de
inventar seus próprios jogos, de convidar outras crianças para a
brincadeira, inclusive crianças de outras idades e outros gêneros, e de
brincar de uma maneira mais cooperativa.
É isso que a natureza proporciona para as crianças.
BBC Brasil: Você cita muita crianças
pequenas. Para uma mais velha, com 10 ou 11 anos por exemplo, é tarde
demais para reconquistar esse convívio com o ambiente natural?
Richard: De
jeito nenhum. Nunca é tarde demais. É claro que o ideal seria começar
isso desde de bebê até os 3 anos. Mas o nosso cérebro tem o que se chama
de plasticidade. E graças a ela abrem-se janelas para mudar o caminhos
neurológicos que usamos para aprender ou perceber coisas novas em
qualquer idade.
BBC Brasil: A poucas quadras daqui, há
uma área (na Rua Augusta, centro de São Paulo) que virou alvo de disputa
e que pode tanto virar um grande empreendimento imobiliário como um
parque municipal. Certamente há disputas assim em todas as grandes
cidades do mundo. Como o sr. se posiciona diante dessas situações?
Richard: É
preciso ter uma visão pragmática. Por isso eu diria que o prefeito
precisa colocar na ponta do lápis. Quanto a cidade gasta com saúde
pública, com problemas como síndromes respiratórias, sedentarismo e
saúde mental? Uma área verde no meio da cidade pode ajudar nisso.
Outro
ponto: já está mais que provado que quando há um parque natural em uma
determinada área, todo o entorno é valorizado, elevando o valor de
mercado das propriedades ao redor. Isso também precisa entrar na conta.
Aliás, a gestão municipal pode fazer muita diferença.
BBC Brasil: Por quê?
Richard: Eu
queria lançar um desafio para o prefeito de São Paulo, como eu fiz na
China. A cidade tem metas de ser uma cidade rica em áreas verdes? Isso
pode entrar no marketing da cidade, para atrair grandes empresas, por
exemplo.
Quais as metas de São Paulo ou de outras cidades no
Brasil para ter mais parques, áreas de caminhadas, playground naturais,
trilhas?
BBC Brasil: O sr. acha que isso hoje não é encarado como prioridade?
Richard:
Bem longe disso. Um parque é encarado como uma coisa a mais para se
ter, algo extra, um mimo. Enquanto pensarmos assim, nada vai mudar.
Porque
a verdade é que uma área verde não é algo legal para se ter, é algo do
qual todos precisam. É parte da nossa humanidade ter contato com a
natureza, é parte dos direitos humanos básicos, como muitos órgãos
internacionais já reconheceram. Por isso não pode ser negado pelas
autoridades.
BBC Brasil: Além das autoridades e das escolas, qual o papel dos pais nessa retomada de contato das crianças com a natureza?
Richard:
Como em tudo, os pais precisam ser exemplos. Precisam também usufruir
da natureza - mesmo porque isso é benéfico para todas as idades.
Precisam proporcionar passeios ao ar livre para as crianças, mostrar a
importância desse contato...
BBC Brasil: Mas será que os pais que vivem dias corridos nas cidades dão conta disso também?
Richard: É
importante é deixar claro que não é preciso ir acampar toda a semana,
fazer trilhas na mata todo dia. O convívio com a natureza se dá também
em atos simples, compatíveis com o dia a dia corrido das famílias
atuais.
É ter uma hortinha em casa ou até na varanda do
apartamento, é aproveitar áreas ao ar livre como quadras esportivas,
quando não houver um super parque perto de casa. E até mesmo ler "Tom
Sawyer" ou outros livros que despertem o encantamento das crianças com a
natureza.
O segredo da saúde mental e corporal
está em não se lamentar pelo passado, não se preocupar com o futuro, nem
se adiantar aos problemas, mas viver sabia e seriamente o presente.
Estudos
recentes mostram a relação entre a diversidade de bactérias que vivem no
intestino humano e doenças como a depressão e a ansiedade
Até pouco menos de uma década atrás, mudar o comportamento de uma
pessoa com um transplante de fezes pareceria uma loucura. E não é algo
que ocorrerá amanhã, mas as pesquisas com animais sugerem que talvez não
seja uma ideia tão descabida. O que é averiguado nos laboratórios sobre
a influência das bactérias que vivem em nosso intestino indica que elas
não desempenham somente tarefas fundamentais para a saúde de nosso
estômago. Influem também no estado do cérebro.
Essas bactérias já foram transplantadas experimentalmente em humanos
para combater infecções intestinais e da mesma forma, através da dieta e
alimentos probióticos, que incluem microrganismos, serviriam para
tratar doenças psiquiátricas e neurológicas.
Várias experiências com animais, principalmente ratos de laboratório
criados em condições muito controladas, mostraram que os microrganismos
do intestino podem afetar seu comportamento e modificar o equilíbrio
químico de seu cérebro. Foi comprovado, por exemplo, que quando são
introduzidas fezes de humanos com depressão em ratos estes desenvolvem
sintomas próprios dessa doença. Em nossa espécie, também foram
observados vínculos entre doenças gastrointestinais e patologias
psiquiátricas como o autismo, a ansiedade e a depressão.
Transplantar fezes de pessoas depressivas a ratos induz a doença nos animais
“Já foram realizados estudos em humanos nos quais se compara a
microbiota de pessoas sãs com a de outras que têm determinada doença e
foi visto que modificando o ecossistema intestinal e suas funções é
possível reduzir os estados de ansiedade”, explica Yolanda Sanz,
pesquisadora do CSIC e coordenadora do projeto europeu MyNewGut,
iniciativa financiada com 9 milhões de euros (35,6 milhões de reais)
pela União Europeia para o estudo das bactérias intestinais. Mas
acrescenta que “não existem evidências de causa e efeito em doenças mais
graves”.
Sanz menciona também o interesse de algo que quase todo mundo já
experimentou, a relação entre estados emocionais alterados e o mal-estar
intestinal. “Em pessoas com alterações gastrointestinais, como síndrome
de intestino irritável, foram observados problemas como a ansiedade e
até mesmo depressão”, diz Sanz. “Nesses pacientes com esses transtornos
mentais, foi observado que metade tinha problemas no sistema digestivo”,
continua.
Agora, afirma a cientista do CSIC, resta o desafio de compreender o
que é causa e o que é efeito nas relações entre problemas intestinais e
mentais. Uma das formas de consegui-lo consistirá em realizar
intervenções nos pacientes, “através de alimentos e bactérias
prebióticas e probióticas” que modifiquem os equilíbrios entre micróbios
que marcam a diferença entre a doença e a saúde.
Sanz reconhece,
entretanto, que o conhecimento ainda é escasso para se pensar em
intervir com sucesso no ecossistema microbiano: “Existem algumas
publicações que mostram que alguns probióticos podem reduzir a
ansiedade, mas são estudos pequenos que em sua maioria não foram
reproduzidos”. “É cedo para podermos fazer recomendações generalizadas,
porque a complexidade do ecossistema intestinal é muito alta e é
simplista pensar que com somente uma bactéria vamos solucionar o
problema. Precisaremos pensar em modificar o ecossistema com
intervenções mais integrais”, conclui.
Alguns probióticos conseguiram reduzir a ansiedade, mas em experimentos não replicados
Pesquisadores de todo o mundo começam a identificar os mecanismos
através dos quais as bactérias do intestino, mediante a produção de
hormônios e as moléculas que geram ao se alimentarem, modificam a
química de nosso cérebro. Mas por enquanto o conhecimento sobre a
influência do microbioma veio mais através do estudo de correlações do
que pela análise dos processos concretos que as produzem. Uma série de estudos publicada recentemente na revistaScience
mostrou que uma diversidade bacteriana maior no intestino estava
relacionada com uma saúde melhor.
Além disso, vinculou essa diversidade
ao consumo de iogurte e café, e indicou alguns fármacos como os
ansiolíticos e os antibióticos e comer demais como culpados na queda na
variedade microbiana.
A complexidade do problema pode ser entendida através dos números
sobre a flora intestinal. Cada pessoa tem em seu estômago mais de um
quilo de microrganismos, a maioria bactérias, de 1.200 espécies
diferentes. Não será fácil manipular essa engrenagem para ajustá-la às
nossas necessidades sem produzir efeitos indesejados.
“Estamos diante de um campo promissor, mas ainda incipiente”, diz
Vicent Balanzá, pesquisador de Centro de Pesquisa Biomédica em Rede de
Saúde Mental na Universidade de Valência. “A maior parte dos estudos é
feita com ratos e temos o problema de replicá-los em humanos, e os
estudos em humanos são transversais, de modo que temos problemas para
identificar a causalidade”, prossegue. “Outra pergunta que ainda está no
ar é qual é composição que consideramos normal e saudável da microbiota
humana”, acrescenta.
Cada pessoa tem em seu estômago mais de um quilo de microrganismos de 1.200 espécies diferentes
Já existem ensaios clínicos com probióticos para tratar a depressão
que melhoram os sintomas, mas são resultados que precisam ser
confirmados. Além desses produtos que incluem micróbios benéficos,
Balanzá destaca as possibilidades da dieta para reparar a microbiota
humana danificada associada à doença mental.
“Temos dados científicos de
que uma boa dieta, como a mediterrânea, aumenta a diversidade da
microbiota intestinal e tem efeitos anti-inflamatórios”, diz. O
psiquiatra da UV afirma que essas intervenções “são consideradas junto
com psicofármacos e outros tratamentos”.
Dada a heterogeneidade dos transtornos psiquiátricos, que são
definidos por sintomas que podem ter bases fisiológicas diversas, não é
possível realizar um tratamento único. Balanzá indica que será preciso
distinguir condições particulares dentro de doenças que têm o mesmo
nome. No caso da depressão, por exemplo, o pesquisador explica que
“graças aos estudos de Michael Maes, sabemos que um terço dos pacientes
com depressão apresenta a síndrome de intestino permeável”.
“Não
encontramos essa síndrome em todas as pessoas com depressão, de modo que
as intervenções com a intenção de modular a microbiota intestinal não
seriam úteis a todos os pacientes, seria preciso identificar aqueles que
podem se beneficiar das intervenções”, afirma.
O estudo do microbioma pode ser um caminho para compreender as
conexões entre o estado de ânimo e a saúde física que seriam produto de
processos comuns. A inflamação é um nexo comum que une a diabetes,
doenças autoimunes e o câncer e poderia ajudar a explicar o fato de
aparecerem com certa frequência com algumas doenças mentais como a
depressão associadas a outras inflamatórias como a síndrome do intestino
irritável.
Entender o papel dos micróbios que vivem em nosso intestino
na inflamação ajudaria a fornecer uma visão mais ampla sobre um conjunto
de doenças que, mesmo parecendo isoladas, poderiam ser tratadas com
maior possibilidade de sucesso com uma visão mais ampla. Assim, conclui
Balanzá, poderão ser feitas intervenções em psiquiatria “com tratamentos
que habitualmente são vistos como medicina alternativa, como a dieta, o
exercício e padrões de sono adequados” sabendo por que afetam a saúde.